Chieko Aoki: a força de quem escolheu cuidar
Há pessoas cuja trajetória profissional parece nascer de um plano cuidadosamente desenhado. A de Chieko Aoki começou de outra forma. A executiva à frente da Blue Tree Hotels entrou na hotelaria quase por acaso, a convite do marido, sem formação específica no setor e sem imaginar, naquele momento, que faria da hospitalidade uma expressão tão particular de sua própria maneira de enxergar o mundo.
Antes dos hotéis, vieram os valores. Em casa, aprendeu sobre união, respeito, disciplina, gentileza, seriedade, espiritualidade e sobre o mottainai, conceito japonês que ensina a não desperdiçar aquilo que tem valor. Cresceu entre referências das culturas japonesa e brasileira e, dessa convivência, construiu uma percepção que levaria mais tarde para sua forma de liderar: as maneiras de se expressar podem mudar, mas os sentimentos humanos são universais.
A mãe foi a grande educadora da família. Desde os três anos, Chieko estudava canto, balé, pintura e caligrafia. Hoje, ela identifica ali a possível origem de uma inquietação que nunca a abandonou: a vontade de aprender. “Gosto de compreender de tudo, de culinária a filosofia”.
Quando a hotelaria entrou em sua vida, foi essa curiosidade que ajudou a compensar a ausência de experiência profissional no setor. Chieko havia estudado Direito e feito outros cursos. Tinha, porém, viajado bastante e conhecido diferentes hotéis pelo mundo, especialmente empreendimentos de luxo e seus clientes. Decidiu então transformar observação em conhecimento técnico e fez cursos de hotelaria na Cornell University. Começava uma jornada que ela associa a trabalho, entusiasmo, criatividade e aprendizado.

Dois caminhos ao mesmo tempo
Em 1997, o marido da empresária vendeu as empresas hoteleiras, as ela decidiu continuar. Parte da equipe também queria seguir adiante e Chieko enxergava um mercado pronto para crescer. Foi assim que nasceu a Blue Tree Hotels.
Desde o início, a empresa foi construída sobre uma combinação que traduz a própria visão de Chieko sobre os negócios: espírito de família, excelência, resultados e cuidado com as pessoas.
Pessoas, aliás, aparecem repetidamente quando ela fala sobre carreira. Hóspedes, colaboradores, investidores, parceiros. Relações, vínculos, confiança. Foi dessa concepção que nasceu a Árvore da Alma Blue Tree, método de hospitalidade baseado em cuidar e criar laços.
Mas talvez a dimensão mais profunda dessa filosofia tenha sido revelada quando vida pessoal e profissional deixaram de ocupar espaços separados. O marido de Chieko sofreu um forte derrame e ficou completamente limitado na comunicação e nos movimentos. Diante dela havia uma escolha difícil: dedicar-se a ele ou continuar conduzindo a empresa.
Chieko decidiu não escolher apenas um dos caminhos. Fez os dois. Durante anos, viveu entre São Paulo e o Japão. A recuperação do marido exigia recursos e presença. Ao mesmo tempo, a empresa precisava ser reconstruída em meio a uma grande crise econômica que se passava do outro lado do mundo. Não havia espaço, segundo ela, para permanecer paralisada pelas dúvidas. “Era preciso abrir caminhos, trabalhar, unir pessoas e seguir em frente”.
Daquele período vieram aprendizados sobre foco, organização e competitividade, mas também sobre humildade. Chieko diz ter aprendido a ouvir verdadeiramente, respeitar diferenças e oferecer autonomia acompanhada de responsabilidade. Nunca pensou em desistir.
Quando precisa recuperar as forças, não fala de fórmulas complexas. Prefere coisas simples: um bom banho, uma boa noite de sono, palavras animadoras de pessoas queridas. E resume sua maneira de olhar para as dificuldades com uma imagem igualmente simples: prefere enxergar “o copo pronto para ficar cheio”.
Quando o legado são as pessoas
Para Chieko, liderar é ajudar alguém a avançar. É apoiar, orientar, confiar, oferecer autonomia e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade por metas e resultados. Na Blue Tree, essa filosofia ganhou uma regra objetiva: para crescer, um líder precisa formar novos líderes.
Mas sua ideia de liderança vai além da gestão. Ela a considera um trabalho “um tanto espiritual”. Liderar, em sua visão, é desejar o melhor para as pessoas e ajudá-las a descobrir seu ikigai, sua razão de viver. É contribuir para que desenvolvam todo o potencial que possuem e consigam chegar a lugares que talvez nunca tivessem imaginado alcançar. Há uma frase que sintetiza bem essa lógica: “A equipe deve me superar, porque nossa equipe é o meu legado para a hospitalidade do Brasil”.
Quando Chieko fala sobre aquilo de que mais se orgulha, a construção da Blue Tree Hotels aparece, mas não ocupa o centro sozinha. O orgulho maior está nas pessoas que fizeram e continuam fazendo parte dessa história. Ela fala, por exemplo, de acompanhar alguém que chegou à empresa como jovem aprendiz, cresceu, tornou-se líder e passou a contribuir para o desenvolvimento do próprio negócio.
Para Chieko, empresas são feitas de talentos e relações construídas ao longo do tempo. E talvez seja justamente por isso que sua definição de hospitalidade ultrapasse tanto os limites de um hotel. Hospitalidade, para ela, é receber, acolher, criar laços e desejar o bem. É uma forma de convivência. É respeito, harmonia, cidadania e bem-querer.

