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Um novo começo para os refugiados que chegam ao Brasil

Refugiados chegam ao Brasil à procura de uma nova chance de vida, e a hotelaria pode acolher esses talentos

O movimento imigratório ganhou força no Brasil, em especial, a partir de 2017, quando venezuelanos começaram a chegar em grande número, fugindo do agravamento da situação política, econômica e social de seu país. Em contrapartida, indivíduos de outras nacionalidades também têm buscado refúgio em solo brasileiro, como sírios, congoleses, angolanos e afegãos, sem esquecer de fluxos que incluem os haitianos, cubanos e senegaleses, que procuram uma oportunidade de recomeço.

Segundo os dados mais recentes do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), no final de 2020 havia 57.099 pessoas refugiadas reconhecidas pelo Brasil. A nacionalidade em maior número no ranking é a venezuelana (46.412), seguida dos sírios (3.594) e congoleses (1.050), predominantemente na faixa de 25 a 39 anos.

“O Brasil possui uma legislação de refúgio bastante avançada, possibilitando aos que chegam e solicitam o reconhecimento de sua condição de refugiado acesso a direitos econômicos e sociais, como entrada no mercado de trabalho, educação, saúde e assistência social, nas mesmas condições dos brasileiros. Neste sentido, todos possuem documentos que asseguram a estada regular”, afirma Paulo Sérgio de Almeida, oficial de Meios de Vida e Inclusão Econômica da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR Brasil).

Na questão dos venezuelanos, foi estabelecida uma resposta humanitária chamada de Operação Acolhida, que conta com apoio do ACNUR, de outras agências da ONU e organizações da sociedade civil, englobando ações que visam o acesso seguro e documentado ao território brasileiro.

Estas ações também focam na ajuda humanitária, incluindo oferta de abrigamento aos mais vulneráveis e, ainda, uma estratégia de realocação voluntária – desde Roraima para outras cidades brasileiras com melhores perspectivas de inclusão socioeconômica. “Ademais, alguns estados e cidades criaram comitês e conselhos multisetoriais voltados ao estabelecimento de políticas, planos e programas para refugiados e migrantes que estão em seus territórios”, diz Almeida.

Empregabilidade em pauta

Além de abrigo e alimentação, essas pessoas que chegam ao Brasil em situação vulnerável têm como necessidade básica arrumar um emprego. Para colaborar com essa jornada, a plataforma Empresas com Refugiados (empresascomrefugiados.com.br) foi lançada pela ACNUR, junto com a Rede Brasil do Pacto Global. O projeto já conta com 30 cases de contratações por dezenas de grandes, médias e pequenas empresas, de diferentes setores econômicos – entretanto, a hotelaria não consta na lista. “Minha sugestão é que considerem essas pessoas para as vagas existentes, pois elas têm todos os documentos no Brasil, como CPF e carteira de trabalho. Isso faz com que não haja nenhum obstáculo legal”, reforça Almeida.

Outro ponto a favor é que os refugiados dominam diferentes idiomas e possuem vivência internacional, características valiosas principalmente para quem trabalha no turismo receptivo. “Esses imigrantes já chegam com outra língua fluente, seja espanhol, inglês ou francês, o que abre mais oportunidades”, explica Rogério de Castro Angelo, diretor-presidente da Associação Magdala Castro, fundada para apoiar refugiados em sua formação e empregabilidade dentro da hotelaria.

Além disso, Almeida ressalta que as empresas ganham múltiplos benefícios ao contratá-los, entre eles o maior engajamento de funcionários, desenvolvimento de habilidades de liderança para quem atua como mentor, somado ao fato de aumentar a diversidade dos times. “As empresas relatam que os refugiados motivam os colegas, demonstram alto comprometimento e costumam ficar mais tempo em seus cargos, gerando menores taxas de rotatividade”.

O oficial da ACNUR Brasil ainda argumenta que pessoas refugiadas são muitas vezes responsáveis por melhorar a motivação das equipes, graças a sua resiliência e experiência de vida. “Elas agregam criatividade e inovação, melhorando a produtividade. Portanto, ao incorporar pessoas refugiadas, o setor de turismo estará não apenas apoiando o recomeço dos indivíduos por meio de uma vaga de trabalho, mas também beneficiando-se com o recebimento de profissionais capacitados”.

Case hoteleiro

A Accor é referência em acolhimento desta população. Em outubro de 2019, o escritório sul-americano da rede assinou um acordo para contratar cerca de 150 refugiados venezuelanos para trabalho nos hotéis operados na Argentina, Brasil, Chile e Colômbia. O Novotel Itu (SP), por exemplo, tem hoje seis venezuelanos em seu quadro de funcionários, sendo que quatro deles vieram desta ação.

Já o Café Trampolim, localizado no ibis Budget São Paulo Paulista, há dois anos contrata refugiados por meio de parcerias com ONGs. Atualmente, o restaurante tem um sírio e um congolês. No mesmo hotel há outros dois colaboradores do Congo e dois da Venezuela na recepção.

“Para a Accor, esta é uma causa muito importante e a empresa atua em diferentes países do continente. Oferecer oportunidades para todos, sem distinção, é a premissa da empresa, impondo o respeito e igualdade a todos”, comenta Fernando Viriato, vice-presidente sênior de Talento e Cultura da Accor na América do Sul.

Segundo o executivo, os traumas de vida que essas pessoas carregam são profundos e se faz necessário o acolhimento humano, algo que é a especialidade da hotelaria. “Receber bem esses colaboradores tão machucados já é um grande passo para que eles reconstruam suas vidas. Acredito que temos algo valioso para usar a favor dos refugiados, tornando visível quem era invisível e dando protagonismo a estas pessoas e suas famílias com a geração de emprego, renda e oportunidades”.

