Larissa Calabrese: pelo desenvolvimento da motelaria brasileira
Advogada por formação, Larissa Calabrese assumiu, em setembro de 2024, a presidência-executiva da Associação Brasileira de Motéis (ABMotéis), instituição fundada em 2012 a partir da Associação Paulista de Motéis (APAM). Trabalhando para auxiliar o desenvolvimento do setor em todo o Brasil, a associação realiza treinamentos mensais para os funcionários dos estabelecimentos e possui cursos voltados para os setores de governança e recepção. Além disso, atua com assessoria governamental em Brasília, acompanhando pautas que possam impactar a motelaria brasileira.
hotelnews: Conte a sua trajetória até chegar na ABMotéis. Você é a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente?
larissa calabrese : Sim, sou a primeira mulher no cargo. Apesar de a ABMotéis ser uma instituição relativamente nova – fundada em 2012 -, ela é originária da APAM, que já tem mais de 40 anos de existência. Ambas as associações foram criadas da mesma forma, da necessidade de união dos empresários para que pudessem proteger a si mesmos e ao setor. Quando a ABMotéis começou já havia uma base, com serviço jurídico e alguns benefícios oferecidos por empresas para os motéis de São Paulo. Em 2012, enxergamos a necessidade de expandir esse serviço para o Brasil inteiro e o primeiro presidente da associação foi o Rafael Vasques, que hoje conta com uma rede de motéis em Miami (EUA). Com o alcance nacional, pudemos reivindicar pautas em Brasília e levar o trabalho que vinha sendo feito em São Paulo para o restante do Brasil. Sou advogada e nunca havia tido proximidade com o setor. Em um determinado momento da minha carreira resolvi sair da advocacia formal e trabalhar na gestão de uma empresa de cosméticos, que acabou encerrando as atividades, e precisei me recolocar. Participei de um processo seletivo de uma empresa confidencial, e só descobri que se tratava da ABMotéis na fase final. Resolvi aceitar o desafio e enfrentar os preconceitos. Eles queriam uma figura para gerenciar a associação. Eram 12 empresários tocando o negócio como podiam, e era necessário profissionalizar a gestão. Fiz uma imersão naquele mercado desconhecido e oito anos depois, em setembro de 2024, assumi a posição de presidente-executiva. A ideia foi fazer uma atualização no modelo, pois até então todo presidente precisava ser moteleiro, o que se tornava inviável. A associação foi crescendo, passamos a ter um cronograma mais fixo, os negócios prosperaram, o que demandava mais dos empresários. Assim, foi preciso colocar um profissional independente para representá-los. Atualmente, temos diretores em 19 estados, além do Distrito Federal, e o nosso conselho é formado por sete moteleiros e por mim.
HN:Em 1969, a hotelnews publicou uma matéria que falava sobre um projeto apresentado à Embratur, quem cuidava do turismo doméstico na época, mostrando os motéis como a solução para o turismo rodoviário. Em que momento histórico esse objetivo se transformou?
LC: Essa é uma questão bastante discutida. Há histórias, mas não registros, de que o motel veio para o Brasil com o conceito americano de motor hotel, criado justamente para atender o viajante de carro. No entanto, acredito que o motel começou no Brasil mais voltado aos encontros de casais – algo que, até pouco tempo atrás, imaginávamos ser exclusivamente nacional. O nosso projeto Os Melhores Motéis do Mundo nos mostrou que em vários lugares os motéis funcionam como aqui no Brasil. Até onde conseguimos pesquisar, descobrimos que o motel voltado a casais foi criado no Japão, incentivado pelo governo no pós-guerra para aumentar a natalidade do país. Muitos destinos aqui no Brasil não possuem hotéis, pois não há demanda turística, mas provavelmente eles tenham um motel na entrada da cidade ou à beira da estrada, também com a função de dar suporte para as pessoas que estão viajando, mas sempre houve um preconceito em relação a isso. Os motéis foram instituídos no Brasil no final da década de 1960, quando não existia divórcio por aqui. Então, ele veio para abrigar os casos extraconjugais. Era também uma época em que as pessoas só saíam da casa dos pais quando se casavam e muitos não aceitavam que levassem o namorado para casa. Assim, passou a atender também à demanda do relacionamento estável. Em nossa pesquisa mais recente, observamos que quem frequenta o motel de forma mais assídua é esse público. Então, os motéis estão investindo muito, com serviços de alta gastronomia, por exemplo. O casal terá um jantar privativo assinado por um chef de que gostem, drinks exclusivos, piscina particular, coisas que não existem na hotelaria. São clientes que vão estender pernoite, pedir um café da manhã, o que proporciona um ticket médio mais alto. É possível fazer propagandas mostrando que o enxoval é de primeira qualidade, que a tecnologia empregada é bacana e que a decoração é incrível. Muitos empreendimentos têm oferecido também serviços de spa, o que é uma tendência. Quando damos exemplos, pegamos o que temos de mais premium no mercado, mas nosso trabalho na associação é o de mostrar tudo o que o moteleiro pode implementar de acordo com sua realidade. Se não tem condições de montar um cardápio assinado por um chef famoso, ele pode contratar uma empresa especializada em alta gastronomia, que utiliza técnicas de congelamento capazes de preservar o sabor da comida como se fosse feita na hora.
