Linhas de crédito

Na opinião dos hoteleiros, as opções são poucas e de difícil acesso

A linha de crédito Pró-Copa que o Ministério do Turismo e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) colocaram à disposição da hotelaria em 2010 termina no próximo dia 30 de junho, seis meses após o prazo inicial determinado. Até o fechamento desta edição, o BNDES tinha em sua carteira de aprovação apenas dez operações contemplando a construção e/ou renovação de 12 empreendimentos, considerando que um mesmo grupo (Accor) pleiteou financiamento para três unidades Ibis.

O valor total dessa carteira, como informou o gerente do Departamento de Cultura, Entretenimento e Turismo do BNDES, Marcus Vinícius Macedo Alves, é de R$ 745,5 milhões, assim divididos: Ibis Copacabana (R$ 11,6 milhões), Ibis Botafogo (R$ 20,3 milhões), Ibis Natal (R$ 10 milhões), Hotel Glória (R$ 190,6 milhões) , Hotel Cidade dos Romeiros (32,5 milhões), Hotel Sotero Salvador/Nobile (15,1 milhões), Grupo Pontes (Mar Hotel, Atlante Plaza e Summerville, R$ 32 milhões), Tivoli EcoResort (R$ 16,4 milhões), Grand Hyatt (R$ 298,5 milhões) e Hilton (R$ 118,5 milhões). A esse valor, segundo Marcus Vinícius, devem ser acrescidos outros R$ 713,3 milhões para projetos ainda em análise, que se aprovados totalizarão R$ 1,4 bilhão em financiamentos da carteira do BNDES Pró-Copa, R$ 600 a menos do que o valor colocado à disposição do setor.

Para os dirigentes das duas principais entidades da hotelaria, Enrico Fermi (ABIH Nacional) e Roberto Rotter (Fohb), houve rigor excessivo nos critérios estabelecidos para a aprovação dos projetos, o que acabou por limitar a muito poucos o acesso ao financiamento. O governo, por outro lado, comemora o volume recorde de empréstimos liberados pelos cinco bancos oficiais – Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Nordeste e Banco da Amazônia.

O maior financiador do setor em 2012 foi a Caixa, com participação de R$ 6,25 bilhões, seguida pelo Banco do Brasil, com R$ 2,27 bilhões, mas essa conta inclui outros segmentos do turismo, além da hotelaria, como transportadoras, restaurantes, locadoras e agências de turismo, entre outros. Considerando apenas a hotelaria, o volume liberado pelos bancos foi de R$ 2.262.934.079, além do R$ 1,4 bi do Pró-Copa. De acordo com o gerente do BNDES, nos cinco anos anteriores ao programa, o banco tinha feito apenas quatro operações de financiamento a hotéis, totalizando R$ 41 milhões. “Se considerarmos apenas os projetos já aprovados depois do Pró-Copa Turismo, o volume representa crescimento de 150% em número de operações, com valores mais de 15 vezes superiores”, diz Marcus Vinícius .

Opções do mercado

Paulo Linzmeyer, diretor da rede Hotel 10, diz que quatro de suas franquias buscaram financiamento em bancos de desenvolvimento, com taxas que variam de 3,5% ao ano fixo até 5,4% mais TJLP, e todas já estão recebendo os créditos. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, segundo ele, são as que oferecem as melhores taxas. “Nos bancos intermediários é que muitas vezes a burocracia é irritante e desestimulante, especialmente quando nos pedem os mesmos documentos ou similares diversas vezes e tentam nos ‘empurrar’ seguros de vida, de automóvel, residenciais e aplicações entre outros produtos.

Fernando Vaccari, diretor financeiro do Grupo GJP, é o coordenador de um grupo de trabalho criado pelo Secovi com a proposta de criar um modelo de financiamento para hotéis enquadrado no Sistema Financeiro Imobiliário (SFI). De acordo com Vaccari, com esse formato será possível aos bancos privados financiarem projetos hoteleiros com custo e prazos compatíveis com o retorno esperado pelo investidor. “As instituições privadas podem dar a agilidade necessária para que investidores consigam alavancar seus projetos e melhorar o retorno, fazendo com que a hotelaria passe a ser uma opção importante de investimento imobiliário”, diz.

Na opinião do coordenador, a carência de fontes de financiamento para o desenvolvimento de novos hotéis alavancou os negócios viabilizados no sistema de condotéis, e o setor imobiliário percebeu aí um nicho de mercado a ser explorado. “Este modelo, apesar do sucesso alcançado, possui deficiências, pois há claramente um conflito de interesse entre a rentabilidade do incorporador, que quer apenas vender pelo maior preço o m2, e do investidor hoteleiro que ficará com a rentabilidade da operação hoteleira”, pondera.

Ainda de acordo com Vaccari, em países onde o mercado hoteleiro é mais desenvolvido, o processo de construção de novos hotéis é capitaneado por um investidor hoteleiro suportado por linhas de financiamento de longo prazo de instituições privadas que tomam o risco do projeto hoteleiro. “Infelizmente no Brasil as opções são poucas e de difícil acesso. Temos algumas linhas de financiamento de longo prazo com juros subsidiados, mas consegui-las é um processo que requer muita energia e paciência do investidor. A primeira linha criada foi a formada pelo fundo constitucional para desenvolvimento das regiões: Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Para o Centro-Oeste é denominada de FCO e repassada pelo Banco do Brasil, já para o Norte é denominada FNO e repassada pelo Banco da Amazônia, enquanto a FNE é repassada pelo Banco do Nordeste. Estas linhas possuem taxas de juros subsidiadas e com pagamento a longo prazo”, analisa. “Os bancos privados ainda não financiam o setor de forma consistente. Há alguns casos esporádicos, mas muito relacionados a empréstimos ‘ponte’ de curto prazo. As instituições têm acompanhado o mercado hoteleiro com interesse, especialmente devido ao momento atual, em que diárias e ocupação estão em elevação, mas até o momento ainda com movimentos tímidos”, conclui.

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