A novidade mais recente do grupo é um acordo, assumido publicamente, para desenvolver, implementar e monitorar, dentro de suas capacidades e possibilidades, um plano de ação interno voltado ao empoderamento econômico de mulheres refugiadas e migrantes.

“A empresa se compromete a agir em prol do empoderamento econômico, oferecendo salários dignos, emprego decente e possibilidade de desenvolvimento profissional. Vamos dar visibilidade à temática da empregabilidade dessas mulheres, apoiando a divulgação de informações relevantes e ações práticas em diferentes canais, internos e externos, além de desenvolver e implementar estratégias para efetivamente integrá-las”, diz Viriato.

A hotelnews entrou em contato com as principais redes hoteleiras, para citar nesta reportagem mais cases de grupos que contratam refugiados, mas elas não quiseram participar por não ter uma política de acolhimento definida. Isso mostra que ainda existe uma oportunidade para o setor se organizar internamente, com a ajuda de entidades e ONGs especializadas no assunto, de maneira que seja possível oferecer oportunidades para esta mão de obra diferenciada.

Associação Magdala Castro

Com o objetivo de aumentar a empregabilidade de refugiados no setor hoteleiro e contribuir com suas formações profissionais, Rogério de Castro Angelo resolveu criar a Associação Magdala Castro. A entidade estimula o desenvolvimento profissional de imigrantes em situação de refúgio, entre 25 e 45 anos, por meio de sua capacitação no ramo.

Inclusive, foi assinado um acordo de cooperação com o Senac-SP e a competência funcional da atividade será realizada na unidade Aclimação. “Os cursos serão gratuitos dentro da parceria. Vamos matriculá-los e gerir a pontualidade deles. Algo interessante é que este projeto me veio à mente quando comecei a cursar uma pós-graduação em Projetos Sociais no Senac Francisco Matarazzo, em São Paulo. Então permanecemos em casa”, comenta Rogério.

Além da formação profissional, a fundação proporcionará uma verdadeira aula sobre a cultura brasileira, evitando que os refugiados tenham choques sociais muito grandes quando começarem a morar no País. A associação é uma forma de apoio aos órgãos governamentais, pois as políticas públicas ainda são insuficientes, argumenta o diretor-presidente da associação.

“Focaremos na vulnerabilidade de imigrantes forçados, seja pela condição política de seus países, como os venezuelanos e africanos, ou tragédias naturais, como os haitianos, que passaram por um grave abalo sísmico. Agora temos ainda a situação dos ucranianos, afetados pela guerra contra a Rússia, mas, em razão da nossa distância geográfica com o Leste Europeu, fica mais difícil de recebê-los. Porém, há muitas colônias no Paraná e Santa Catarina”, lembra Rogério.

Além do impacto psicológico, por terem que abandonar suas vidas no país de origem, os refugiados enfrentam outros problemas ao chegarem ao Brasil, principalmente no que diz respeito à vulnerabilidade social. “O contexto inclui a falta de políticas públicas a nível federal, estadual e municipal, superlotação das instituições que abrigam imigrantes, dificuldade da garantia dos direitos trabalhistas, racismo e xenofobia. Logo, a hotelaria brasileira poderia colaborar com o senso de pertencimento, ajudando na estabilidade emocional, moral e profissional dessas pessoas”, sugere Rogério de Castro Angelo.

Ele pondera que esse tema não tem como não ser abordado hoje, e traz consigo a possibilidade de mudança da mentalidade corporativa e de órgãos federais. “O Estado não tem condições de suprir todas as necessidades internas e externas sozinho. Se faz necessário a presença de mais órgãos voltados para o bem comum”.

Quem é Magdala Castro

Natural de Niterói (RS), Magdala Castro é fundadora da feira Equipotel e da revista hotelnews. Começou sua trajetória no turismo na Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, onde atuava na Divisão de Agências na loja da empresa localizada no Aeroporto Santos Dumont (RJ). Lá, era responsável pelo entrosamento com os agentes de viagens, mas depois de um tempo, decidiu atuar por conta própria.

Assim, foi fazer corretagem de anúncios para emissoras de rádio, jornal e cinema. Pouco tempo depois, criou em sociedade com o jornalista Normando Lopes (falecido em 1968) uma agência chamada Aero Publicidade, e em 1958, teve a ideia de oferecer os serviços para a rede Othon, que programava a inauguração do hotel Trocadero.

Assim, a profissional idealizou toda a campanha publicitária para a ocasião, o que incluía a elaboração de uma revista comemorativa para a qual deu o nome de Othonews. A primeira edição foi um sucesso. Muitas das empresas que equiparam a propriedade se interessaram em anunciar e mais dois números foram lançados. Mas, como a distribuição era restrita aos hotéis da rede, os anunciantes foram rareando e a Othon também se desinteressou.

Entretanto, a empresária decidiu levar o projeto adiante, alterou o nome da revista para hotelnews e passou a distribuí-la para hotéis de todo o Brasil. E o empreendedorismo não parou por aí. Se valendo de seu relacionamento com os fornecedores de hotéis, três anos depois lançou a “Exposição Indústria Fornecedora da Hotelaria”, que acontecia junto com o congresso da ABIH, e que mais tarde passou a se chamar Equipotel.

Após décadas, todos esses feitos levaram a empresária a uma posição de ícone na hotelaria, sempre com o apoio das filhas Martha, Rosa, Katia e Marcia. “Ao darmos o nome de Magdala Castro à associação, o objetivo é prestar uma grande homenagem a esta pessoa dedicada, generosa e agregadora, que tem um coração enorme”, explica o seu neto, Rogério de Castro Angelo.

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