Neil Jacobs: sustentabilidade e bem-estar
Reconhecida mundialmente pelo alto padrão de serviço, a Six Senses não se preocupa apenas com o glamour do segmento de luxo, mas também com o bem-estar e a sustentabilidade. É um conceito que promove atividades regeneradoras, beneficia comunidades locais e reduz o impacto humano na terra. Inclusive, esta é a mesma visão que compõe o DNA de Neil Jacobs, CEO da rede. Com passagens por grandes empresas, incluindo Four Seasons e Starwood, o executivo fala seis línguas e possui uma bagagem intelectual extensa. Estudou Hotelaria na Universidade de Westminster, Civilização Francesa em Sorbonne e Cultura e Arte Italiana em Florença. Hoje, o foco principal enquanto líder é manter a expansão sem esquecer da responsabilidade com os valores da marca, turismo consciente e projetos sociais e ambientais. No final de 2020, a rede chegou ao Brasil assumindo a operação do Botanique, em Campos do Jordão (SP), e se prepara para inaugurar o Six Senses Baía Formosa, no Rio Grande do Norte.
Hotelnews: Como foi a sua trajetória na hotelaria até chegar ao Six Senses?
Neil Jacobs: Estudei língua e literatura e fui para a faculdade em Paris por um tempo. Depois segui rumo à Florença para estudar história da arte. Sabia que queria viajar e usar outros idiomas no cotidiano, então concluí que o ramo de hotelaria era uma boa maneira de atender esse desejo. O meu primeiro emprego de verdade foi em Portugal, em seguida na Sardenha e continuei a jornada. Iniciei na área de Alimentos e Bebidas, traçando um caminho para me tornar gerente geral. Meu primeiro trabalho neste cargo foi em Seychelles, uma ótima experiência, e foi aí que comecei a trajetória na administração de hotéis. Minhas posições incluíram cargos de vice-presidente executivo na New Europe Hotels NV, IDG Resorts, Grand Champions Resort Corporation e Venture Inns of America. Mais tarde, fui para o Four Seasons, onde estive por 15 anos e cuidava da operação de 16 hotéis em toda a região Ásia-Pacífico, com 10 propriedades adicionais em desenvolvimento na China, Índia, Vietnã e ilhas do Oceano Índico. De lá, mudei para o Starwood Capital Group como presidente de Operações Hoteleiras Globais, sendo responsável pelo desenvolvimento de duas novas marcas inovadoras: Baccarat e 1 Hotels, inauguradas somente em 2014. Cheguei à Six Senses em 2012.
HN: Conforme mencionado anteriormente, você atuou nas redes hoteleiras de luxo Four Seasons e Starwood, incluindo marcas como Baccarat e 1 Hotels. Desde o começo da sua carreira, o que mudou neste segmento?
NJ: A mudança mais proeminente em nosso setor e, em geral, no mundo, aconteceu nos últimos 18 meses. Sou uma daquelas pessoas que acredita que nunca seremos exatamente como éramos antes da pandemia. Há uma maior consciência e atenção plena. Estamos mais preocupados com o que fazemos agora e o porquê disso, sobre a maneira como levávamos nossas vidas, as coisas que são possíveis de mudar daqui para frente e como impactamos aqueles ao nosso redor. Como empresa, sempre trabalhamos muito para nos mantermos atualizados. Nosso princípio básico é que o bem-estar e a sustentabilidade estão interligados. Nenhum dos dois trata-se de sacrifício, mas de abundância e da necessidade de uma conexão recíproca entre a saúde humana e a do planeta. No ano passado, desafiamos a visão da nossa marca de reconexão e isso nos permitiu perceber que a chave não era mudar quem somos, mas ampliar e aprofundar esses pilares do nosso DNA. Também queríamos ser mais ousados e confiantes, refletindo melhor o grupo que somos hoje e o respeito, confiança e carinho que conquistamos de nossos proprietários, hóspedes, funcionários e parceiros até o momento. Em alinhamento aos valores da Six Senses, isso inclui uma atenção não apenas para o que fazemos, mas também para a forma como fazemos. Amor, compaixão, gratidão e curiosidade desempenham um papel fundamental na construção de confiança e respeito mútuo. Eles são a chave para a criatividade, produtividade, realização no trabalho e, por fim, a satisfação, lealdade e recomendação do hóspede. Depois de mais de 35 anos no setor, nunca pensei que usaria palavras, como empatia e amor, para me referir ao trabalho, mas é assim que evoluímos e ganhamos fôlego com o que fazemos.
