Turismo religioso – A fé que move o setor turístico

Dos 60 milhões de brasileiros que querem viajar, pelo menos 15 milhões estão interessados nesses destinos

Por Eduardo Vessoni

À primeira vista, turista brasileiro parece tudo igual. Viaja em grupos, procura a segurança dos pacotes de agências e prepara a viagem com antecedência maior que a dos estrangeiros. Mas quando o assunto é turismo religioso, a característica principal do perfil desse viajante é a fé.

Definido pelo Ministério do Turismo (MTur) como ‘a atividade turística decorrente da busca espiritual e da prática religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas no País’, o turismo religioso teve um movimento de 3,94 milhões de viagens domésticas em 2012. Esses deslocamentos movidos pela crença ainda soam discretos, diante de um mercado nacional que, no mesmo ano, contabilizou 197 milhões de viagens realizadas no Brasil, segundo o Departamento de Estudos e Pesquisas do MTur.

Com o objetivo de promover segmentos turísticos como fator de desenvolvimento regional, o ministério tem encabeçado ações que estimulam o planejamento e gestão desse tipo de turismo, cujo mercado atual conta com pelo menos 15 milhões de brasileiros interessados em destinos religiosos no País. “O brasileiro é religioso por natureza e as chances de crescimento no turismo desse gênero ainda é muito grande. Atualmente, existem no Brasil 60 milhões de pessoas que têm o turismo como meta de consumo e é para esse público que o setor precisa vender esse tipo de produto”, afirma José Francisco Salles Lopes, diretor do Departamento de Estudos e Pesquisas do Ministério do Turismo.

Só para se ter uma ideia, a Jornada Mundial da Juventude, que aconteceu em 2013 no Rio de Janeiro, gerou R$ 273,9 milhões no comércio varejista, segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Em 2013, o MTur realizou uma chamada pública com o objetivo de fortalecer o segmento com a aplicação de R$ 750 mil destinados a cinco projetos de turismo religioso, um de cada macrorregião do País. Entre os contemplados pelo processo seletivo de projetos, cujo apoio variou de R$ 100 mil a R$ 150 mil para cada um dos ganhadores, estão destinos nacionais como Aparecida (SP), Nova Trento (SC), Trindade (GO), Santa Cruz (RN) e Bragança (PA). “A economia do turismo é muito ágil e, na medida em que se verifica a probabilidade de um crescimento e um evento religioso, toda economia local passa a atuar e a incorporá-lo em sua agenda oficial”, explica José Francisco.

Mercado potencial

Esse nicho do turismo, classificado no gênero Turismo Cultural do Brasil, junto com outras opções, como Turismo Cívico, Étnico, Místico e Esotérico, vem conquistando brasileiros em destinos como a paraense Belém, cuja festa de Círio de Nazaré é considerada uma das maiores do planeta; e Juazeiro do Norte, onde as tradicionais romarias dos devotos de padre Cícero recebem cerca de dois milhões de fiéis, anualmente.

Na lista dos cinco eventos ou destinos mais consolidados do turismo religioso no País, de acordo com o Ministério do Turismo, estão as cidades de Ouro Preto, Mariana, Congonhas do Campo, em Minas Gerais; Salvador, na Bahia; e Nova Trento, em Santa Catarina, que passou a atrair maior número de visitantes após a beatificação de Madre Paulina pelo Papa João Paulo II, em 1991.

Mas o maior representante do turismo do gênero ainda é a paulista Aparecida, a capital oficial das romarias brasileiras, distante 170 km da capital, chega a receber por ano mais de onze milhões de visitantes, transformando-se em um dos maiores centros de peregrinação religiosa da América Latina. Só para entender o que isso representa, a cidade de Fátima, em Portugal, recebeu cerca de cinco milhões de peregrinos e Lourdes, na França, seis milhões, em 2013.

O Santuário Nacional de Aparecida conta com 143 mil m² de área construída com serviços para os fiéis, como lojas e praça de alimentação, e a Cidade do Romeiro, onde está o Hotel Rainha do Brasil, com 330 apartamentos.

Com quase 72 mil m², a Basílica de Aparecida é um dos endereços mais visitados do complexo católico, cujo interior abriga a imagem da Padroeira do Brasil, exposta em um retábulo de 37 metros de altura; e o Altar Central, que chega a receber 30 mil devotos em um único dia.

Atualmente, Aparecida conta com uma rede hoteleira formada por 170 hotéis, totalizando 32 mil leitos. É tanto potencial que o destino receberá, em março, um seminário sobre turismo religioso para que seja discutido o atual momento do setor, os principais agentes, infraestrutura, destinos, produtos e serviços. “O Brasil precisa ampliar esse nicho turístico. Queremos fomentar a visitação ao Santuário Nossa Senhora Aparecida e projetá-lo como destino mundial de peregrinação, por isso os esforços do setor de hospedagem serão voltados principalmente para atrair turistas com alto poder aquisitivo”, defende Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), responsável pelo seminário.

