Entrevistas
Alexandre Allard: mudanças nas elites

O luxo pode, sim, ser consciente e promover um ganho na autoestima de todo um destino, sem deixar de se preocupar com o futuro do meio ambiente e características intrínsecas do lugar onde está inserido. Nessa premissa chegou de vez ao Brasil o empresário francês Alexandre Allard, com o ambicioso projeto paulistano do Cidade Matarazzo. De ícone do mundo digital nos anos 1990, ao fundar a Consodata, primeira base de dados digital especializada em comportamento de consumo, hoje ele investe no que chama de “missão de vida”, materializada no complexo bilionário. O objetivo é impactar as elites e levar a elas a consciência de que o Brasil merece uma nova era.

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O Brasil de sucesso no futuro se resume em três palavras: biodiversidade, autoestima e criatividade, é o que acredita Alexandre Allard. O empresário francês é fundador do Cidade Matarazzo, projeto de reciclagem urbana que iniciou uma verdadeira transformação no antigo complexo do Hospital Matarazzo – que reúne os edifícios históricos do Hospital Umberto I, Maternidade Condessa Filomena Matarazzo e a Capela Santa Luzia, tombados pelo patrimônio histórico.

Ao lado da Avenida Paulista, em São Paulo, o negócio já ultrapassa R$ 2,7 bilhões em investimentos. E ele tem propriedade no quesito restauração, pois já deu nova vida ao Royal Monceau e ao Hotel Particulier de Pourtalès, ambos em Paris, entre uma série de empreitadas bem-sucedidas. Durante um bate-papo com a hotelnews no Le Jardin, um dos restaurantes do novo Rosewood São Paulo, o empreendedor abriu o coração e contou a sua vontade de transformar o Brasil.

Para ele, investir em edifícios tombados é um bônus, e não um ônus. “O significado de ‘tombado’ para o brasileiro é de que nada é possível, mas para mim tem a ver com a alma, que gera um valor imensurável à construção. Ao visitar o Palácio de Versalhes, observamos que ele não é apenas lindo, mas carrega orgulho e o poder de uma ambição ao longo dos séculos”.

Longe de ser apenas um reduto de luxo e vaidade, o Cidade Matarazzo se intitula palco para a mudança de pensamento das elites, de maneira que elas reconheçam o valor da natureza, cultura nacional e seus elementos simbólicos. O executivo esteve no Brasil pela primeira vez em 1987 e encantou-se com o que chama de “monstro verde”, que merece ser um laboratório de mudanças positivas. “A floresta amazônica vale trilhões de dólares para a humanidade, mas todos querem achar uma maneira de desmatar para ganhar mais dinheiro, seja na exploração de minério ou venda de madeira. O Brasil tem o maior ativo verde do planeta, mas precisa aprender a gerar valor em cima da preservação, e não do desmatamento. Com essa grande ‘arapuca’, que é o Cidade Matarazzo, vou mudar a maneira de pensar das pessoas, mostrando o caminho para uma nova economia”.

Em 2005, Allard começou a busca pelo terreno que agora abriga o Cidade Matarazzo. Inicialmente, ele compraria o prédio do antigo Banco Real, mas ao receber uma foto de cima da torre, que capturava os entornos, avistou outra localização, com edifícios históricos e com muitas árvores, terreno que abrigava o Hospital Matarazzo. No mesmo dia pegou um voo internacional e chegou de madrugada a São Paulo, sem conseguir dormir, de tanta obsessão. “Mandei para cá um manager, que demorou dois anos e meio até achar um lugar que fizesse sentido. Escolhemos a capital paulista simplesmente porque 3/4 de todo o dinheiro que o Brasil gera é por causa de São Paulo. E, se nosso objetivo é provocar uma grande mudança, temos que começar por aqui”.

A estrutura do complexo tem hoje o Hotel Rosewood São Paulo, o primeiro da rede na América Latina. A propriedade ocupa o prédio restaurado da maternidade e a Torre Mata Atlântica, com concepção do premiado arquiteto Jean Nouvel, e que também vai abrigar as unidades residenciais. Os interiores são assinados pelo designer francês Philippe Starck. O Cidade Matarazzo é o projeto urbano privado com maior número de árvores plantadas no mundo – 10 mil no total. “Quero mostrar o poder da floresta brasileira, trazer para esta cidade um símbolo que vai ajudar as pessoas a pensar diferente, e se você tem ainda uma torre com 250 árvores em sua fachada que lembra uma floresta, todos vão achar que São Paulo é a capital do verde.”

Além dos edifícios já tombados do Cidade Matarazzo, que já a caracterizam como patrimônio histórico, Allard tentou obter o mesmo título para os novos prédios – o Mata Atlântica, do arquiteto Jean Nouvel; e o Ayahuasca, de Rudy Ricciotti. No entanto, recebeu uma resposta negativa e o sentimento é de revolta.

“O Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) votou de forma unânime contra o tombamento dos edifícios, alegando que são idealizados por arquitetos estrangeiros e por isso não merecem a chancela. Não é possível que a equipe deles não tenha a capacidade de abrir um jornal e se informar sobre os profissionais envolvidos. O problema é a corrupção que existe. É incoerente para uma pessoa no cargo de proteção dos monumentos históricos não reconhecer o que estamos fazendo aqui. Se o Brasil sair desse sistema corruptivo vai virar uma das maiores economias do mundo. A única coisa que a corrupção não pode pagar é o coração”, desabafa.

