Plano de carreira

Executivos brasileiros estão se destacando em funções estratégicas na hotelaria

Menos de uma década atrás graduados em Hotelaria ressentiam-se da falta de oportunidades de crescimento na área. A queixa recorrente era de que mesmo formados e experientes, as vagas limitavam-se às funções operacionais, enquanto as posições estratégicas eram reservadas a profissionais egressos de áreas administrativas, quando não a estrangeiros, especialmente em se tratando de grupos internacionais . O cenário mudou, e muito, como comprova a trajetória de executivos brasileiros que apostaram no setor e estão trilhando carreiras de sucesso e em contínua ascensão.

Abel Castro, diretor de Desenvolvimento da Accor na América Latina, não elegeu a Hotelaria como primeira opção, mas sim a Agronomia. Bastaram dois anos de curso, no entanto, para que ele percebesse que a escolha tinha sido feita muito mais por questões circunstanciais do que propriamente vocacionais. “Eu morava em Florianópolis e tive que tomar a decisão de qual curso prestar vestibular. Não tinha muitas ideias e acabei optando pela Agronomia porque uma parte da minha família trabalha com fazendas”. Não concluiu a graduação e decidiu mudar radicalmente de área, ingressando no curso de Turismo e Hotelaria na Univali (SC), onde se formou em 2000. Completou os estudos com um MBA em Marketing de Serviços, pela ESPM (SP), e cursos de extensão em Hotelaria na Austrália e Espanha.

A primeira oportunidade de trabalho para Abel surgiu no hotel Marambaia, em Itajaí (SC), e foi mesmo em postos ligados às áreas operacionais (reservas, administrativo, eventos, front office etc). Passou, ainda, por outras duas empresas exercendo funções semelhantes, uma delas em Sydney, na Austrália, onde morou por um ano. Tudo isso aconteceu em cinco anos, tempo exato que levou para concluir a graduação e descobrir que seu lugar era na área de Desenvolvimento de hotéis. O desejo começou a se tornar realidade no estágio de três meses que fez na BSH International, empresa especializada em Consultoria, Desenvolvimento e Estruturação de projetos hoteleiros. Contratado, permaneceu lá por cinco anos até ser convidado por Roland de Bonadona e Rafael Guaspari, na época dirigentes do Fohb, a ocupar a posição de diretor-executivo da entidade. De lá para o ingresso na Accor passaram-se apenas dois anos, e na rede francesa a ascensão foi contínua e acelerada.

Em apenas cinco anos saltou da gerência de Desenvolvimento Sudeste e Sul para a direção da área em todo o País e logo depois à América Latina. “Trabalhar na área de expansão em uma empresa como a Accor é estar absolutamente no centro da estratégia de crescer de forma rápida e sustentável em países em desenvolvimento, ou seja, muita pressão, mas também muitas realizações. Dá um enorme prazer assinar um contrato para a construção de um empreendimento e depois de alguns anos entrar lá sabendo que fui responsável por aquele projeto; pensar em quantas pessoas trabalharam na construção, quantas famílias vivem do salários dos colaboradores, quantos hóspedes estão sendo bem atendidos pelo hotel que ajudei a desenvolver”, conta o executivo que só se ressente do excesso de viagens, que o deixa longe de casa e da família.

Igualmente em ascensão está a carreira de Rodrigo Mangerotti, superintendente da Hotéis Arco, outro profissional que abraçou a Hotelaria após uma graduação em Turismo pela Universidade Newton Paiva (BH), onde também especializou-se em Gestão Estratégica de Empresas. “Comecei minha carreira na Delusa, uma representação de hotéis em Minas Gerais. No início de 2000, com a explosão de flats em BH, iniciei minha história na Accor passando por diversos cargos, sempre na área comercial, até chegar à gerência de Vendas do Mercure Hotel Belo Horizonte Lourdes. Em 2007, depois de uma passagem pelo Posadas, onde geriu duas unidades Caesar Park, Rodrigo aceitou o desafio de coordenar e desenvolver a rede de Hotéis Arco, na ocasião com quatro empreendimentos e atualmente com sete. Na opinião de Mangerotti, são muitas as vantagens de se trabalhar no segmento hoteleiro, entre as quais a inexistência de rotina e a oportunidade de vivência com culturas e costumes de outros países.

O executivo lembra, no entanto, que essa é uma área que requer uma entrega plena, o que significa muitas vezes passar datas especiais longe da família e de amigos em detrimento de uma reunião com investidores ou uma feira importante. “Sou muito feliz nessa profissão e minha grande escola, sem dúvida, foi a Accor, uma rede com alto grau de inovação e mudanças contínuas, onde aprendi a ser flexível e inquieto, não me satisfazer com os resultados imediatos e buscar sempre a alta performance. As multinacionais possuem planejamentos estratégicos amplos e verticalizados. Hoje em uma rede familiar, por outro lado, consigo inovar com mais rapidez e de acordo com a região em que nossos hotéis estão inseridos. O maior desafio é implantar a governança corporativa sem perder o foco na lucratividade imediata”, avalia.

