Mesmo conscientes sobre a importância da contribuição, hotéis não conseguem ampliar a arrecadação
Principal fonte de receita dos conventions & visitors bureaux brasileiros, o room tax (ou taxa de turismo) está longe de ter o seu valor reconhecido pelo hóspede, especialmente o corporativo. Apesar dos amplos esforços promocionais dos CVBx e da conscientização dos hoteleiros sobre a importância da contribuição, a arrecadação ainda é limitada, não chegando a 50% nem mesmo nos dois principais mercados do País.
Em São Paulo, o valor da contribuição varia entre R$ 3,20, R$ 4,50 e R$ 6, por pernoite de hóspede, dependendo da categoria do hotel, e a arrecadação média gira em torno de 45%, segundo Toni Sando, presidente-executivo do São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB), o maior e mais antigo CVB brasileiro, fundado em 1983 e atualmente com 700 associados de 55 segmentos, entre os quais estão 220 meios de hospedagem.
Da mensalidade desses associados, ações de mídia e parcerias vêm o restante da receita total do SPCVB. O hoteleiro em São Paulo tem consciência da importância do trabalho de um convention & visitors bureau. São boletins semanais, informação sobre eventos de curto, médio e longo prazos para suas prospecções de negócios, encontros entre associados e muito networking. Além disso, nossa equipe visita os gerentes-gerais, gerentes financeiros, equipes comercias e promove vários encontros com os profissionais de atendimento. Cada hotel recebe também mensalmente uma planilha de seu percentual de contribuição comparado à região e à sua rede hoteleira, quando é o caso, e assim todos participam e se envolvem diretamente, afirma. Uma das ações recentes do convention paulista foi o lançamento da campanha Para um destino cada vez maior criada como mais um veículo institucional de promoção do room tax, com apoio da ABIH-SP e do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (fohb).
O fato de ser uma contribuição facultativa, no entanto, é visto como o principal entrave ao aumento da arrecadação entre os hóspedes, na opinião de Sando. Em alguns países a contribuição é taxa mesmo, obrigatória, e o repasse à iniciativa privada que faz a função de promover o turismo no destino fica a cargo do governo, informa.
Carlos Eduardo Hue, gerente-geral do Sheraton São Paulo WTC Hotel, é um forte defensor do recolhimento até porque conhece de perto a atuação do convention de que é um dos vice-presidentes na atual gestão. Os mantenedores pagam uma taxa muito pequena e o valor da mensalidade é baixo, o que torna a receita adicional arrecadada com o room tax de suma importância no fomento da atividade turística com a captação de mais hóspedes de lazer e negócios, que é a principal atribuição dos conventions em suas localidades, afirma. Imagine se essa distribuição estivesse na mão da municipalidade?, completa Hue, que também é crítico aos hotéis que utilizam a taxa como moeda de troca na negociação dos contratos.
Na segunda maior cidade brasileira, o Rio CVB – Fundado em 1984 e atualmente com 134 empresas associadas, incluindo 43 hotéis – não vive um cenário muito diferente e os entraves são os mesmos. No caso de hospedagem de grupos, existe uma resistência por parte das agências e operadoras turísticas que, na busca por oferecer o melhor preço, descartam a cobrança da room tax, conta Alfredo Lopes, presidente-executivo do Rio Convention & Visitors Bureau e presidente da ABIH-RJ. Para reverter o quadro, promovem campanhas direcionadas aos chefes de recepção e aos hóspedes. Recentemente produzimos um flyer voltado a profissionais de vendas e recepcionistas de hotéis e em fase de produção temos um folheto direcionado exclusivamente à conscientização dos hóspedes, informa Lopes.
Mônica Paixão, gerente-geral do Hotel Santa Teresa, é outra incentivadora da contribuição e do trabalho do Rio CVB. Desenvolvemos muitas parcerias em conjunto, principalmente quando recebemos jornalistas estrangeiros. Nossos hóspedes também não fazem nenhuma restrição à taxa, mas entendo que essa não é uma realidade comum a outros hotéis da cidade. Aqui recebemos um público de maior poder aquisitivo e executivos de grandes grupos estrangeiros, em sua maioria, que compreendem que o valor reverte em benefícios para a cidade.
Questão não é pontual
Fora do eixo Rio-SP o cenário também se mantém equilibrado, o que demonstra que a questão não é pontual. O Curitiba, Região e Litoral Convention & Visitors Bureau foi instituído há 13 anos, tem 140 associados, entre os quais 45 hotéis e quatro hostels. Em 2012 o valor foi reajustado e a nova proposta foi feita em pesquisa de benchmarking em outros destinos de características semelhantes ao nosso e variam de R$ 1,20 (econômica), R$ 1,80 (turística), R$ 2,10 (superior), R$ 2,40 (luxo) e R$ 3,10 (super luxo), sendo que 15% do valor arrecadado é retido no hotel para taxas administrativas e 85% é repassado ao CCVB, explica a diretora-executiva Tatiana Turra.
