Nascida em Gramado (RS), a empresária Marta Rossi teve contato com o turismo desde cedo e herdou a veia empreendedora de seus pais, proprietários de dois empreendimentos hoteleiros na cidade. Ela é uma das fundadoras do Festuris – Feira Internacional de Turismo -, que já está em sua 28ª edição. A feira, que inicialmente nasceu com o propósito de apresentar o produto turístico gaúcho para o Brasil, fomentando os negócios do setor, transformou-se em um dos maiores eventos de negócios do turismo da América Latina.
HOTELNEWS: Conte um pouco sobre a sua história, trajetória e como você ingressou no turismo.
MARTA ROSSI: Ingressei no turismo pelo berço: meus pais são proprietários do Hotel Vovó Carolina e da Pousada Vovó Carolina, ambos em Gramado. Aprendi com eles o que é hospitalidade e a arte de servir e de receber bem. Comecei cedo a promover Gramado. Com 16 anos fui eleita princesa da Festa das Hortênsias e ganhei uma viagem para São Paulo e outra para o Rio de Janeiro para divulgar a cidade. Mais tarde, me formei em relações públicas e já sabia que meu futuro seria aqui, trabalhando com o que eu realmente gostava: eventos e turismo. Atuei como relações públicas em algumas empresas até assumir o departamento da área no Hotel Serra Azul. Depois, fui convidada a trabalhar no Hotel Serrano, ao lado de Silvia Zorzanello e seu marido, Enoir Zorzanello. Nesse período, estruturamos o setor de eventos do empreendimento e fomos os idealizadores da construção do primeiro centro de convenções do Rio Grande do Sul, o Serrano Centro de Convenções. A inauguração foi um marco em nossa cidade, que passou a ser vista também como uma localidade para eventos. Após dois anos, Silvia e eu abrimos uma empresa organizadora de feiras e eventos. A partir daí criamos o Festuris Gramado, Chocofest, Acorde Musical e Festa dos Bichos, e investimos no setor corporativo.
HN: Como surgiu a ideia de começar o Festuris?
MR: A sugestão foi de um amigo jornalista, Rafael Behs, três meses após a abertura de nossa empresa. Silvia foi uma das fundadoras e organizadoras dos principais eventos da cidade, como o Festival de Cinema e a Feira Nacional do Artesanato. Tínhamos experiência na área e a certeza de que Gramado era uma marca que começava a se consolidar. Com o apoio da comunidade gramadense e do prefeito da época, decidimos que tínhamos condições de reposicionar o Estado gaúcho no mapa turístico brasileiro. Nas primeiras edições, começamos com cerca de 30 expositores. Mas, a cada ano, esse número aumentava. Hoje, após 28 anos, temos uma marca consolidada internacionalmente.
HN: Quais foram os maiores desafios para conseguir consolidar o evento?
MR: Nosso maior desafio foi conquistar a credibilidade do mercado gaúcho e receber a chancela das instituições. Há 28 anos, duas jovens do interior apresentavam uma proposta inovadora, deslocando uma feira do setor de turismo para um pequeno destino que começava a despontar, mas que não tinha sequer equipamentos para atender a um evento deste porte. Duas mulheres em um estado onde as instituições eram capitaneadas por homens.
HN: O que mudou no Festuris ao longo de suas 28 edições?
MR: O Festuris se reinventa a cada ano, pois nos comprometemos a não ser apenas um palco. Nunca entendemos o evento ou a empresa como um meio de vida, mas sim como um modo de vida. Valorizamos nossos parceiros e gostamos do que fazemos. Tivemos várias etapas, mas os eixos continuaram os mesmos: negócios, conhecimento, inovação e relacionamento. Começamos com o propósito de mostrar o Rio Grande do Sul e hoje envolvemos o mercado internacional. Trouxemos a segmentação turística, fomos pioneiros na abordagem do segmento LGBT, acessibilidade, sustentabilidade e turismo verde, parques e entretenimento, e hoje a feira é eclética, com vários nichos e novidades. Atualmente, temos como parceiros os principais destinos brasileiros e do mundo, marcas atuantes, e oferecemos possibilidades de negócios que tornam a feira atrativa aos participantes.
HN: Como foi a transição na sociedade da empresa após a morte da sua sócia? Algo mudou na feira após esse período?
