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Antoine Chevanne: Byblos Saint-Tropez aos 60 e o valor do essencial

À frente de um dos hotéis mais emblemáticos da Riviera Francesa, Antoine Chevanne apresenta sua visão de luxo baseada em discrição,  memória e experiência emocional

Às vésperas de completar seis décadas, o Byblos Saint-Tropez reafirma um feito raro na hotelaria contemporânea, que é o de evoluir sem romper com a própria essência. Inaugurado em 1967, no coração da Riviera Francesa, o hotel atravessou gerações como um símbolo da arte de viver mediterrânea, personificada em hóspedes ilustres como Brigitte Bardot, Mick Jagger, Grace Kelly, Leonardo DiCaprio, Elton John, Naomi Campbell e George Clooney, entre muitos outros ao longo das   últimas seis décadas.

Hoje, quem conduz esse equilíbrio é Antoine Chevanne, bisneto de Sylvain Floirat, responsável por assumir o hotel poucos meses após sua inauguração.  Antoine cresceu entre os corredores da propriedade, com um olhar apurado sobre o que tornava aquele lugar singular, mas quando teve certeza da sua vocação, foi buscar especialização tornando-se o primeiro membro da família a estudar hotelaria de forma oficial.

Ao conhecimento técnico somou a experiência adquirida no Royal Monceau, em Paris, onde durante um ano atuou em praticamente todos os departamentos do hotel – governança, recepção, restauração e concierge — até ser nomeado assistente do diretor-geral. “Foi uma experiência essencial, e que eu não trocaria por nada”, relata o executivo.

Aos 28 anos, e pronto para o grande desafio,  Antoine Chevanne assumiu em 2001 a direção do Byblos, e em pouco tempo entendeu que mais do que atuar como gestor, tinha a missão de agir como guardião do legado da família.  “Administrar um hotel significa lidar com números, equipes e temporadas. Em determinado momento, porém, compreendi que o Byblos não era apenas mais um hotel, mas uma memória viva. A memória do meu bisavô, naturalmente, mas também a de todos os hóspedes e colaboradores que, cada um à sua maneira, ajudaram a escrever a história desta casa”, conta.

Do bisavô, Antoine diz ter hedado também, e acima de tudo, a intuição. “Sylvain Floirat não elaborou um plano de negócios para o Byblos; ele tinha uma percepção extraordinária do que as pessoas buscavam, muitas vezes antes mesmo que elas próprias soubessem. Mas a intuição, por si só, não basta. A ela procuro somar o trabalho constante, a disposição permanente para me questionar e, sobretudo, a capacidade de ouvir os hóspedes. É essa escuta, talvez, o que mais orienta minhas decisões hoje, permitindo que o hotel evolua continuamente sem jamais trair sua essência nem o legado que o tornou um ícone”.

Sob sua liderança, o Byblos segue em transformação contínua, incorporando novas suítes, experiências de bem-estar e uma leitura contemporânea do luxo,  sem jamais ceder à tentação de se reinventar por completo. “Os pilares da Les Caves du Roy, por exemplo, ou o autêntico calçamento de pedra do terraço da piscina são elementos que não se substituem, não se uniformizam e nem se adaptam apenas em nome da praticidade. É possível modernizar aquilo que permanece invisível aos olhos como a infraestrutura, a tecnologia, os bastidores. Mas jamais o que carrega a memória física do lugar e traduz sua identidade”, ressalta Antoine.

De acordo com o executivo, essa relação com o passado exige sensibilidade para perceber o que deve permanecer intocado e o que pode evoluir, mas também coragem para sustentar essas escolhas, responsabilidade que ele não delega. “Um hotel nunca será perfeito em um determinado dia, mas quando permanece fiel à sua essência, isso é percebido. É o que faz com que as pessoas retornem.”

De características do Antoine dos primeiros anos, o diretor diz preservar  a curiosidade e a capacidade de escutar. “São elas que fazem com que, mesmo depois de vinte anos, eu continue me encantando com este lugar e permaneça atento ao que as pessoas realmente sentem, para além do que expressam em palavras. Também preservo o espírito de compartilhamento com as equipes. Nada disso faz sentido se não for vivido de forma coletiva. O Byblos é resultado de um trabalho conjunto, construído diariamente por pessoas que compartilham a mesma visão e o mesmo compromisso com a excelência”.

Ao caminhar pelo hotel, Antoine diz que mantém uma sensação que não se altera com o tempo. “É como percorrer as pegadas de quatro gerações. Há lugares em que lembro exatamente onde meu bisavô esteve, as decisões que tomou e os momentos que testemunhou desde o nascimento do hotel. As paredes guardam uma memória que se revela em determinados feixes de luz, na textura de uma pedra, na forma como um lugar continua vivo, mesmo quando já não estão presentes as mãos que o moldaram. É uma emoção que o tempo não desgasta, justamente porque não depende de mim. Ela existia antes da minha chegada e continuará existindo muito depois de mim”, afirma.

E é em meio a esse cenário, na opinião do executivo, que o luxo assume um significado mais silencioso e poderoso. “O luxo contemporâneo não precisa ser exibido, mas sim vivido, e a discrição tornou-se sua expressão máxima justamente por ser algo raro.”

No Byblos, essa ideia se materializa em gestos quase imperceptíveis, que sob o olhar atento de Antoine Chevanne, seguem provando que em um mundo obcecado pelo novo, há algo profundamente contemporâneo em saber permanecer.

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