Investimento bilionário

A meta é tornar o endereço um dos melhores centros de luxo do mundo, valorizando de maneira orgânica a região. “Comprei uma propriedade que ninguém queria e estava abandonada há 20 anos. Quando o ‘francês louco’ chegou, todo mundo falou que aqui era o lado errado da Paulista, e hoje é o lugar mais valioso do País. Para se ter ideia, comercializamos 124 apartamentos residenciais com o metro quadrado mais caro de São Paulo: R$ 70 mil”.

Além da abertura de um segundo hotel, com bandeira Soho House, o complexo terá o prédio Ayahuasca funcionando como sede para 1.200 empresas que, segundo Allard, representam mais de 50% do PIB brasileiro. “Teremos 80% dos ricos do Brasil se reunindo aqui. O País recebe de R$ 20 a 30 bilhões em investimentos estrangeiros por ano, e meu objetivo é trazer por iniciativa própria a quantia de R$ 20 bilhões, ou seja, dobrar esse número total”.

Dentro do plano de renovação e aumento do número de visitantes nos arredores da Avenida Paulista, Alexandre Allard e o também empresário Michel Farah obtiveram a concessão por 25 anos dos parques Mário Covas e Trianon, incluindo a praça Alexandre de Gusmão, que vão se tornar centros culturais ao ar livre. A ideia é transformar a Paulista no lugar mais visitado do País, com 15 milhões de pessoas por ano.

“O caminho para o futuro é verde. Me mudei da Europa, onde era empreendedor de sucesso, para transformar a realidade e autoestima do Brasil com base na sua cultura e biodiversidade. Isso faz parte da minha missão de vida, mesmo enfrentando obstáculos como a dificuldade de financiamento, burocracias e a energia dessa cidade, que é pesada. Uma vez Oscar Niemayer me disse: Alex, não faça nada em São Paulo porque essa cidade não gosta das pessoas boas, e tenho essa sensação todos os dias. É um lugar esquizofrênico que não pensa no cidadão, mas tem todo um sistema para acabar com ele”.

Brasilidade

O grande diferencial do Cidade Matarazzo é valorizar a cultura brasileira por meio do alto luxo. O conceito se baseia em elementos simbólicos, matéria-prima e detalhes genuinamente brasileiros em cada canto, incluindo nome de ambientes, madeiras e obras literárias de poetas nacionais (1200, ao todo). Para se ter ideia, 46 pedras genuinamente nacionais compõem os ambientes, mas o processo não foi simples.

“Os ricos brasileiros querem sempre importar mármore italiano. Isso é um crime contra a humanidade, pois eles vêm de transporte marítimo, um dos mais poluentes do mundo em emissão de carbono. No nosso caso, alugamos um galpão para transformar as pedras brasileiras, que geralmente são das famílias dos granitos e quartzos, muito duras. O Brasil não transforma nada e vende-as como matéria-prima para o exterior. Em comparação, o mármore italiano é mais leve. A diferença entre um e outro é como cortar a madeira e cortar manteiga”. Além da boa qualidade, Allard defende que utilizar itens nacionais gera emprego às comunidades envolvidas. “Ao optar por produtos locais, ajudamos quem precisa de renda. O projeto inteiro traz uma mensagem muito forte, não de culpa, mas para conscientizar o público”.

Eu crio um universo complicado para ter uma razão de viver a cada dia, e sair da curva é uma aventura maravilhosa”conscientizar o público

O bar principal do Rosewood ganhou o nome Rabo di Galo – inspirado no Rabo de Galo, um dos coquetéis mais consumidos do Brasil, que mistura vermute e cachaça. “Se fosse criado por um brasileiro, nosso bar não teria esse nome e, sim, um termo em inglês ou francês, provavelmente. Isso é coisa de vira-lata”.

Muito dessa consciência de valorização da diversidade surgiu da sua experiência na Costa do Marfim, onde morou até os 15 anos e chegou a vender flores no semáforo. “Fui uma minoria ao contrário, já que era o único branco da minha sala na escola. Nessa época tinha apenas três opções: ficar deprimido, resistir ou ir embora. Me sentia muito mal e chorava por ser diferente de todo mundo, mas isso foi essencial como aprendizado de vida”.

Ele revela que já recebeu muitas cartas de pessoas que visitaram o empreendimento e chora ao ler os recados. “Sou um empreendedor criativo com projetos românticos, até porque não tem nada mais chato do que simplesmente ganhar dinheiro. Trabalho fora dos limites normais, usando minha capacidade de fazer coisas que muitos dizem que não serão possíveis. Existem fórmulas prontas e mais fáceis que não me interessam. Eu crio um universo complicado para ter uma razão de viver a cada dia, e sair da curva é uma aventura maravilhosa”.

A entrevista foi publicada na edição 421  que pode ser lida aqui ou no nosso app, disponível para download na Apple Store e no Google Play

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