Alexandre Gehlen: o Brasil ainda carece de uma hotelaria mais inovadora

Hoteleiro formado pela Castelli – Escola Superior de Hotelaria, em Canela (RS), e com MBA em Gestão Empresarial pela Universidade Fundação Dom Cabral, em Belo Horizonte (MG), em parceria com os Instituto INSEAD (França) e Kellog (EUA), Alexandre Gehlen trabalhou em meios de hospedagem na Áustria e na Alemanha, além da propriedade da família em Gramado (RS), antes de fundar a rede Intercity, hoje bandeira da ICH Administração de Hotéis, empresa que agrega outras duas marcas Yoo2 e hi!.

Entre 2013 e 2017, foi presidente da Visão – Agência de Desenvolvimento da Região das Hortênsias e do Conselho de Administração da Gramadotur – Autarquia de Turismo e Cultura de Gramado (RS). Atualmente, além da direção geral da ICH Administração de Hotéis, preside o Conselho de Administração do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) para o triênio 2018/2021.

Revista Hotelnews: Como foi o seu percurso profissional até fundar a rede Intercity?
Alexandre Gehlen: O meu primeiro contato com a hotelaria foi em 1975, quando meus avós compraram uma pequena pousada em Gramado, na Serra Gaúcha, e a transformaram no Hotel Bavária, um dos mais tradicionais da cidade. Eu tinha nove anos na época. Então, vivi parte da minha infância e adolescência dentro da pousada, trabalhando aos finais de semana e nas férias em diversos cargos, desde garçom até recepcionista. Na juventude fui jogador de vôlei e conquistei diversos títulos estaduais e nacionais.

Ao encerrar a minha carreira como atleta, iniciei os estudos em Engenharia Química e trabalhei no Polo Petroquímico do Sul. Mas a hotelaria falou mais alto. Cancelei o curso, pedi demissão e voltei para Gramado para estudar Hotelaria. Ao final do curso, parti para uma temporada na Europa, onde trabalhei em hotéis e resorts na Áustria e na Alemanha. Voltei para o Brasil convicto da minha vocação, cursei Administração de Empresas e comecei a trabalhar em tempo integral no Hotel Bavária. Em 1999, tive a oportunidade de abrir a primeira unidade da Intercity Hotels no Brasil com sócios-investidores.

RH: A rede completa 20 anos em dezembro. Quais foram os momentos mais importantes dessa história?
AG: O convite para criar a Intercity Hotels no Brasil surgiu a partir de uma conversa com um grupo de investidores que desejava ingressar no setor hoteleiro. Tratava-se de um produto inovador no segmento, voltado para executivos e com tecnologia de ponta para a época. Investimos no tijolo em quatro hotéis próprios e, em 1999, inauguramos a nossa primeira unidade. Em 2003, entramos no negócio da administração a convite de incorporadores.

Havia oportunidade no mercado para uma empresa que tratasse a administração de forma transparente e próxima do investidor. Com um modelo de gestão otimizado, foco em resultado e gestão de custos, crescemos e ganhamos reconhecimento. Fomos os primeiros a desenvolver uma gestão inovadora e transparente que auxiliava em tempo real a gestão do negócio e alimentava o portal do investidor com indicadores diários dos hotéis. Entendemos que através dessa tecnologia, com sistemas integrados, tínhamos uma vantagem em relação aos concorrentes e, assim, cresceríamos de forma mais rápida.

Em 2010, com interesse no crescimento da empresa, criamos um planejamento estratégico com base nas premissas da Fundação Dom Cabral. Observamos que o mercado estava caminhando rapidamente para as incorporações hoteleiras e nos preparamos para isso. Em 2014, enfrentamos a crise brasileira e a superoferta. O período foi importante e desafiador, pois fomos obrigados a trabalhar com redução de custos, além de quedas de tarifas e de ocupação.

A empresa cresceu e virou ICH, que hoje, além da Intercity, administra duas outras marcas: Yoo2 e hi!. Recentemente, fechamos uma grande parceria de distribuição com a rede homônima alemã Intercity Hotel, que administra propriedades na Europa, Ásia e outros destinos internacionais. Em 2019, o mercado apresentou uma recuperação. Obtivemos crescimento e atingimos a marca de 42 hotéis espalhados de Norte a Sul do país e no Uruguai. Em janeiro de 2020 vamos inaugurar o Intercity Anhembi (SP) e, ainda no primeiro trimestre deste ano, o Intercity Batel, em Curitiba (PR).