Acredito na criação de demanda por meio de inovação constante, iniciativas e atividades personalizadas para a saúde e o bem-estar de cada hóspede
HN: O que te motivou a trabalhar com a marca Six Senses?
NJ: Foi a oportunidade de aplicar minhas habilidades e experiência a esta marca única, e liderar um grupo de profissionais dedicados. Também exerceram influência a minha paixão pessoal por bem-estar e sustentabilidade, além da vontade de tornar as viagens algo com mais propósito. Quando entrei para a empresa, um dos nossos objetivos era criar uma presença global e permitir que as pessoas experimentassem a marca em diferentes ambientes. Além de localizações exóticas, queríamos estar em destinos-chave e cidades que são portas de entrada em todo o mundo. O foco tem sido elevar a marca em termos de design responsável, iniciativas verdes e programação de wellness. Acredito na criação de demanda por meio de inovação constante, iniciativas e atividades que sejam significativas e personalizadas para a saúde e o bem-estar de cada hóspede. Igualmente importante é a exigência de que as comunidades locais sejam beneficiadas e que as propriedades operem em harmonia com o meio ambiente. Nos orgulhamos pela Six Senses realmente ter criado um nicho próprio, sem esquecer da empatia.
HN: De que forma a sustentabilidade e o bem-estar fazem parte do DNA da Six Senses?
NJ: Estes elementos estão completamente enraizados na cultura da empresa, conduzindo as principais decisões que tomamos. De uma perspectiva de negócios, potencialmente recusaríamos propostas caso os responsáveis pelos projetos não tivessem uma visão compatível com as duas filosofias. Definimos certos padrões de marca que ditam o que precisamos fazer nas áreas de sustentabilidade e bem-estar, e eles não são negociáveis porque somos quem somos. Temos um WIT (Wellness Innovation Team) que passa 50% do tempo criando conteúdo sobre bem-estar. Este segmento deve estar muito bem estabelecido para uma execução de maneira adequada, compondo a cultura da empresa. Concentramos nisso, não apenas para nossos hóspedes, mas também para nossos funcionários, que chamamos de hosts (anfitriões). Demoramos dois anos para desenvolver um programa estimulante, o Mission Wellness, que define padrões sobre como cuidamos deles de uma perspectiva do
bem-estar. Já a sustentabilidade faz parte da herança da Six Senses, e a observamos de muitos ângulos. Existe claramente o elemento relacionado à forma como construímos hotéis e resorts. E em qualquer novo projeto que fizermos, contratualmente, os proprietários têm que alocar meio por cento da receita total para atividades sustentáveis que sejam relevantes para suas localizações. Há mais de 20 anos não recebemos água importada em nossas propriedades e declaramos publicamente que, em 2022, seremos totalmente plastic free.
HN: De que maneira o Six Senses implementa ações mais responsáveis para o meio ambiente e comunidades locais?