No ano passado, segundo a executiva, o valor representou 60% da receita do CCVB com a aplicação direta e exclusiva às ações de marketing do destino, o que compreende todo o processo de captação e promoção de eventos que envolve pesquisa, ações de sensibilização de promotores e organizadores de eventos, elaboração das estratégias e projeto de candidatura, materiais promocionais, brindes, banners, viagens para defesa e/ou promoção de eventos e a instalação de postos de informações turísticas em eventos.
Para a melhor compreensão e envolvimento de todos os atores relacionados ao tema criamos em 2010 a campanha Eu apoio o Room Tax/Doação para o Turismo. Como atores identificamos os proprietários, gerentes, equipes de comercial, marketing e reserva, camareiras, mensageiros e recepcionistas, agentes e operadores de viagem, promotores e organizadores de eventos, gestores de viagens e de eventos corporativos, e os próprios turistas que viajam a lazer, negócios ou para participarem de algum evento. A campanha pensa em cada um deles, pois os visualizamos em um quebra-cabeça, onde cada um representa uma peça, afirma Tatiana, citando apenas uma entre muitas iniciativas encampadas com esse fim. A maior dificuldade, segundo a diretora, é manter os colaboradores novos dos hotéis sempre informados e capacitados sobre a taxa, e a mobilização do mercado corporativo e agências de viagens sobre sua importância e benefícios em prol do setor.
Suzi Almeida, gerente-geral do Slaviero Conceptual Full Jazz, de Curitiba, afirma que os grupos corporativos já chegam com a solicitação prévia, antecipada na reserva, para que a taxa não seja incluída, mesmo quando são mencionados alguns diferenciais como o serviço Leva e Traz, apoiado pelo Curitiba CVB, e a cobertura médica incluída na taxa cobrada pelo Iguassu Convention & Visitors Bureau (ICVB), citando outro exemplo paranaense.
No caso do Recife CVB, a contribuição corresponde a 80% da receita, segundo a diretora-executiva, Maitê Uhlmann. Trabalhamos a sensibilização realizando treinamentos com as equipes de recepção dos hotéis associados, onde explicamos o trabalho desenvolvido pelo Recife CVB, o porquê da cobrança e como ela deve ser passada ao hóspede, no sentido de convencê-lo a contribuir, e distribuímos folders contendo as mesmas informações, afirma. A ABIH local apoia, segundo a executiva, mas não promove nenhuma ação específica.
Fernando Marques Menezes, gerente de Hospedagem do hotel Vila Rica, em Recife, consegue bons resultados quando flexibiliza a contribuição negociando, por exemplo, a cobrança de dois e meio pernoites em um pacote de cinco. Os grupos habituées, segundo o gerente, costumam ser os mais resistentes.
O caso mais crítico vem da capital federal, como relata o secretário-executivo do Brasília e Região Convention & Visitors Bureau, Delfim da Costa Almeida. A arrecadação representa cerca de 85% da nossa receita. Com a diária média em torno de R$ 250, a room tax que representa cerca de 1% desse valor, deveria ser repassada integralmente ao BRCVB, mas os hotéis normalmente reduzem 18%, referente aos tributos envolvidos na receita deles. Temos um trabalho junto à Secretaria da Fazenda para desonerar esses valores por entendermos que é um recolhimento em nome de terceiros e, portanto, não deveria ser taxado pelo governo, explica.
Segundo o secretário, o trabalho de conscientização é continuo e ininterrupto. Visitamos os hotéis prioritariamente e conversamos pessoalmente com todos os gerentes, mas Brasília é uma cidade que tem muito servidor público como hóspede e as diárias são pagas pelo órgão do governo ou autarquia à qual ele está vinculado. De acordo com Almeida, essas organizações não pagam o room tax e os servidores também não aceitam a cobrança. Se um hóspede de empresa privada ou em viagem de lazer presencia esse diálogo, também não aceita pagar, essa tem sido nossa principal dificuldade, ressalta.
Dejacy Coelho, gerente-geral do Bristol Brasília atesta, na prática, essa realidade e acrescenta ao público mais resistente os agentes de viagens, que já emitem seus vouchers sem a cobrança, o que dificulta a sensibilização do hóspede no momento do check-out.

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