Doces artesanais

Hotelaria aposta em produtos caseiros para encantar clientes

por Leila melo

Dos grandes restaurantes para a cozinha dos hotéis e das pousadas brasileiras. Os doces caseiros feitos de maneira artesanal se posicionam, cada vez mais, como opções diferenciadas nos menus da hotelaria nacional e como símbolos de conexão com a cultura do País e suas inúmeras regiões. “A culinária caseira deixou há muito tempo de ser utilizada apenas entre amigos para se tornar um importante instrumento de autoestima e, acima de tudo, um diferencial capaz de surpreender aos mais diversos paladares, inclusive dos estrangeiros”, afirma a chef Ana Luiza Trajano, que comanda o restaurante Brasil à Gosto, na capital paulista.

A hotelaria é fundamental para que esse movimento de valorização siga crescendo e proporcione momentos únicos para seus visitantes. Regionalizar o cardápio, desenvolvendo produtos a partir de ingredientes locais, segundo Ana Luiza, são os primeiros passos para um empreendimento que queira ir além da oferta de um doce, transmitindo, em contrapartida, uma autêntica experiência gastronômica.

Enquanto no Sul do Brasil, as chimias, espécies de geleias, conferem um charme especial às mesas de café colonial dos hotéis; as compotas e as cocadas não podem faltar nas pousadas de Minas Gerais. “Esses doces devem ser servidos de forma mais leve. Mesmo controlando a quantidade de açúcar, não há perda nenhuma de sabor. A proposta é mostrar o que o País tem de melhor”, completa a chef.

Essa questão da brasilidade pode ser estendida aos grandes hotéis na forma de amenities. Gabriela Otto, sócia-diretora da consultoria GO Associados, lembra que a oferta de produtos 100% nacionais nos minibares instalados nos quartos garante ao empreendimento uma exclusividade e pode reverter em uma maior rentabilidade.

O Unique Garden Hotel & Spa, localizado em Mairiporã, na Grande São Paulo, é um exemplo desse conceito. “Embora a confeitaria brasileira seja simples, ela desperta sentimentos e sensações boas. Ao incluir doces em nosso minibar, buscamos acolher e cativar o paladar do hóspede estrangeiro por meio do sabor”, destaca Julio Goudinho, chef assistente do hotel, realçando que a bananinha é o doce que mais vezes é reposto semanalmente nas suítes do hotel.

Além desse quitute, o minibar do Unique Garden traz milhos aperitivos com crosta doce, uma linha de bombons de chocolate amargo com recheios de capim santo, alecrim e lavanda; e refrigerantes ícones da cultura brasileira, como a Tubaína, o guaraná Jesus, natural do Maranhão e considerado patrimônio imaterial, e o guaraná Cruzeiro, original do interior paulista.

No Unique Garden, todos os doces disponíveis nos menus de almoço e jantar saem direto dos pomares para o restaurante. Entre eles, a cocada de colher, o doce de leite caseiro, as geleias de frutas vermelhas e de kiwi, as rabanadas e as tapiocas. “Uma porcentagem grande dos pratos que oferecemos são produzidos na propriedade do resort, inclusive a granola sem glúten”, comenta Goudinho.

Com um importante fluxo de hóspedes internacionais, em particular de norte-americanos e europeus, o Unique Garden possibilita um programa de imersão na gastronomia brasileira. De acordo com o chef assistente, essa foi a maneira que o empreendimento encontrou para preservar e compartilhar os aromas e sabores do País. “Muitos deles participam da elaboração de nossos bolos caseiros e recheados com frutas silvestres que eles nem sabiam que existiam, como a jabuticaba. É recompensador observar que conseguimos surpreendê-los através de nossa comida”, completa Goudinho.

Pelo interior do Brasil

Pelas diferentes regiões do País, os doces artesanais e caseiros têm espaço cativo e refletem, sobretudo, a grande diversidade da cozinha brasileira. Boa parte dessa deliciosa oferta está concentrada nos empreendimentos que integram a Associação de Hotéis Roteiros de Charme. Atualmente, a entidade soma 65 hotéis e pousadas situadas em 16 estados do Brasil. Na zona rural da serra fluminense, a 159 km da cidade do Rio de Janeiro, o Parador Lumiar é famoso pelo doce de leite que produz e oferece aos turistas hospedados em um dos 13 chalés da pousada. “Estávamos para inaugurar em 2004 quando uma forte chuva interrompeu o acesso da estrada de terra que ligava a propriedade à cidade. Ficamos 45 dias isolados e para passar o tempo decidimos utilizar o leite que tirávamos da vaca para preparar o doce. Não por acaso, o doce de leite acabou se transformando em nossa marca registrada”, conta Marcelo Fontes, proprietário do empreendimento.

Produzido até hoje, o doce de leite compete com outras sobremesas, como o pudim de claras, o doce de abóbora e coco cristalizado, e o de banana prata. “Recentemente criamos a pasta de carambola que pode ser degustada pura ou acompanhada por queijo minas”, diz Fontes. Além de ter como opções para sobremesas, o Parador Lumiar também oferece as guloseimas como cortesia para os hóspedes no momento do check-out. Ao invés dos produtos industrializados, o Parador Luminar aposta em pratos que remetem às lembranças de infância dos brasileiros e aguçam o paladar dos estrangeiros que visitam a região. “Os doces de banana e de goiaba são os preferidos pelos turistas de fora”, conclui Fontes.  