RH: Qual é o conceito da marca Yoo2? Há planos de expansão da bandeira no Brasil e na América do Sul?
AG: O Yoo2 Rio by Intercity é um empreendimento focado em lifestyle e design para o segmento upscale. Sinônimo de design contemporâneo, criatividade e sofisticação, a bandeira é criação do escritório de design de luxo Yoo, que tem como fundadores o designer Philippe Starck e o empresário britânico John Hitchcox. Nosso hotel no Rio de Janeiro é um case de sucesso e fincou a marca no Brasil.

Os últimos anos não foram favoráveis para nossos investimentos no país. Agora, sentimos que o cenário está mais positivo e vemos muitas oportunidades para a marca aqui e na América do Sul. O Brasil ainda carece de uma hotelaria mais cool e inovadora.

“(…) um dos grandes desafios da categoria é enfrentar os ciclos instáveis do nosso setor, que são prejudiciais para o bom andamento do negócio”

RH: Quais os diferenciais e as projeções da marca hi!?
AG: A hi! será a primeira cheap and chic do Brasil, um modelo econômico sem abrir mão do design. É uma marca que busca atender às necessidades da geração Millennials com conforto, personalidade e atendimento funcional.

Decoração divertida e jovem, serviços rápidos, fáceis e econômicos como delicatessen self-service 24 horas são alguns dos diferenciais que os hóspedes encontrarão nos hotéis hi!. Vemos muita oportunidade para este produto. As primeiras unidades devem ser inauguradas em 2021 nas cidades catarinenses de Blumenau, Chapecó e Criciúma.

RH: A ICH administra uma unidade no Uruguai. Há perspectivas de expansão internacional?
AG: O nosso principal objetivo hoje é fortalecer a conexão com o parceiro europeu, a Deutsche Hospitality, que opera as marcas Intercity Hotel,
Steigenberger Hotels and Resorts e Jaz in the City, na Europa e Ásia. Também estamos avaliando outras cidades da América do Sul.

RH: Como é a parceria com a rede Intercity alemã?
AG: Com o objetivo de oferecer um portfólio mais amplo aos nossos clientes e nos conectarmos ao mercado internacional, assinamos um acordo de cooperação de marketing, vendas e distribuição com a Intercity, marca da Deutsche Hospitality. Unimos os portfólios das redes e conectamos os respectivos sites, bem como nossas centrais de reservas. Participamos de feiras em conjunto e nossas equipes comerciais se uniram. A parceria se desenvolve em três pilares.

O primeiro é a troca comercial e de vendas para explorar todas as oportunidades em ambos continentes: os clientes da Europa podem reservar hotéis no Brasil e os nossos clientes se hospedam nas propriedades da Europa e Ásia. O segundo pilar é a oferta de benefícios e descontos em hospedagens na rede hoteleira alemã para o nosso grupo de investidores do Brasil. E o terceiro, a troca de experiência operacional dos colaboradores e um programa de capacitação e intercâmbio de funcionários de ambos continentes.

RH: Qual é o principal modelo de negócio da ICH?
AG: Atualmente atuamos na administração hoteleira prestando serviços para um grupo de investidores nos chamados condotéis ou flats. Também operamos propriedades pertencentes à Family Offices, fundos ou mesmo a um único proprietário.

Outro modelo no qual atuamos é a licença de uso da marca para unidades que desejam ter controle da gestão operacional. Neste caso, somos responsáveis por auditar o padrão da marca e qualidade dos serviços e prestar soluções em vendas, marketing e distribuição. Neste momento, não operamos com incorporação hoteleira.

RH: Quais os principais argumentos utilizados pela ICH para realizar uma conversão hoteleira e os maiores desafios nesse modelo de gestão?
AG: A Intercity tem no seu DNA a missão de ser uma empresa de custo mais baixo, entregando serviços adequados para o público que ela se propõe a atender de forma correta. Buscamos ser muito transparentes e responsáveis, pois lidamos com ativos de patrimônios de terceiros.

Aos olhos do investidor, entregamos resultados positivos através de tecnologia de gestão e economia de custos, além de muito foco em vendas, marketing e distribuição, que também são nossos diferenciais. Acredito que a grande dificuldade nesse modelo é que se trata de um contrato de prestação de serviços. Precisamos alinhar capital e mão de obra. Procuramos ser parceiros do investidor, e o nosso desafio é conseguir comunicar e demonstrar isso de uma maneira clara e transparente.

“A hotelaria é um mercado que, com menos recursos, gera muitos empregos diretos e indiretos; no entanto, não temos esse reconhecimento”

RH: Este ano, o senhor e a ICH foram reconhecidos pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-RS) com o prêmio Top Ser Humano, um dos mais cobiçados na área de Gestão de Pessoas. O que é fundamental no trabalho de relacionamento com o colaborador?
AG: É um orgulho para a ICH receber essa distinção. Em 2016, criamos o programa ‘Jeito de Ser ICH’, que apresenta aos colaboradores a ressignificação da cultura organizacional, incentivando os times a serem protagonistas no crescimento da organização e sustentação do negócio. Sermos reconhecidos na categoria ‘Organização’ foi muito importante, pois o setor de Hotelaria ainda não havia recebido essa distinção.