O que nenhuma tecnologia consegue repetir
Essa visão ganha ainda mais peso diante de uma hotelaria cada vez mais tecnológica. Chieko não vê tecnologia e humanidade como forças opostas. Ao contrário: acredita que as ferramentas devem ajudar as pessoas a trabalhar melhor, mais rapidamente e com maior eficiência. Também enxerga na inteligência artificial a possibilidade de ampliar o conhecimento sobre preferências dos clientes e criar novas experiências.
Mas existe algo que, em sua visão, continua exclusivamente humano. Para explicar, recorre a outro conceito japonês: Ichigo Ichie. Cada encontro é único. Não se repete. A tecnologia pode ser extraordinária e multiplicável. Um encontro entre pessoas, não. “São as pessoas que dão alma à experiência”.
É a partir dessa mesma perspectiva que Chieko olha para o futuro da hotelaria. Imagina um setor mais conectado, personalizado e integrado à experiência do cliente, mas deseja que essa evolução coloque mais felicidade, acolhimento, união e convivência no centro da vida das pessoas.
No presente, identifica desafios bastante concretos: formar e reter talentos, acompanhar a tecnologia, aumentar a eficiência, superar metas e entregar experiências cada vez melhores. Mas também acredita que a hotelaria precisa fortalecer sua própria percepção de valor e criar ambientes capazes de oferecer bem-estar, tranquilidade e a sensação de recarregar as energias. No fundo, sua visão sobre o futuro não se distancia tanto dos valores que aprendeu no começo da vida.
A mulher além da executiva
Chieko admite que equilibrar carreira e vida pessoal ainda é um aprendizado. Diz sentir-se mais “em casa” quando está trabalhando. Gosta particularmente do silêncio da noite e dos finais de semana, períodos em que muitas ideias surgem. Ler, aprender, observar pessoas e acompanhar as mudanças do mundo fazem parte de seus interesses.
Ao mesmo tempo, valoriza pequenos rituais que pouco têm a ver com a imagem tradicional de uma grande executiva. Gosta de tomar café sem pressa, estar com a família e os amigos, comer comida simples e saborosa, fazer compras no supermercado e visitar livrarias. Lê no Kindle, assiste a filmes emotivos, especialmente asiáticos, gosta de andar sem rumo para descobrir coisas novas, cantar karaokê e receber massagem.
Também cultiva uma mania particular: organizar armários e gavetas à perfeição, embora admita que ultimamente não tenha tido tempo para isso. São detalhes aparentemente pequenos, mas que dialogam com uma das ideias mais presentes em sua trajetória: o valor das relações, dos encontros e das coisas simples.
Quando olha para trás, Chieko não separa completamente resultados de felicidade. Para ela, alegria e convivência também são conquistas. Talvez por isso a resposta ao conselho que daria hoje à jovem Chieko seja tão breve. “Que faça tudo de novo e melhor”.
Há muito de sua trajetória nessa frase. A disposição de continuar aprendendo. A recusa em permanecer presa à dúvida. A crença de que sempre é possível avançar. E, sobretudo, a ideia de que crescer nunca foi apenas chegar mais longe. Foi levar outras pessoas junto.


notícias recentes
ESG na hotelaria vira gestão real
Aline Faria é a nova Head de Vendas MICE da Enjoy Hotéis & Resorts
Caio Calfat confirma palestra no Trevoo Expo Summit 2026
notícias relacionadas
Antoine Chevanne: Byblos Saint-Tropez aos 60 e o valor do essencial
Thiago Borges: acolher, servir e criar experiências
Ana Luiza Russo: Villa Ayê é o lar das famílias multiespécies