Entrevistas
Wellington Melo: é preciso um trabalho grande na promoção do país

Projetado pelo consagrado arquiteto Ruy Ohtake, com design de João Armentano e paisagismo assinado por Gilverto Elkis, o hotel Unique é uma joia do design na capital paulista. O edifício, inaugurado em 2002 e idealizado pelo empresário Victor Siaulys, abriga o renomado Skye, restaurante comandado pelo chef Emmanuel Bassoleil e que virou point para famílias, amigos, encontros de negócios ou românticos.

Quem está à frente da gestão da propriedade é Wellington Melo, desde 2021 na cadeira de diretor geral. Nesta entrevista, o profissional fala um pouco sobre sua visão de concorrência, a promoção do Brasil no exterior, o conceito ESG e a importância do segmento de Alimentos e Bebidas para a propriedade.

1) Como você enxerga a chegada de novas bandeiras de luxo na cidade de São Paulo. Acredita que a hotelaria e os produtos de luxo são ferramentas eficientes para a promoção da cidade?

A chegada dessas novas marcas é extremamente importante, acho que contribui para elevar cada vez mais os nossos serviços e a entrega para nossos clientes. Vejo a competitividade como algo, de certa forma, positivo, porque precisamos sempre nos aprimorar, entender quais são os nossos diferenciais. Existe cliente para todo mundo e, a partir do momento em que você entende o seu produto, você consegue atingir esse cliente de uma forma um pouco mais fácil.

O que eu vejo com muita atenção é justamente a questão da mão de obra para conseguir entregar essa qualidade. Nós já temos uma dificuldade de conseguir colaboradores para a hotelaria. As pessoas têm buscado sair da realidade da escala seis por um e do trabalho no final de semana. Então, acredito que um desafio é fazer a captação desses profissionais a fim de mantermos o serviço de qualidade que os nossos clientes estão exigindo.

Café na manhã no Skye. Foto de Helena de Castro

2) Você acredita que o produto de vocês e outras propriedades de luxo na cidade ajudam a promover o destino? São Paulo é bem promovido?

Eu acredito que ajuda sim a promover o destino, e vejo que São Paulo hoje é um pouco mais promovido do que antes, mas ainda existe um trabalho muito grande a ser feito. Quando eu participo de eventos fora, é interessante ver como o destino Brasil é muito desconhecido. Nossos vizinhos, como a Argentina e até mesmo o Chile são muito mais conhecidos do que nós.

As pessoas têm muito mais propriedade sobre o que existe em cada um desses países do que nós temos aqui no Brasil. Quando mostramos a diversidade de lugares possíveis de serem visitados, perguntam isso é no Brasil. Os estrangeiros resumem o Brasil a Rio de Janeiro e Cataratas. Quando você mostra São Paulo, eles ficam até surpresos com a dimensão da cidade

Queira ou não, São Paulo é uma das portas de entrada dos voos internacionais. Então o trabalho deve ser feito não só como destino, mas talvez seja interessante um stop over na cidade para que as pessoas conheçam o que nós oferecemos. No entanto, acho que antes de promover São Paulo, é preciso fazer um trabalho muito grande de promoção do nosso país.

3) São Paulo ainda é um destino com convocação puramente corporativa ou, olhando para o seu público, o lazer está chegando?

Nós percebemos uma virada de chave em relação a isso. Posso até dizer que foi depois da pandemia que as pessoas começaram a observar São Paulo como um destino de lazer. Hoje em dia, até os estrangeiros chegam com dicas para aproveitar a cidade de pessoas que já estiveram aqui.

Recepção

4) As redes hoteleiras e as grandes marcas estão muito engajadas nos conceitos ESG. O que o Unique tem feito para atender essa demanda da mídia, que cobra muito a questão da gordofobia e da inclusão da pessoa com deficiência?

O Unique desde sua concepção preza pela diversidade. Então, de forma intuitiva, sempre nos enxergamos como uma equipe diversa. O que estamos fazendo hoje é tornar tudo isso mais propositivo. Temos um trabalho sendo feito para essa questão de ESG em todos os seus pilares. Especificamente na questão de diversidade, temos um comitê composto por funcionários de diversos departamentos.

Fizemos recentemente um censo da nossa população para entender onde estamos. Depois do mapeamento, começamos com as ações para atingirmos os nossos objetivos. Agora estamos aplicando um censo também em relação à liderança para verificar se a população como um todo reflete o que temos na liderança. Assim, poderemos fazer um trabalho positivo desde o momento da contratação.

Outro ponto que estamos desenvolvendo é a criação de um departamento de sustentabilidade dentro da empresa. Uma pessoa que já trabalhava conosco em outra área está se preparando para assumir esse desafio. Estamos nos adequando para conquistar o selo Green Key e também queremos ser uma empresa B. Este é um mundo sem volta, não tem como não se adequar a essa nova realidade.

5) Você acha que tem muita empresa fazendo greenwashing?

Esse é um assunto muito importante. Precisamos sempre ter muita assertividade sobre o que divulgamos. Não queremos ter um selo, como se diz, para inglês ver. Nosso trabalho tem que ser algo genuíno. Talvez não estejamos andando em uma velocidade tão grande quanto gostaríamos, mas é porque queremos que o trabalho seja realmente muito bem feito.

E, muitas vezes, ações pequenas fazem a diferença. Por exemplo, os uniformes da recepção. Antigamente, os homens usavam calça, camisa e colete; e as mulheres, vestido. Era o padrão socialmente aceito. Hoje, as mulheres podem escolher usar vestido ou calça, camisa e colete. É uma pequena mudança, um detalhe que nos rendeu muitos comentários extremamente positivos.

Piscina no rooftop

6) Como está o desempenho do segmento de A&B no Unique, visto que a propriedade já nasceu quebrando paradigmas a respeito da qualidade do restaurante de hotel. Qual é a percepção do consumidor com relação ao que vocês oferecem?

O nosso restaurante, o Skye, sempre foi uma grande força, desde a concepção do hotel. No começo, a marca Sky era mais famosa que a Unique, e acredito que essa foi uma estratégia muito inteligente do fundador do hotel. Os dois produtos possuem identidades diferentes, são independentes. Enquanto no hotel temos as cores verde, preto e branco; no Sky estão o laranja, o branco e o preto. O Skye há 20 anos é sucesso, virou ponto de encontro na cidade e representa uma fatia boa em termos financeiros.

Hoje, o restaurante é responsável por um terço da receita do empreendimento, enquanto o setor de eventos responde por um terço, e a hospedagem, o outro terço. Claro que tenho uma leve oscilação de um mês para o outro, mas, de modo geral, 50% do faturamento vem do setor de Alimentos e Bebidas e os outros 50% são divididos entre salas de eventos e hospedagem.

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