Roteiros temáticos           

Turismo e religião caminham juntos também em roteiros temáticos que unem religiosidade e esporte, como o projeto ‘Os Passos de Anchieta’, considerado o primeiro roteiro cristão das Américas. Trata-se de uma trilha de 100 km de extensão percorrida em quatro dias e que reconstitui parte do caminho realizado por Padre Anchieta, no litoral do Espírito Santo, e passa por atrações religiosas e turísticas capixabas, como o Convento da Penha, praias urbanas de Vila Velha e as faixas de areia que dizem ter poderes de cura de Guarapari, fundada por José de Anchieta.

Em sua 17ª edição, com uma procura aproximada de quatro mil pessoas por evento, o roteiro costuma ser frequentado por empresários, profissionais liberais, aposentados e estudantes. “Como o caminho passa por várias cidades e as pernoites são em balneários na praia, as acomodações são sempre em hotéis e pousadas existentes ao longo do percurso. A rede hoteleira existente atende à demanda do evento”, explica o idealizador Carlos Magno de Queiroz, o Lilico.

Menos conhecidos, mas com popularidade crescente entre fiéis, outros destinos têm sido procurados pelos viajantes da fé, como Trindade (GO), que tem como ponto alto de peregrinação a Festa do Divino Pai Eterno, em julho. Com uma programação extensa que dura 10 dias e conta com 115 missas e 11 procissões, o último evento recebeu quase três milhões de fiéis, que se dirigiram ao Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, na região metropolitana de Goiânia.

Diversidade

Embora o setor do turismo religioso ainda não seja tão sincrético quanto o próprio Brasil, cujo Censo 2010 do IBGE registrou um aumento no número de pessoas que se declararam evangélicas ou espíritas, destinos turísticos têm ganhado novos serviços voltados para os fiéis.

O presidente da FBHA, Alexandre Sampaio, lembra que a diversidade religiosa é uma característica do povo brasileiro e acredita que existe mercado para outras religiões no mundo das viagens, como o turismo evangélico, cujo crescimento tem sido incentivado por “eventos, caravanas e até cruzeiros marítimos com a presença de líderes espirituais, pastores e shows gospels”, e o candomblé de Salvador “que mobiliza um fluxo grande de turistas interessados em conhecer os terreiros e que convivem com o turismo católico, também forte da capital baiana, que tem mais de 300 igrejas”, descreve Sampaio.

Endereço do túmulo do médium espírita Chico Xavier, a mineira Uberaba aguarda ansiosa pela inauguração do Memorial Chico Xavier prevista para o segundo semestre de 2015 e que contou com investimentos do Ministério do Turismo e da prefeitura da cidade.

No norte do Brasil, o Círio de Nazaré, uma das principais procissões católicas do Brasil e do mundo, não só movimenta um cordão humano com milhares de fiéis que homenageiam Nossa Senhora de Nazaré ao longo de um percurso de 3,6 km de extensão, como também move a economia local. Durante os dias que antecedem as celebrações, em outubro, o destino assiste o impacto do evento religioso sobre o turismo e a economia do Pará, movimentando setores como o de transporte.

Aproximadamente 70% dos visitantes que desembarcam durante o Círio são provenientes de estados do Norte e do Nordeste, como Piauí, Ceará, Amapá, Tocantins e Maranhão, segundo a Sinart, administradora do Terminal Rodoviário de Belém. E a maioria dos fiéis chega à capital do Pará por vias terrestres, aquecendo também o mercado de vendas de passagens rodoviárias pela internet, como informou a assessoria de imprensa da ClickBus, buscador de tarifas em mais de três mil destinos.

Aliás, para José Francisco Salles Lopes do Ministério do Turismo, o mundo virtual é o maior desafio para os empresários que querem crescer no segmento do turismo religioso. “Um dos investimentos que devem ser feitos é a melhoria das informações na internet para que o destino possa promover o que tem para oferecer a esse tipo de turista. Hoje, sabemos que 40% das pesquisas sobre viagem vêm da internet”, explica Lopes.

Já Alexandre Sampaio acredita que os fatores mais desafiadores são a infraestrutura das cidades, que ainda são pouco adequadas. “À exceção das grandes capitais e dos grandes centros turísticos religiosos, como Belém e Aparecida, de um modo geral o turismo religioso precisa melhorar o atendimento. É necessário buscar parcerias e investimentos públicos e promover a qualificação dos pequenos empresários e da mão de obra. Muitos são pequenos hoteleiros e comerciantes de bares e restaurantes que têm dificuldade em investir no próprio negócio”, analisa Sampaio.

Um dos exemplos é Nova Trento, destino catarinense que recebe, em média, um milhão de visitantes por ano provenientes sobretudo do próprio estado, além do Paraná e São Paulo. “A estrutura hoteleira da cidade ainda é tímida, apesar de ter evoluído nos últimos anos”, confessa Eluisio Voltolini, secretário de turismo desse destino que, atualmente, conta com aproximadamente 500 leitos em pousadas e um hotel. Quase nada para uma cidade que chega a receber 70 mil visitantes em um único mês.

Sobre a sazonalidade em destinos religiosos, outra dificuldade destacada por Alexandre Sampaio é a necessidade de trabalhar com promoções e provocar a prefeitura local para que sejam criadas outras demandas possíveis no calendário de eventos da cidade, além de festas religiosas. “É importante que os empresários se unam e sejam criativos para propor atividades culturais, shows e festivais gastronômicos utilizando produtos nativos para divulgá-los”, completa.

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