Três perguntas para Simone Scorsatto, da BLTA
Simone Scorsato. Foto de Ana Laura Ravagnani
Fundada em 2008 por um grupo de empresários que identificou a necessidade de se unir de forma institucional a fim de desenvolver o turismo de luxo no Brasil, a Brazilian Luxury Travel Association (BLTA) conta com 55 associados – um grupo formado por exclusivos hotéis, resorts, pousadas e operadoras de viagens brasileiras com o objetivo de promover experiências autênticas, sofisticadas e sustentáveis no país.
Com Roberto Klabin como presidente e Simone Scorsato na posição de CEO, recentemente, a associação promoveu, em parceria com o Ibiti Projeto, o Fórum de Imersão em ESG para discutir os desafios da agenda e o impacto no turismo de luxo. Com o tema Sustentabilidade, um rito da hospitalidade, o encontro reuniu associados e parceiros, como os consultores Mariana Madureira, do Raízes Desenvolvimento Sustentável; e João Bernardo Casali, co-fundador da Nativa Brasil e conselheiro emérito do Sistema B Brasil.
Segundo Simone, a conclusão mais importante tirada do evento foi ter consciência de que é necessário mudar as atitudes para garantir a vida do planeta para gerações futuras, e essas atitudes devem ser coletivas e corporativas. “Sustentabilidade (ESG) é o único modelo de gestão de negócios que pode assegurar que o turismo sobreviva, pois, os atrativos naturais e culturais são sua base. Quem é que vai querer ir à praia que não seja balneável ou que esteja tomada de plástico?”
Para a executiva, ESG é um caminho sem volta e ainda há muito trabalho pela frente. “Temos que nos unir e ampliar esse debate para fazer mais empresas, empresários e consumidores conscientes. É um processo, e a caminhada está começando”.
Confira nossa edição especial sobre ESG

Nesta entrevista, Simone fala sobre as expectativas da entidade diante do novo governo e dos atributos do Brasil como destino “premium” tanto para turistas quanto para marcas de luxo.
1. Com os novos mandatários do Ministério do Turismo e da Embratur, você acredita que o Brasil entrará no circuito do turismo de luxo internacional? Quais os motivos que a fazem acreditar que o novo governo ajudará o setor nesse sentido?
O diálogo da BLTA tanto com o Mtur como com a Embratur desde a nomeação de seus principais atores (presidente Marcelo Freixo e ministra Daniela Carneiro) foi receptivo e muito promissor. Cabe à Embratur a promoção do Brasil. Fizeram um excelente trabalho na retomada da marca e possuem excelentes profissionais para o planejamento e a execução de plano durante estes quatro anos.
Agora é o momento de andar e olhar para frente, renovando as ferramentas de promoção e desenvolvendo estratégias por segmentos de mercado – tanto da oferta como da demanda. O desafio é consolidar uma Embratur (que agora é agência – .com) com recursos para atuação em diversas frentes, pois o mercado de turismo global não se limita a ações multiprodutos, o que infelizmente sempre foi o modelo de atuação da Embratur.
Esperamos que esta gestão tenha a sensibilidade de entender os benefícios do mercado de “luxo” – poderíamos dizer premium? – que atua e está presente tanto no ecoturismo, no turismo cultural, na gastronomia, no sol e praia, no esportivo, etc. A diferença é a qualidade e a excelência na formatação dos produtos e nas experiências oferecidas, ou seja, o mercado de consumo de produtos “premium” no turismo é global e notoriamente possui estratégias diferenciadas de promoção em diversos destinos consolidados no mundo.
Acredito na sensibilidade e interesse desta gestão para compreender que o trabalho feito até hoje pelos players do mercado de luxo trouxeram muitos benefícios ao Brasil e podem trazer muito mais. Entre eles estão a criação de tendências, a geração de empregos com qualificação e maiores salários, mídia espontânea quando um novo hotel ou experiência é lançado e formadores de opinião ajudam a moldar a imagem do destino X mídia negativa. Além disso, a sustentabilidade e consciência ambiental fazem parte do perfil do consumidor de alta renda, e o nosso “luxo” está intimamente ligado a nossos atributos naturais e culturais, à nossa autenticidade. Não por acaso que desde 2016 promovemos o Brasil no mercado internacional com o lema “autenticidade é o melhor do luxo”.
Ao Mtur cabe qualificar nossa oferta e fortalecer as instâncias governamentais para uma gestão sustentável, técnica e qualificada do turismo nacional.

2 – Redes internacionais de luxo como Six Senses e Four Seasons fizeram suas estreias no Brasil, mas não ficaram por muito tempo. O que você acha que pode ter motivado a saída tão repentina dessas companhias? Quais os entraves do mercado de luxo no País? Como solucionar?
A pandemia deixou sequelas no mercado de turismo em todo o mundo e no Brasil não foi diferente. O Four Seasons deixou o Brasil em meio à pandemia e o Six Senses já foi uma opção dos investidores da propriedade e não da operadora. São casos diferentes, cada um com suas particularidades que não cabe a mim julgar ou analisar, mas vale ressaltar que, mesmo que timidamente, já temos marcas consolidadas e com sucesso no Brasil, como é o caso da Fairmont, da Belmond e outros lançamentos por vir, como Kempinsk e Anantara.
Sobre os entraves no investimento de marcas internacionais no Brasil podemos citar nossa política tributária, inexistência de dados sobre o mercado, dificuldade na mão de obra qualificada, infraestrutura e conectividade interna, concorrência com outros destinos internacionais. Solução? Não tenho essa receita, mas, de maneira geral, seria criar uma política de incentivo pautada em contrapartidas para o desenvolvimento sustentável do Brasil – inovação, investimento em mobilidade territorial, qualificação e sobretudo investimento em educação no Brasil.
3 – Como vocês receberam a notícia da volta da cobrança do visto aos turistas dos Estados Unidos, Japão, Canadá e Austrália (que estavam isentos no governo anterior). Acredita que essa medida vai impactar o turismo de luxo no País?
A partir do momento que ganhamos esta isenção/facilitação, obviamente perdê-la é um retrocesso – sobretudo no mercado norte-americano. Infelizmente, a isenção dos vistos teve seu momento em conjunto com a pandemia, ou seja, o momento dificultou analisar dados concretos de tal benefício. O caminho agora é facilitar o processo com um visto eletrônico 24h. E, mais importante ainda, é comunicar e promover massivamente este processo nos mercado-alvo.

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