MR: A transição foi difícil, delicada e dolorosa. De um lado estava minha experiência de mais de 20 anos de atividade. De outro, dois jovens sócios determinados a enfrentar os desafios, mas dando o pontapé inicial em suas carreiras. É natural haver conflitos. Nossos filhos, Eduardo Zorzanello e Marcus Vinícius Rossi, entraram na empresa e, de uma hora para outra, não conseguiam entender que ali não estava a mãe ou a “tia”, mas sim a empresária que tinha a responsabilidade de nortear os rumos da empresa nesse momento difícil. O processo foi longo, mas necessário para a continuidade da Rossi & Zorzanello e seus eventos. Mas hoje estou satisfeita com o ponto de equilíbrio que encontramos em nossas relações profissionais e pessoais. Além de ser grata por ter crescido e amadurecido profissionalmente.
HN: Quais são as perspectivas para a 28ª edição do Festuris? A crise econômica atrapalhou a feira de alguma forma?
MR: Fomos afetados como todos os setores. Houve um retardamento nas decisões, mas nos preparamos para isso. Afinal, a crise já tinha mostrado sua cara em 2015. Quando nos reunimos para planejar esta edição, decidimos olhar para a situação como uma oportunidade para evoluirmos e reformatarmos alguns processos adotados até então. Teremos uma feira grande, produtiva e que irá fomentar os negócios do mercado turístico.
HN: Fale sobre as novidades do Festuris 2016.
MR: A novidade deste ano é o lançamento do Espaço Luxury, que reunirá marcas de luxo e receberá grupos de compradores nacionais e internacionais. O Espaço MICE está com novos formatos e destinos, operadoras e empresas nacionais e internacionais que nunca participaram da feira. Outro destaque é o envolvimento das entidades gaúchas do setor.
HN: Qual a sua opinião sobre o desenvolvimento do turismo no Brasil? O que falta para o País se tornar uma potência nesse segmento?
MR: O desenvolvimento é lento, poderia ser melhor. É preciso que o turismo receba o mesmo tratamento que os demais setores produtivos do País na pauta econômica do governo. Precisamos profissionalizar, estruturar e internacionalizar cada vez mais o setor e fortalecer as instituições.
HN: Como você avalia a atuação do Ministério do Turismo desde a sua criação?
MR: O Ministério do Turismo se tornou uma pasta autônoma em 2003 (antes estava ligado ao Ministério do Esporte), para alavancar o desenvolvimento desta atividade econômica. É necessário criar estratégias oferecendo estímulos, melhorias, políticas públicas, força e representatividade na Câmara dos Deputados e no Senado, para que os assuntos relacionados sejam vistos como prioritários. O Ministério do Turismo teve altos e baixos por conta do tratamento que recebeu. O mercado turístico tem necessidades e é rentável, com potencial de crescimento e desenvolvimento. A falta de medidas e políticas que favoreçam seu crescimento provoca inseguranças, incertezas e insatisfação. Se o turismo fizesse parte da pauta governamental, o setor ganharia mais força. É importante mudar a forma como se olha para este nicho.
HN: Ao receber o prêmio de embaixadora do turismo de Garibaldi (RS), você declarou que a indústria turística pode se reerguer e trazer benefícios à população. Você acha que este segmento é bem explorado no Rio Grande do Sul?
MR: É um estado riquíssimo em cultura, folclore, gastronomia, belezas naturais e diversidade étnica. Temos roteiros, que poderiam ser mais bem explorados. Um limitador é a falta de entendimento da força do turismo como atividade econômica e os resultados imediatos que o setor devolve para a comunidade. Poderíamos evoluir com as riquezas que temos, mas precisamos de incentivos, estratégias e políticas governamentais. Ainda caminhamos lentamente neste sentido, mas não desistimos de acreditar. Como diz a professora Norma Moesch “o turismo pode salvar uma safra, mas é preciso enxergar essas potencialidades”. Não temos estratégias que alcancem os países de fronteira, que estão a 1h30 de distância. Gramado e a Região dos Vinhedos são bons modelos de desenvolvimento.
HN: Você acredita que feiras como o Festuris contribuem para fomentar o turismo no Brasil?
