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Hotel “instagramável”: até onde vale a pena seguir essa tendência?

Por Alexandre Galvão

A arquitetura de interiores entrou de vez na lógica das redes sociais. Cores fortes, revestimentos chamativos, luminárias esculturais e ambientes pensados para render uma boa foto se tornaram recursos cada vez mais presentes. Na hotelaria, isso pode ser uma estratégia interessante. Mas existe uma pergunta que precisa vir antes do projeto: por quanto tempo esse ambiente continuará fazendo sentido?

Um hotel não é uma residência. É um negócio, um ativo que precisa funcionar todos os dias e cuja arquitetura está diretamente ligada à operação. Por isso, não existe uma resposta única para a questão da longevidade. Ela depende do produto, do público e do modelo de negócio.

Na hotelaria econômica e midscale, por exemplo, a renovação programada faz parte da operação. Os grandes grupos trabalham com ciclos de atualização que podem prever soft renovations a cada cinco ou sete anos e intervenções maiores em períodos mais longos. Tendo acompanhado de perto a implantação e a adaptação de mais de 90 hotéis da rede Ibis no Brasil, pude perceber como essa dinâmica funciona na prática.

Nesse contexto, usar elementos marcantes pode fazer sentido. Um lobby fotogênico, um bar com personalidade ou uma área social que chama atenção nas redes pode ajudar a atrair hóspedes e manter a marca atual. Se esses elementos foram pensados para serem substituídos com facilidade, sem grandes obras, eles cumprem uma função dentro da operação.

O problema aparece quando confundimos decoração com estrutura. Um hotel precisa ter uma base resistente, funcional e capaz de atravessar diferentes ciclos de renovação. Pisos, instalações, banheiros, esquadrias e outros elementos mais difíceis de substituir devem ser pensados para durar. A parte mais ligada à imagem pode mudar com muito mais facilidade.

No outro extremo está a hotelaria de luxo, especialmente os hotéis e resorts integrados à natureza. Nesses casos, acredito que a lógica precisa ser outra. O hóspede não está procurando apenas um ambiente bonito para fotografar. Ele está pagando por uma experiência, por conforto e, muitas vezes, pela relação com aquele lugar.

Uma parede de pedra, uma madeira natural ou um material que envelhece bem podem ganhar valor com o tempo. Já uma solução criada apenas para seguir uma tendência pode denunciar sua idade poucos anos depois. E reformar uma suíte, um bangalô ou uma área inteira de um resort tem um custo muito maior do que simplesmente trocar um móvel ou uma pintura.

É aí que a arquitetura precisa conversar com a operação desde o começo. Não adianta criar um projeto visualmente impactante se, para atualizá-lo, será necessário fechar áreas do hotel, gerar muito entulho e investir novamente em materiais que poderiam ter durado décadas.

Por isso, não sou contra o chamado design instagramável. Ele pode ser uma ferramenta muito eficiente, desde que saibamos onde usá-lo. A questão é entender o que precisa durar e o que pode mudar.

Para mim, sustentabilidade também passa por essa escolha. Um projeto que continua relevante por 15 ou 20 anos, precisando apenas de pequenas atualizações, evita consumo de materiais, desperdício e reformas desnecessárias. Não precisamos abrir mão da criatividade para fazer uma arquitetura duradoura. Precisamos apenas escolher onde colocar o impacto.

No fim, a pergunta não deveria ser apenas se um hotel vai render uma boa foto hoje. Precisamos pensar se ele continuará sendo um bom hotel quando essa foto já tiver deixado de circular.


Alexandre Galvão é arquiteto, fundador da GAS Arquitetura e especialista em projetos, padronização e implantação para as áreas de hotelaria e varejo.

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