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Unidade da rede Bristol no ABC paulista é acusada de racismo

No último dia 22 de dezembro, a biomédica Lih Vitória, negra, de 30 anos, acusou ter sofrido racismo na unidade de Santo André da rede Bristol de Hotéis e Resorts, que tem sua sede em Curitiba, no Paraná. Em conversa com a hotelnews, a biomédica relatou ter sido bem atendida na hora do check-in, pois estava acompanhada de uma colega de trabalho branca e que já havia se hospedado na unidade em outra ocasião.

Todo o episódio que gerou a polêmica aconteceu na hora da saída, quando ela, com pressa e sozinha, começou a ser indagada sobre a veracidade do e-mail que confirmava a reserva e se era realmente colaboradora da empresa que assinava o documento. “O racismo não é verbalizado. Foram caras e bocas, julgamentos, expressões faciais o tempo todo. Eu só queria sair”, diz Lih Vitória, que relata também ter sido formada uma pequena comissão de “julgamento” do documento que solicitava a hospedagem, com três colaboradores da unidade, com entradas e saídas de uma sala na recepção da unidade.

Já a rede Bristol, em comunicado à hotelnews assinado pela diretora executiva, Elayne Alves, afirmou: “compreendemos o quão sensível é essa questão em uma sociedade estruturalmente racista como a brasileira e que minoriza 54% da população do país. Nosso posicionamento é de aliado da luta antirracista e de apoio a todos que são atingidos por essa violência tão sem propósito e sem sentido” 

Na mesma nota, a executiva da rede comenta o fato acontecido na unidade de Santo André: “durante as conversas, nenhuma insinuação ou frase agressiva, ofensiva ou racista foi feita ou mesmo qualquer exposição da hóspede por qualquer funcionário ou diante de outros hóspedes. Da mesma forma, não houve questionamentos ou suspeitas de nenhuma espécie”. A biomédica discorda fortemente dessa afirmação.

Especialistas

Hubber Clemente, founder da Startup ESG Afroturismo HUB, focado na inclusão racial no turismo aponta: “infelizmente, estamos vulneráveis a mais casos como este, pois o racismo estrutural ainda é ignorado pela maior parte do setor hoteleiro e turismo no Brasil. Mesmo no mês da consciência negra, são raras as ações efetivas de conscientização sobre o tema. Para evitar estas situações, o setor precisa admitir que o racismo estrutural existe, investir no letramento racial das equipes inicialmente e ter ações amplas e efetivas de inclusão racial nas empresas”.   

Rosane Lucas, reitora da Universidade dos Concierges (UNICON), acredita que falta humanização no treinamento das equipes. “Muito raramente vejo negros trabalhando nas recepções dos hotéis”, diz a profissional, que acaba de chegar do Catar sendo a única negra dos selecionados brasileiros para trabalhar na Copa do Mundo como concierge. Ela também enfatiza: “a seleção de pessoal é o segredo! É preciso saber contratar pessoas boas e transforma-las em bons profissionais”.

Já Aline Silva, Hospitality Insider, lembra que a primeira lei antirracismo do Brasil foi criada em julho de 1951, motivada por uma situação similar onde a artista, antropóloga e ativista norte-americana, Katherine Dunham, foi impedida de se hospedar em um hotel em São Paulo em razão da sua cor de pele. “Apesar da claridade da enunciação dessa lei, continua a acontecer até hoje, se repetindo ao longo dos anos devido a uma demarcação de território que impede o acesso do povo negro em ambientes que por um contexto histórico são etiquetados privilégio só de brancos, aonde o negro só pode servir”.

Para a profissional, é uma série de episódios de olhares enviesados, maus tratos e insultos recebidos em bares, restaurantes, hotéis, casas de show e aeroportos entre outros. “São atitudes recorrentes de pré-julgamento por parte do prestador de serviço, que assume a superioridade social e econômica sendo o privilégio somente de pessoas brancas. É dizer que negros não poderiam frequentar certos ambientes como clientes”. Aline também enfatiza que a atitude de um colaborador é reflexo do espírito da marca: “se um falhar, falham todos!”

Entenda a diferença entre racismo e injúria racial nesta reportagem do G1.

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