NJ: Cada propriedade já tem um gerente de Sustentabilidade, mas agora eles também ocupam um lugar no comitê executivo de cada hotel. Não nos resumimos à meta de nos livrarmos dos plásticos até 2022. Quando se trata de sustentabilidade, é importante que as empresas garantam que suas ações sejam mensuráveis e significativas. No Six Senses, monitoramos o desempenho ambiental de cada propriedade, apoiamos a preservação do patrimônio natural e cultural, e como eles contribuem com as comunidades locais. Nossos resultados estão disponíveis no site: sixsenses.com/en/sustainability/results. Também é importante que as propriedades localizadas em belas paisagens e próximas à natureza tenham um maior cuidado na preservação, proteção e reconstrução dos ambientes. De recifes de coral à selva exuberante, cada um de nossos hotéis demonstra um compromisso inabalável de proteger as espécies ameaçadas de extinção na terra e na água. Já os urbanos são dedicados ao fortalecimento da cultura e da comunidade local – e lidamos apenas com fornecedores que compartilham deste compromisso. Em 2017 demos um passo adiante com o lançamento do Earth Lab, que é o lugar onde cada propriedade mostra seus esforços concretos para reduzir o consumo, produzir localmente e apoiar comunidades e ecossistemas. Os hóspedes são convidados a acessá-lo para que se reconectem com o mundo natural e aprendam alguns truques de vida simples, incluindo conteúdo em vídeos de tutoriais no YouTube, que lhes permitirão fazer a diferença. Todas as propriedades mantêm um fundo de sustentabilidade, que é composto por 0,5% das receitas, vendas de brinquedos de pelúcia e 50% das vendas de água. Esse dinheiro é usado localmente em projetos com foco social ou ambiental, e os investimentos são feitos de maneira que apoie a igualdade de acesso a uma melhor qualidade de vida para todos.
HN: Como é construída a experiência do cliente e o que torna diferente a estadia em cada hotel Six Senses pelo mundo?
NJ: Hoje os turistas procuram experiências ao invés de lugares, e aprendizado no lugar de simplesmente viajar. Nossa estratégia sempre foi baseada na busca por locais únicos e maravilhosos em destinos que contam uma história, ao mesmo tempo em que oferecem atividades fora do comum, gerando surpresa e encanto. A inovação em todas as áreas do negócio é fundamental. E o desejo de desafiar, interromper e evoluir com o feedback dos clientes leais garantirá que permaneçamos relevantes nestes tempos incomuns.
Quando se trata de sustentabilidade, é importante que as empresas garantam que suas ações sejam mensuráveis e significativas
HN: Quais são os critérios para escolher um novo destino ou empreendimento de conversão?
NJ: Cada propriedade deve estar em um lugar único e ter uma personalidade própria que reflita o destino e sua cultura e história, alinhada com os valores da nossa marca. Por exemplo, o Six Senses Bhutan incorpora um rico circuito de cinco locais para a experiência do hóspede, e a oferta de bem-estar celebra a pedra de toque única do Butão que é a Felicidade Interna Bruta – conceito de desenvolvimento social criado em contrapartida ao Produto Interno Bruto. Já o Brasil não tinha um hotel profundamente e exclusivamente brasileiro. O Botanique, em Campos do Jordão (SP), foi construído ao longo de muitos anos para preencher este nicho, com arquitetura e interiores totalmente locais. Também oferece uma gastronomia de inspiração regional, spa e cosméticos. Somado a isso, havia uma equipe dedicada que aprendeu seu ofício em um novo formato que eliminou os departamentos. Nada era mais adequado do que trazer uma joia com essa para o portfólio da Six Senses.
HN: Após a conversão do Botanique, como estão os projetos de expansão do hotel? E o Six Senses Baía Formosa, no Rio Grande do Norte?
NJ: Apesar da pandemia, o resort está indo bem, com muito interesse do mercado local. As reformas no spa, villas e instalações adicionais seguem em andamento. Já em relação ao Six Senses Baía Formosa, a data de abertura foi adiada devido à situação atual.
HN: Você acredita que o Brasil tem potencial para desenvolver a hotelaria de luxo?
NJ: O Brasil é grande, bonito e diversificado, e levaria muitos meses para descobri-lo como um destino. Definitivamente, há espaço para mais projetos que mostrem sua beleza natural, seu ritmo, arquitetura, arte e cultura e conectem os viajantes com o povo alegre.
A entrevista foi publicada na edição 420 que pode ser lida aqui ou no nosso app, disponível para download na Apple Store e no Google Play

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