Jalapão

Paisagens exóticas, surpresas e contrastes fazem parte do deserto brasileiro

Lugar de descobertas permanentes e paisagens praticamente intocadas, o Jalapão está localizado bem no centro do País, no estado do Tocantins. Roteiro de ouro para quem aprecia esportes de aventura e ecoturismo, o destino de 34 mil km2 localizado na transição entre o cerrado e a caatinga, mistura deserto com savana, apresenta paisagem árida de vegetação rasteira e reúne cachoeiras, rios de águas cristalinas, corredeiras, lagos, grandes chapadas e rochas de cores e formas variadas.

O deserto brasileiro abriga ainda dunas douradas que chegam a alcançar 30 metros de altura e se movimentam aos pés da Serra do Espírito Santo, e tem a menor densidade demográfica do Brasil, cerca de um habitante por quilômetro quadrado. Chegar até lá não é tarefa fácil. A partir da capital do Estado, Palmas, segue-se 64 km pela rodovia TO-050 até Porto Nacional e depois 116 km pela TO-255 até Ponte Alta do Tocantins, considerada entrada do Jalapão. A partir deste ponto recomenda-se a utilização de veículos com tração 4×4, pois o percurso para os atrativos, muitos deles localizados no município de Mateiros, é todo feito em estrada de chão.

Algumas agências de viagens oferecem roteiros completos que compensam a pouca infraestrutura da região. A Venturas é uma delas, com a Expedição Jalapão. São oito dias para visitar os principais pontos turísticos do local, como a Cachoeira da Velha, a maior do Jalapão. Banhada pelas águas do rio Novo, um dos afluentes do Tocantins, apresenta duas quedas em formato de ferradura que chegam a 20 metros de altura e 100 de largura. Bem próximo à caudalosa cachoeira há uma praia de águas doces, mansas e transparentes e areias claras e finas. Perto dali, a cascata do rio Formiga forma uma piscina natural de águas cristalinas de cor verde esmeralda em meio à vegetação selvagem.

Cercado por bananeiras está o Fervedouro do Alecrim, uma piscina com pouco mais de 20 m2 de águas mornas e transparentes e que também faz parte do roteiro da Venturas. A beleza do local compensa a dificuldade do acesso – está localizado no município de São Félix do Tocantins, a 227 km da capital -, mas a diversão fica por conta de um fenômeno chamado ressurgência das águas, que impede que o corpo afunde. Isso acontece porque sob a piscina há um lençol freático e logo abaixo uma rocha impermeável, que impede a vazão da água. Assim, ela é jorrada para o alto com muita pressão, o que faz com que areia, banhistas e tudo mais que estiver por lá flutue.

Aventura e contemplação

Para os adeptos do ecoturismo, o rio Novo, na cidade de Mateiros, oferece 45 km de corredeiras, cachoeiras e praias de areia branca para a prática de canoagem, rapel, bóia-cross, e rafting. Este último pode ser feito de duas formas, em longos percursos que duram em média quatro dias e oscilam entre momentos de contemplação e enfrentamento de corredeiras com dificuldade nível quatro (em uma escala que vai até o seis, que é inavegável, sendo o cinco o mais seguro para o turismo) e fazer paradas e pernoitar em acampamentos armados nas pequenas praias formadas nas margens do rio. Outra opção, a mais escolhida pelos turistas não tão aventureiros assim, leva em média três horas de descida.

Segundo Fernanda Menezes, da Pisa Trekking – outra operadora de ecoturismo com roteiros no Jalapão -, não há uma melhor época para conhecer o local. Quente o ano todo, a temperatura no Jalapão varia de 30o a 35o C durante o dia. “Existe o período de chuvas, que compreende os meses de dezembro a março, mas nada que atrapalhe a realização do roteiro. No entanto, pode eventualmente ocorrer alguma alteração nos horários dos passeios para um melhor aproveitamento das atrações”, assegura.

Já o clima desértico e as estradas de terra batida desafiam os adeptos do rally, bastante praticado por lá. O Jalapão faz parte do famoso circuito Rally dos Sertões – a maior corrida off-road da América Latina – e é considerado um dos trechos mais temidos pelos competidores. Para os que preferem encarar trilhas em meio à vegetação nativa, a região oferece vários níveis de dificuldade. Uma delas leva ao cartão postal da região, a Serra do Espírito Santo. Para alcançar o cume, onde há um mirante, o visitante percorre aproximadamente 30 minutos de subida íngreme e outros 45 de caminhada, mas a vista privilegiada compensa.

Comunidade e artesanato

Passagem obrigatória para quem visita o Jalapão é a comunidade quilombola Mumbuca, localizada a 35 km de Mateiros, e com população que não chega a 200 habitantes. Descendentes de escravos que saíram da Bahia por volta de 1909 em busca de melhores condições de vida, eles são os responsáveis pela produção de peças artesanais que chamam a atenção pela cor e brilho semelhantes ao ouro, mas feitas com capim dourado.

De acordo com informações da Central do Cerrado, conjunto de cooperativas sem fins lucrativos estabelecida por 35 organizações comunitárias de sete estados brasileiros (MA, TO, PA, MG, MS, MT e GO) que desenvolvem atividades produtivas a partir do uso sustentável da biodiversidade do Cerrado, o artesanato de capim dourado chegou ao Jalapão em meados de 1920 pelas mãos de índios Xerente. A arte foi aprendida por moradores da comunidade de Mumbuca e, desde então, é passada de geração para geração.

Apesar do nome, o capim dourado não é propriamente um capim e sim uma sempre-viva, planta da família das Eriocaláceas, cujo nome científico é Syngonanthus nitens. Os pequenos maços de hastes do capim dourado são costurados com uma fibra fina e resistente obtida de folhas novas da palmeira buriti, espécie também abundante no Jalapão. Das mãos habilidosas dos artesãos são produzidos cestos, bolsas, bijuterias, chapéus, porta-joias, fruteiras, entre diversos outros artigos.

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