Também em território fluminense, localizado na cidade de Teresópolis, o Hotel Fazenda Rosa dos Ventos investe na filosofia da comida caseira para agradar aos hóspedes. Um dos destaques é a cocada feita pela diretora do hotel, Elisabeth Agra, que aprendeu a receita com a avó. “Todas as compotas e os doces são preparados com ingredientes produzidos em nossa propriedade ou fornecidos por produtores da região e que vão desde a manteiga e o creme de leite ao queijo de cabra”, explica Elisabeth. Na verdade, a culinária brasileira foi incorporada em todos os momentos de refeições no hotel.

As geleias de mamão, amora, morango e banana dão o tom do café da manhã. Já a banana caramelada, o doce de leite e o doce de coco com canela compõem o cardápio de sobremesas do restaurante. A equipe do hotel produz os doces e os bolos no dia em que será servido ou, no máximo, na véspera. Ao longo desse processo, são preparados de forma sustentável, usando um teor menor de açúcar e, muitas vezes, o próprio melaço. O objetivo, de acordo com Elisabeth, é garantir um sabor mais palatável, principalmente para os hóspedes estrangeiros. Durante o ano todo, o Rosa dos Ventos recebe muitos franceses, alemães, australianos, ingleses e holandeses. “Temos o cuidado de entender o perfil de nosso cliente e suas expectativas. Queremos que ele sinta-se à vontade e bem acolhido. Mesmo experimentando uma gastronomia típica do Brasil, buscamos utilizar elementos na preparação que possam levar à memória do visitante algo que resgate seu País de origem”, esclarece a diretora, mencionando que a proposta é apresentar os doces com um toque de sofisticação sem perder o ar do interior do Brasil. O sorvete de lavanda é um deles. Colhido nos jardins do hotel, a lavanda se transforma em uma sobremesa diferente e com propriedades que melhoram a digestão.

O figo, por sua vez, é um dos protagonistas da Pousada do Engenho, situada no interior do Rio Grande do Sul, em São Francisco de Paula. Feito no fogão à lenha pela mãe de uma das funcionárias, a especiaria representa o conceito de comida artesanal da pousada. O preparo começou de forma despretensiosa há quatro anos e hoje, além de estar disponível como sobremesa para os hóspedes de uma das 14 cabanas, também é vendido em compotas na loja criada ao lado da pousada. O doce de figo é servido, normalmente, com queijo gorgonzola e agrada aos paladares dos diversos tipos de turistas que visitam anualmente a pousada em busca do autêntico clima europeu.

Outra iguaria caseira de sucesso no empreendimento é o bombocado, elaborado pela sócia-proprietária Suravi Lemos há quase 10 anos. Típico nas festas de São João, e um dos doces favoritos de Suravi durante a infância, o bombocado é um dos artifícios que a pousada tem para superar no quesito da hospedagem. “Proporcionar uma experiência de viagem especial é o nosso objetivo. Temos doces artesanais de nata e de manteiga no café da manhã e deixamos algumas opções à disposição para consumo na área de lazer”, conta Alex Alano, sócio-proprietário da Pousada do Engenho.

Mais ao norte do País, na Pousada Toca da Coruja, as frutas tropicais são a matéria-prima para a composição do menu de doces. As opções mais inusitadas são feitas à base de goiaba, jaca e carambola e podem ser degustadas no café da manhã e sob o cenário de sol da praia de Pipa, no Rio Grande do Norte.

As frutas também podem ser solicitadas pelo cardápio do restaurante da pousada. O mosaico, sobremesa feita com abacaxi, melancia, kiwi e manga cortadas em cubos e acompanhadas por uma bola de sorvete de banana ou coco, é a grande atração. “Temos uma parceria com a sorveteria artesanal Preciosa, considerada uma das dez melhores do País pelo TripAdvisor. Buscamos trabalhar ao máximo com produtos regionais e artesanais para divulgar o que o Brasil tem de melhor”, constata Luis Henrique Ribeiro, diretor da pousada.

O hotel recebe turistas do mundo inteiro e, em certas épocas, franceses, suecos e portugueses se tornam maioria nos 16 chalés da pousada. Eles são convidados a experimentar o caju passa, uma espécie de caju desidratado com açúcar oferecido com queijo frescal de cabra ou de búfala. Embora seja sazonal, a Toca da Coruja consegue estender sua produção, que inicia no final de novembro, até meados de março. “Aliado a um ambiente de natureza que lembra uma típica fazenda nordestina, proporcionamos ao nosso cliente a experiência de viver e provar as diversas singularidades de nossa cozinha, como os doces de graviola com jaca feitos no fogão à lenha e frutas, como a mangaba, o jambo e a pitanga”, finaliza Ribeiro.

Diante da riqueza de ingredientes naturais à disposição no Brasil, oportunidades não faltam para que a gastronomia dos hotéis e pousadas consiga se reinventar. A partir da simplicidade de receitas caseiras herdadas por gerações e, com uma pitada de criatividade, os doces artesanais podem se tornar um importante diferencial para bem receber hóspedes de qualquer lugar do mundo. A oferta de um doce original pode marcar para sempre uma experiência de viagem.

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