HN: É possível mensurar a quantidade de motéis que existem no Brasil?
LC: Não temos como precisar, mas estimamos que chegue a cinco mil. Desses, cerca de 550 são associados, mas é um número que flutua bastante, pois a associação à ABMotéis é voluntária. Para captar novos associados fazemos eventos no Brasil inteiro, como o Fórum de Gestão Moteleira, voltado exclusivamente para os empresários do setor.
HN: Como o setor da motelaria vê a hospitalidade e de que jeito traduz para seus clientes?
LC: A motelaria é hoje uma referência em hospitalidade. É um lugar onde o cliente busca viver uma experiência – alguns vão com o parceiro para relaxar, outros vão para trabalhar. Há pessoas que se encontram com amigos. Então, a motelaria é experiência, é bem-estar, é gastronomia. As novas gerações pedem ambientes mais bonitos, mais leves, com serviços especializados. Antigamente, o cliente usava o quarto e não podia reclamar se não estivesse do agrado. Hoje, o casal vai com uma expectativa que, se frustrada, será compartilhada para o mundo todo na internet. O motel é um estabelecimento que tem liberdade para o exagero, mas não precisa ser de mau gosto ou pejorativo – o que era comum antigamente. Ele permite o novo, o temático. Acho que é uma hospitalidade até mais completa do que a da hotelaria. Quando uma pessoa vai para um hotel, geralmente, é a trabalho e precisa apenas de um lugar para dormir. Se for a turismo, certamente passará o dia fora do quarto. Ela não vai especificamente para aproveitar a suíte. Além disso, já temos muitos empreendimentos inseridos nas OTA’s, vendendo seus quartos no formato de diárias. É uma mescla que está acontecendo, mas o setor moteleiro tem vantagem. Podemos ter o exagero, a brincadeira, mexer com o imaginário, e tudo pode e deve ser voltado para o bom gosto. O que reflete muito isso é a questão das reservas, que não existia na motelaria, uma vez que os clientes precisavam deixar seus dados pessoais registrados. No entanto, após uma pesquisa encomendada pelo Guia de Motéis, em que os empresários afirmaram não acreditar que isso seria um empecilho, foi criado o guia de moteis go, e as reservas estão de vento em popa, cerca de 20% dos clientes já utilizam o aplicativo. Há a reserva imediata, em que as pessoas têm 40 minutos para chegar ao local; e a reserva antecipada, que permite incluir outros serviços.
HN: O que a motelaria pode ensinar para a hotelaria ou vice-versa?
LC: Podemos aprender com eles muito sobre tecnologia e atendimento, como o relacionamento mais próximo com o hóspede. Muitos hotéis são mais estruturados e a motelaria ainda é um negócio predominantemente familiar, apesar de já existirem algumas redes. Nosso setor tem aprendido muito sobre estruturação e também sobre a questão do híbrido, que foi algo que vimos na Ásia. Um empreendimento que visitamos, um motel vertical – que, aliás, acredito ser uma tendência para as grandes cidades brasileiras -, oferece algumas suítes voltadas para o casal e outras destinadas à hotelaria. Nesse prédio existe, inclusive, uma brinquedoteca. Os quartos se diferenciam pela decoração e pelo tamanho – um deles comporta uma piscina com toboágua, para se ter ideia das dimensões. Então, eles viram nesse modelo uma oportunidade de aumentar a ocupação das suítes, sem deixar de atender o casal com experiências diferenciadas. Essa é uma tendência que pode acontecer por aqui. Já temos em São Paulo o Andar de Cima, do grupo LHG, que funciona nesse modelo. Os quartos são divertidos, cheios de neons coloridos, e podem ser utilizados em forma de diária ou período.

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