Os desafios de ser hoteleiro no Brasil

Especialistas e gestores enfatizam as principais dificuldades do setor

Especulação imobiliária, implantação, dificuldade em conseguir um financiamento, altos impostos, burocracia, mão de obra, legislações em constante mudança. Os hoteleiros parecem estar de acordo quando a questão são os entraves encontrados pela hotelaria no Brasil. Nesta reportagem, a hotelnews levantou alguns desses problemas e ouviu, de gestores, possíveis soluções para resolvê-los. 

“O cliente faz uma reserva através de uma agência ou uma OTA e você tem que pagar entre 15 e 28% de comissão. Ele vai realizar o pagamento com cartão de crédito e são mais 2% de taxas. Se for parcelar, são mais 10% para o banco. Se a empresa for Simples Nacional, por exemplo, são 20% em impostos. Somando com o IPTU e outras taxas você já começa com 50% de sua diária comprometida”, enumera Gustavo Arrais, secretário de Estado de Turismo de Minas Gerais e proprietário do Hotel Cabeça de Boi, em Monte Verde (MG).

Além disso, o secretário acredita que o turismo precisa ser tratado como uma prioridade para o governo brasileiro. “Tivemos 13 ministros em 11 anos. É menos de um por ano. Não há uma política. Então, como faz? Como trazer clientes para se hospedarem nos hotéis?”, questiona. “O turismo é um produto, como uma televisão. Quem investir mais em promoção e oferecer o melhor preço vai vender mais. Selva, natureza, praia, cachoeiras, tem em um monte de lugares no mundo. Então, por que o turista virá para cá se não temos um preço competitivo?”, completa. 

Desenvolvimento

O desenvolvimento é o período em que ocorre a construção de um hotel. Nessa fase, o hoteleiro precisa encontrar a melhor localidade, conseguir financiamento, realizar um projeto, que deve ser aprovado pela prefeitura do município onde será implantado. Somente após a aprovação é que o hotel começa a ser construído. Se o proprietário decidir se associar a uma rede hoteleira, a negociação deve ocorrer nessa fase, pois, desta forma, o prédio pode ser erguido de acordo com as especificações da bandeira hoteleira.

Para Paulo Mélega, diretor da Atrio Hotéis, uma das maiores dificuldades para desenvolver um hotel no país é conseguir financiamento. “O Brasil não tem boas linhas de crédito. Há o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento), mas é difícil conseguir. Muitos hoteleiros acabam ficando nas mãos das construtoras”, afirma. “Nos Estados Unidos, o próprio projeto é uma garantia. Aqui não, as exigências são tão altas que acabam dificultando”, completa.

Conseguir o melhor terreno não é fácil. Segundo Mélega, a falta de transportes adequados faz com que a procura por locais mais centrais seja grande, o que é mais caro. Depois, é necessário que o projeto seja aprovado pelos órgãos competentes. “A aprovação da prefeitura é uma incógnita. Pode demorar seis meses, um ano, dois”, afirma.

Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), acredita que escolher bem a localização do empreendimento é uma prioridade. “O que é fundamental em um hotel é o ponto. E o preço, principalmente em época de recessão, é alto”, afirma.

Além disso, no Brasil, é comum as construções estourarem o prazo. “Se você vai somando todos os atrasos, para comprar o terreno, na aprovação, na construção, isso vai se tornando um problema”, diz Mélega.

Para um hotel entrar em funcionamento, é necessário conseguir licenças, como o do Corpo de Bombeiros, de água, entre outras. “Apesar de os hotéis serem considerados empreendimentos de baixo impacto, a aprovação do projeto leva em conta o impacto no entorno, inclusive em áreas urbanas”, diz Sampaio. “É necessário prever como o lixo será descartado. Se o hotel tiver geradores, é preciso dizer como será feito o abastecimento deles”, completa.

Proprietário do Cristalino Lodge, empreendimento localizado em Alta Floresta, no Mato Grosso, Alex da Riva diz que a legislação está cada vez mais completa e complexa em relação às licenças, o que encarece os projetos. “Mas, mesmo assim, acredito que sejam importantes, pois tornam as construções mais profissionais”, afirma.

A burocracia é um dos entraves encontrados pelos hoteleiros no Brasil

Implantação

De acordo com a HotelInvest, a implantação engloba o processo de compra, fabricação, entrega e montagem de todos os itens de FF&E (Furniture, Fixtures and Equipment) e HOS (Hotel Operational Supply). É nessa fase que é feita a decoração, escolha do mobiliário, equipamentos de cozinha, enxovais, do conceito do restaurante, entre outros. Também é necessário contratar a mão de obra e treiná-la.

Segundo Paulo Mélega, o Brasil tem bons fornecedores, como nas áreas de equipamentos de cozinha, telefonia, lavanderia, serviços de manutenção (ar condicionado, elevadores etc). O problema é que eles são poucos quando comparados a grandes mercados da Europa e o norte-americano, e isso encarece o preço dos produtos.

Inaugurado nesse mês em São Paulo (SP), o Palácio Tangará, da coleção de hotéis Oetker Collection, precisou importar alguns equipamentos de cozinha e utensílios para o restaurante. “Temos um leque pequeno de fornecedores nacionais. Existem ótimas linhas de copos de cristal, por exemplo, mas a maioria é feita para uso residencial e não para a hotelaria. Omesmo acontece com os talheres”, afirma Celso David do Valle, diretor do empreendimento.  “Mas, no caso de alimentos, o Brasil tem uma gama excepcional. Criamos um cardápio com o que temos de melhor no país e em São Paulo”, complementa.