Desafios das transições

Wellington Estruquel, CEO da rede Mabu de Hotéis e Resorts, é graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão de Marketing e Vendas. O dom para a área comercial foi descoberto antes mesmo da vocação para a Hotelaria, propriamente. Ele tinha apenas 15 anos quando começou a trabalhar como auxiliar no escritório que o Orotour Garden Hotel, de Campos do Jordão, mantinha em São Paulo. Em momentos de pico, foi muitas vezes requisitado a apoiar o pessoal de reservas. O seu desempenho na função chamou a atenção do chefe, na ocasião, que decidiu treiná-lo e promovê-lo a executivo de Contas, inicialmente, e em seguida a promotor de Vendas. A primeira grande oportunidade na área também veio de forma precoce, quando com apenas 22 anos assumiu a gerência de Vendas do L´Hotel, dez meses depois de ter ingressado como gerente de contas sênior. “Foi um belo desafio porque o L’ hotel surgiu no mercado instituindo o conceito de hotel boutique e lá pude aprender muito sobre o desenvolvimento de estratégias de Vendas e Marketing, e também sobre áreas operacionais como governança, A&B e recepção, entre outras, porque para vender bem é preciso que se conheça inteiramente o produto”, conta.

Em 24 anos de carreira, o executivo também registrou passagens por grandes redes como Accor, onde foi responsável pelo gerenciamento de mercados nacionais e internacionais do Sofitel São Paulo; Atlantica, à frente de vários segmentos corporativos e exercendo negociações para a captação de novos hotéis para o grupo; e Pestana, onde exerceu, entre outras atividades, a de gerenciamento de toda a equipe comercial no Brasil, Argentina e Caracas. À frente agora de uma rede nacional, Estruquel experimenta uma governança corporativa que lhe confere mais agilidade e liberdade na tomada de decisões e arranque de planos, ao mesmo tempo em que toma para si a responsabilidade da implantação contínua de melhores práticas e políticas de benchmarking com o foco direto em custos e na obtenção de resultados.

Outro executivo que recentemente experimentou a transição de redes internacionais para um grupo de administração familiar é Jeferson Munhoz, diretor de Vendas na Bourbon Hotéis & Resorts. O investimento na carreira hoteleira, iniciada na Rede Eldorado de Hotéis (passou posteriormente também pelo Delphin Hotel, do Guarujá, no litoral paulista), trilhou uma sólida formação acadêmica, que inclui a graduação em Turismo , pós-graduações em Marketing de Varejo e Planejamento Estratégico e um mestrado em Hospitalidade, além de MBAs e cursos no exterior. “A Hotelaria hoje está muito dinâmica. O profissional que quer crescer nessa área precisa ser especialista em muitos pontos, conhecer bem as operações e dominar a distribuição tradicional e eletrônica”, ressalta Jeferson.

Sobre a atuação em grupos internacionais ou nacionais, o diretor acredita que o diferencial não está nas questões multiculturais. “Em uma empresa multinacional o contato com diversos modelos e culturas distintas é muito bom para ampliar nossa visão. Em uma rede nacional, por outro lado, a agilidade e liberdade que temos de desenvolver projetos é muito gratificante para qualquer profissional. O que me moveu a aceitar o projeto Bourbon foi exatamente isso, poder desenvolver projetos e ideias que em certo momento são mais complexos de validar em uma rede internacional”, completa.

Mulheres no comando

Daniela Pereira, gerente-geral do Staybridge Suítes São Paulo é um exemplo de executiva que construiu toda a carreira em um único grupo. Hoje responsável pela administração geral do empreendimento que integra a IHG, Daniela soma 21 anos de experiência ocupando posições de liderança e gestão de grandes equipes em hotéis como Crowne Plaza São Paulo, Holiday Inn Parque Anhembi e InterContinental São Paulo, onde acumulou a função de diretora de Vendas e Marketing e Regional Brasil. Formada em Hotelaria, possui diversos cursos na área de Hospitalidade realizados aqui e no exterior .”Eu havia morado um ano fora do Brasil e quando voltei me apresentaram ao Marcos Mello, que na época trabalhava no escritório corporativo do InterContinental. Fiz uma entrevista, e sem entender exatamente o que eu ia fazer, comecei a trabalhar no escritório de Vendas, em São Paulo, como executiva de contas. Naquela época a IHG não existia no formato que é hoje, eram apenas os InterContinentais e os Fórum Hotéis que compunham o grupo Saizon”, revela.