E, pessoalmente, foi uma honra receber da ABRH-RS o prêmio Personalidade Top Ser Humano 2019 em um momento de profundas transformações nas relações humanas e no ambiente de negócios. Esse reconhecimento sinaliza que estamos na direção correta com as nossas práticas de gestão de pessoas, reconhecendo que o capital humano é um dos fatores decisivos para assegurar performance e competitividade.

RH: Quais são os grandes desafios e entraves para gerir hotéis no Brasil? O que poderia ser mudado em termos de leis ou burocracias que ajudaria a alavancar o setor?
AG: Em primeiro lugar, considero que um dos grandes desafios da categoria é enfrentar os ciclos instáveis do nosso setor, que são prejudiciais para o bom andamento do negócio. Vivemos em uma gangorra na economia, o que potencializa a sazonalidade natural do segmento hoteleiro. Some-se a isso o efeito da superoferta em alguns mercados. Não pode haver combinação pior.

Segundo ponto: é fato que temos problemas com burocracias e leis. Precisamos de uma legislação específica que trabalhe em sintonia com a nossa atividade, que é sazonal, e facilite o trabalho do setor, assim como outras indústrias conseguem. A hotelaria é um mercado que, com menos recursos, gera muitos empregos diretos e indiretos; no entanto, não temos esse reconhecimento.

Também precisamos de linhas de financiamento para operarmos de forma adequada. Atualmente, nossos hotéis são frequentados 90% por brasileiros. Com o fortalecimento do setor, temos uma enorme oportunidade de atrair turistas estrangeiros. Mas, para tal, precisamos de um plano efetivo que englobe o grande setor de turismo e infraestrutura.

RH: O senhor é presidente do Conselho de Administração do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) para o triênio de 2018 a 2021. Sob a sua gestão até agora, quais foram as principais conquistas da entidade?
AG: É uma honra estar à frente do Conselho do FOHB, que agrega algumas das mais importantes redes hoteleiras com atuação no Brasil e que demonstra para a sociedade a importância do setor. No FOHB atuamos em três eixos que contribuem por meio de várias ações. O primeiro é a Representação – representando o setor e suas demandas com o fomento de discussões junto a esferas governamentais e o acompanhamento de projetos de lei relacionados à hotelaria.

O segundo é o Desenvolvimento – contribuindo para a modernização dos processos do setor e promovendo a atividade no mercado. E o terceiro é a Informação – oferecendo conhecimento relevante com pesquisas e levantamentos de estatísticas que contribuem para o desenvolvimento do setor, tornando-se fonte para os meios de comunicação.

A entidade conta com um presidente executivo, que se dedica integralmente ao FOHB. Ele vem tendo um papel importante nos últimos dois anos na integração com outras entidades em prol da melhoria da indústria de hospitalidade para que, juntos, possamos lutar pelo setor como um todo.

RH: O senhor esteve no ReformBnB, que aconteceu em abril na cidade de Barcelona. Em novembro, entidades que representam hoteleiros de todo o mundo se reuniram em Buenos Aires em uma nova edição do encontro e decidiram que o evento se chamará Global ReformBnB. Como analisa esse movimento de hoteleiros de todo o planeta em busca de regulamentações para o formato de aluguel de curta temporada via aplicativos?
AG: As novas formas de hospedagem trouxeram mudanças significativas para o segmento. O mercado precisou se adaptar às transformações. Acredito que todos os modelos de hospedagem possuem seu espaço no mercado. No entanto, é necessário observar a proposta diferente oferecida por cada um. Enquanto os aluguéis via aplicativos garantem apenas a estrutura física da casa, na hotelaria surgem vivências e experiências diferentes do cotidiano do hóspede. Não há um movimento contrário em relação ao novo e ao empreendedorismo.

O que buscamos é que as propostas, absolutamente diferentes de cada lado, sejam apresentadas de maneira clara e honesta aos turistas. A intenção é que os clientes possam escolher a opção que seja mais de acordo com seus interesses, tendo ao seu dispor informação para que a tomada de decisão seja precisa e não apenas apoiada no quesito preço. Ao ver alguns exemplos mundiais levados no ReformBnB, o Brasil não deve ficar de fora de um processo de regulamentação. Vai acontecer mais dia ou menos dia, como já está ocorrendo em várias cidades no exterior.

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