MR: As feiras são importantes para os negócios, mesmo com toda a evolução tecnológica. Para conquistar novos fornecedores e mercados, as empresas precisam de contatos, potenciais clientes, bons parceiros para a distribuição e plataforma para mostrar seus produtos. Dentre todas as ferramentas de marketing, as feiras têm amplas possibilidades. Durante esses eventos é possível conquistar ou fidelizar clientes, buscar parceiros ou colaboradores, reposicionar a marca, testar produtos e iniciar ou fechar negócios. O Festuris gera um impacto positivo para o País, ao receber centenas de estrangeiros; e para o Estado, ao receber mais de 14 mil visitantes. Na edição do ano passado, a Região das Hortênsias teve um impacto econômico de R$14 milhões, segundo dados do Observatório de Turismo da Universidade Fluminense, e gerou R$ 212 milhões em negócios.
HN: O que é necessário para que eventos como a Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpíada, neste ano, fomentem o turismo do País após suas realizações? O Rio Grande do Sul foi beneficiado?
MR: Durante dois meses, a Copa do Mundo trouxe cerca de 1.700 milhão de turistas ao País. O Rio Grande do Sul se beneficiou, pois foi sede de algumas partidas e atraiu o turismo para a região. Os Jogos Olímpicos se concentraram no Rio de Janeiro, portanto, o maior beneficiado é o próprio estado. Mas, sempre há um retorno direto para os demais destinos, mesmo que pequeno, pois as pessoas que viajam para outro país buscam conhecer outras cidades. O legado que estes dois eventos poderiam deixar ao Brasil são maiores do que realmente teríamos caso houvesse um plano estratégico promocional pós-evento, aproveitando a visibilidade mundial dada por ambos. Entre 2014 e 2016 houve espaço para notícias negativas. Infelizmente foi pensado o “antes” e o “durante”. Creio que o “depois” não recebeu a mesma atenção.
HN: O site de viagens Trivago apontou Gramado como a quarta cidade com melhor reputação do mundo, baseado em avaliações de usuários. Como você explica esse resultado?
MR: Desde sua emancipação, Gramado passou por vários ciclos econômicos, com as malhas, móveis e chocolate, até firmar-se como destino turístico. Os governantes perceberam que esta atividade tem condições de atrair recursos externos. A cidade foi renovada com melhorias em infraestrutura, qualificação dos equipamentos e mão de obra, e recebeu incentivos em eventos para promover o destino.
HN: Como você vê a chegada de redes hoteleiras de luxo ao Brasil, como o Four Seasons e a Oetker Collection? Você acha que esses hotéis vão atrair turistas estrangeiros mais exigentes?
MR: Marcas de renome internacional são atrativas para um destino. O Brasil vai se beneficiar deste público, promovendo nossos negócios, qualificações e se atualizando para poder concorrer com este novo mercado. Com a chegada dessas marcas vemos o País se aproximando das tendências que são ditadas no exterior. Seguindo o conceito de luxo direcionado às experiências, o mercado vai conquistar o viajante de alto padrão, aliando simplicidade e sofisticação, valorização da cultural local, preservação e contato com o meio ambiente.
HN: Você fez parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Rio Grande do Sul. Quais foram as maiores conquistas neste período?
MR: Criamos um plano de marketing para promover o Rio Grande do Sul no mercado nacional e internacional. Pela primeira vez o Estado desenvolveu sua identidade. Trabalhamos os eixos estratégicos, o Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), os Encontros Regionais RS Mais Turismo e o Conselho Estadual do Turismo (Conetur).
HN: Por ser uma pessoa influente no turismo, você aceitaria ocupar um cargo político para ajudar o setor?
MR: Posso ajudar o setor sem precisar ocupar um cargo político. Definitivamente não é a minha praia. A política tem que ser praticada por quem gosta, pois se trata de uma atividade profissional como qualquer outra, que necessita de talento e aprimoramento acadêmico. Decidi me tornar relações públicas e, depois, empresária por amar a profissão. Acredito que a atuação política deveria ser por amor e competência, e não apenas por oportunidade.
HN: Em geral, 2016 está sendo um bom ano para o mercado de eventos?
MR: Como todos os setores, a área de eventos sofreu com a crise que o País atravessou. Porém, vemos alguns exemplos positivos, pois a recessão faz com que as pessoas e empresas busquem alternativas e não se acomodem. Acredito que novos produtos, companhias mais fortes e modernas, e muita criatividade estão surgindo e farão com que o mercado volte a ficar aquecido.

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