Nesse percurso, Daniela lembra que entre a felicidade de participar de aberturas como a do InterContinental São Paulo, e da chegada da marca Staybridge Suítes ao Brasil, vivenciou a triste experiência de fazer o ‘fechamento’ de um hotel, em 2009, quando o Crowne Plaza encerrou suas atividades. “Eu adoro trabalhar nessa área, a grande vantagem é que não existe rotina. A vida na Hotelaria é tão agitada e cheia de acontecimentos que não conseguimos enjoar . A desvantagem é que exatamente pelo fato de o setor ser tão apaixonante, muitas vezes não conseguimos sair dele”, afirma a gerente que embora enxergue na carreira internacional um grande desafio, ainda acredita muito no mercado brasileiro, especialmente na atual conjuntura. “Minha carreira em Operações ainda é curta, então neste momento o desafio é aprimorar meu trabalho nesta área e adquirir bagagem extra”.

Na opinião de Daniela, a carreira em Hotelaria exige muita disciplina e equilíbrio quando o assunto é conciliar a vida pessoal e profissional. “São muitos eventos, viagens e horários desregrados e quando somamos a tudo isto a tarefa de ser mãe e mulher, a carga horária triplica. Acredito que a melhor forma de administrar tudo isto é usar o bom senso e conseguir se dedicar 100% à tarefa da vez. Quando chega o momento da família é preciso estar por inteiro com eles, da mesma forma que quando chega a vez do trabalho e da viagem é importante que todas as energias sejam concentradas naquilo que se está fazendo”, ensina Daniela, para quem o fato de ser mulher nunca foi um problema para crescer no setor. “´É verdade que alguns cargos ainda são ocupados, na sua maioria, por homens, mas vejo que este cenário vem mudando a cada dia. Da mesma forma que há alguns anos os cargos mais altos eram ocupados por estrangeiros. Dificilmente víamos um brasileiro ocupando posição de destaque nas grandes redes”, completa.

Outra representante do grupo feminino é Paula Muniz, vice-presidente de Desenvolvimento para o Brasil da Hilton Worldwide, que é formada em Comercio Exterior com especialização na Cornell University, nos Estados Unidos. “Ingressei na hotelaria em 1994 e não foi de paraquedas, como a maior parte dos profissionais que chegavam ao setor naquela época. As pessoas tinham a Hotelaria como um trabalho temporário, enquanto eu queria realmente atuar na área”. A chance de concretizar o objetivo Paula encontrou na Hilton, inicialmente como executiva de Contas. Desde então se passaram 19 anos, e fora a interrupção de um ano quando experimentou um contato mais direto com o Turismo, trabalhando na Anhembi – hoje SPTuris -, a executiva foi ganhando promoções sucessivas na rede. “Me chamaram de volta em 2002, quando a Hilton fez um dos maiores investimentos da companhia, o atual Hilton São Paulo Morumbi. Trabalhei na pré-abertura do hotel e assumi a direção de Vendas e Marketing. Abrir um hotel deste porte é realmente uma experiência única na área, especialmente em um momento em que a hotelaria vivia uma das maiores crises da indústria”, afirma.

Em 2008, quando a Hilton decidiu abrir um escritório de Desenvolvimento para América do Sul visando ampliar sua presença na região, Paula Muniz foi a primeira pessoa contratada, ficando responsável pelo desenvolvimento de toda a área, mas priorizando o Brasil e outros países do Cone Sul. “Após dois anos decidimos que o Brasil deveria ter um foco diferenciado e recebi o convite para assumir aqui a vice-presidência de Desenvolvimento”, conta a executiva. “A Hotelaria é um mundo fascinante que te ‘força’ a ser um conhecedor de assuntos gerais e é isso que me fascina. A desvantagem é que embora isso venha mudando nos últimos anos, este ainda não é ramo de melhor remuneração se comparado a outras indústrias”, completa.

Assim como Daniela, Paula também diz não ter enfrentado discriminações por ser mulher. “Acho que o mercado é aberto a bons profissionais, de ambos os sexos. Prefiro acreditar que a questão de ser mulher não foi o motivo de algumas diferenças de opiniões que enfrentei ao longo da carreira. Sempre existirão motivos para discriminação de um profissional que se destaca. Assumi meu primeiro cargo de liderança com 25 anos, e naquele momento recebi alguns olhares duvidosos por ser muito jovem. O fato é que um bom profissional tem que ignorar estes possíveis preconceitos e seguir em frente. Infelizmente eles sempre vão existir, por um motivo ou outro, mas não são barreiras importantes”, conclui.

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