O maior desafio do Tangará, entretanto, foi a contratação de mão de obra. “Recebemos mais de sete mil currículos para selecionar 300 pessoas. Há pouca mão de obra qualificada para o segmento de luxo e tivemos que trazer de volta para o país alguns profissionais brasileiros que estavam atuando no exterior”, explica Valle. “Também investimos no treinamento, para que os funcionários estejam familiarizados com os padrões da Oetker Collection, do Palácio Tangará, e da Leading Hotels of The World, da qual somos associados”, completa.

A contratação de mão de obra especializada não é um problema restrito aos empreendimentos de luxo e atinge toda a hotelaria. “Para muitas pessoas o hotel é seu primeiro ou segundo emprego, então é necessário moldar, treinar e formá-las”, explica Mélega. “Nos hotéis econômicos a taxa de turnover é muito alta, pois os salários são mais baixos e, muitas vezes, os funcionários, por serem novos na hotelaria, não estão acostumados com o ritmo de trabalho, que engloba finais de semana e feriados, e acabam desistindo”, afirma.

“Se os obstáculos burocráticos fossem cortados ao meio, eu acredito que do dia para a noite o País teria dez vezes mais investimentos” – Wilbert Das 

Operação

Depois de tudo pronto, surgem os desafios para operar o empreendimento. Um dos maiores custos do hotel é com a folha de pagamento dos funcionários, além da carga tributária. “A CLT é engessada e ultrapassada. No Brasil é caro contratar, manter, demitir e, ocasionalmente, enfrentar processos trabalhistas”, enumera Paulo Mélega. “Qualquer mudança nas relações trabalhistas que flexibilize o engessamento dessas relações é benéfico”, acredita.

Com a crise econômica, muitos hotéis faturam menos e enfrentam o problema de conseguir manter seus funcionários. “Nesse caso, entramos no binômio qualidade versus custo”, declara Alexandre Sampaio, já que, com menos colaboradores, o atendimento pode ficar prejudicado.

O Brasil tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo. Além disso, a legislação é complexa e está em constante mudança, exigindo uma equipe administrativa maior. “O Brasil tem vários tipos de impostos: em cima do serviço, da folha de pagamento, transporte de mercadorias de um estado para o outro”, diz Alex da Riva, do Cristalino.

Por conta da segurança pública precária oferecida pelo governo, os empreendimentos brasileiros precisam arcar com mais essa despesa, contratando empresas privadas para guardar o local, e investindo em equipamentos. 

Soma-se a tudo isso o pagamento de comissões para agências de viagem e OTAs (Online Travel Agencies), taxas cobradas pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) sobre a exibição pública de músicas, nova concorrência, como o Airbnb, falta de promoção adequada dos destinos, que, se feita adequadamente, poderia melhorar a demanda por hotéis. “Se alguém me perguntasse se vale a pena construir um hotel no Brasil hoje eu diria que não. Isso vai passar? Eu espero que sim. Mas, até lá, muitas empresas vão quebrar”, diz Alexandre Sampaio.

Celso do Valle, Palácio Tangará            Wilbert Das, Uxua                                 Alex Riva, Cristalino

O que dizem os hoteleiros

Perguntamos a gestores de diferentes empreendimentos do Brasil quais são as maiores dificuldades para a operação de seu hotel.

Érica Drumond, CEO da Vert Hotéis: “A lei trabalhista é obsoleta para um setor moderno e com sazonalidades, como o hoteleiro, mas a lei de terceirização é uma esperança para um caminho de mudanças. Mais desafiador mesmo é saber que a hotelaria investe tanto, gera muitos empregos, mas não tem retorno em infraestrutura nas cidades. No nosso ramo, os trabalhadores precisam estar bem dispostos, então não é certo que andem em pé em ônibus e metrôs lotados. Precisamos nos unir como acontece em muitos setores, pois estamos ficando para trás”.

João Francisco Rodrigues, diretor executivo do Malai Manso Resort Iate Golf Convention & Spa (MT): “Estamos a uma hora de um centro urbano (Cuiabá) e não há transporte oficial do governo e, por isso, oferecemos um privado. Quando isso acontece, o Ministério do Trabalho exige que o empreendimento comece a contar a hora de trabalho já no deslocamento. O Mato Grosso carece muito de infraestrutura. Colocar mais linhas de ônibus já resolveria uma parte de nosso problema”.

Wilbert Das, proprietário do Uxua Casa Hotel & Spa (BA): “É prazeroso ter um empreendimento hoteleiro no Brasil, mas a terrível burocracia brasileira é um obstáculo para investimentos estrangeiros. Essa é a nação com mais beleza natural e atrações culturais do mundo. Se os obstáculos burocráticos fossem cortados ao meio, eu acredito que do dia para a noite o país teria dez vezes mais investimentos em hospitalidade”.

Alex da Riva, proprietário do Cristalino Lodge (MT): “O maior desafio de trabalhar no Brasil é o grau de incerteza do macro cenário, você nunca sabe o que vai acontecer no país. Eu acredito que algumas reformas, tanto políticas quanto econômicas, que estão sendo propostas, são importantes para desburocratizar o operacional e devem ter impactos positivos”.

 

 

 

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