Hospedagem alternativa

Ameaça ou oportunidade de negócio?

Dados levantados pelo Ministério do Turismo com base em pesquisa do IBGE apontam que as opções de hospedagem alternativas disponíveis no Brasil acrescentarão 59.713 leitos às cidades-sede da Copa, entre eles 3.491 na modalidade pensões de hospedagem, como o cama e café; 3.804 em albergues; 22.478 leitos em imóveis para aluguel; e 29.940 em motéis. Boa parte dessa oferta foi compilada pelo ministério e publicada no site hospitalidade.turismo.gov.br, especialmente criado por ocasião da Copa das Confederações, no ano passado, visando já também a demanda durante o mundial, especialmente do público estrangeiro.

Ainda de acordo com dados do MTur, 44,2% dos 5,67 milhões de visitantes internacionais que estiveram no País no ano passado, ou seja, 2,5 milhões de pessoas, escolheram esse tipo de hospedagem durante sua estada aqui. Os albergues e campings (4,9%) abrigaram 278,1 mil estrangeiros, as casas alugadas (11,9%) outros 675,4 mil e as casas de amigos e parentes (27,9%) mais 1,58 milhão de visitantes. Em um recorte na análise da nacionalidade dos visitantes estrangeiros, a pesquisa indicou que 43% dos argentinos (718,7 mil) e 49% dos norte-americanos (287,3 mil) preferiram esse modelo à hotelaria tradicional.

Já entre os brasileiros, outro estudo do governo, desta vez em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, mapeou a preferência por hospedagens em sete capitais brasileiras. Os baianos (61%) optam pela casa de parentes; os gaúchos (19,8%) utilizam residência própria, enquanto pernambucanos (63,8%) e mineiros (58%) ainda preferem os hotéis. A procura por casas de amigos e parentes é mais expressiva entre viajantes que ganham até R$ 2,1 mil (64,9%) e com renda entre essas faixa e R$ 4,8 mil (49,1%).

Mercado aberto

Fora do Brasil a certeza de que essa á uma tendência em franca expansão não se baseia mais em pesquisas, mas em dados concretos, como os que trazem a Airbnb, uma plataforma internacional de reserva online que reúne 550 mil ofertas de anfitriões – pessoas que disponibilizam para hospedagem as próprias acomodações, ou parte delas -, e que já totaliza dez milhões de usuários e lhe garante presença em 34 mil cidades do mundo em 194 países. Fundado em agosto de 2008 e sediado em São Francisco, na Califórnia, o Airbnb se define como “um marketplace que administra uma comunidade confiável para que as pessoas anunciem, descubram e reservem espaços diferenciados pela Internet, seja um apartamento por um dia, um castelo por uma semana, uma vila por um mês”.

No Brasil está fisicamente presente desde abril de 2012, inicialmente com um escritório no Rio de Janeiro, que se mantém como endereço base desde a transferência da sede para São Paulo, ambos sob o comando do diretor-geral Christian Gessner. “Antes mesmo de abrirmos um escritório no Brasil já tínhamos um número considerável de usuários e anfitriões aqui. Viemos para ficar mais perto da nossa comunidade”, afirma o executivo.

O universo a que se refere Gessner é representado por cerca de 20 mil anúncios em cerca de 670 cidades e 20 estados brasileiros. “Com a aproximação da Copa, temos visto um crescimento acentuado de mais de mil anúncios por mês, de pessoas interessadas em alugar apenas no período, o que nos deixa muitos felizes, já que o Airbnb no mundo inteiro é feito de anfitriões que compartilham e ganham dinheiro com o espaço que não estão usando ou não vão usar em determinado período – como a própria casa, durante as férias”, explica o diretor.

Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador lideram a oferta, sendo que só o Rio concentra mais de nove mil anúncios. Já entre os usuários, a procura de brasileiros pelas ofertas do Airbnb cresceu 400% no ano passado. “Os brasileiros já viajaram para mais de 100 cidades através do Airbnb, se hospedando de casas em árvores a lofts”, conta Gessner, acrescentando que, mundialmente, as localidades mais demandadas são Nova York, Paris e Londres.

A plataforma é simples de usar e foi traduzida e adaptada em 26 línguas. Para cadastrar seu imóvel o usuário só precisa descrever o seu espaço, as comodidades oferecidas e a personalização de preço e taxa de limpeza, além de identificar-se no perfil com dados pessoais. O site possui uma ferramenta para checar a identidade dos usuários pelos documentos oficiais (CNH , identidade ou passaporte).

A taxa de cobrança do site para o anfitrião é de 3% por reserva aceita e não existe assinatura. Já para o hóspede, a taxa de serviço varia de 6 a 12% – quanto maior o valor, menor a taxa. “Essa taxa além de manter os serviços do site e a comunidade, é usada para cobrir os serviços que processam o pagamento – como cartões de crédito – fazendo com que todas as transações fiquem mais seguras e confiáveis, e para garantir o seguro de R$1,8 milhão para cada imóvel em noite reservada”, explica o diretor do site, que oferece várias opções de filtros para uma busca mais eficiente, espaço para comentários deixados por outros hóspedes sobre o local e o anfitrião, e um chat para contato direto entre as partes. Após a escolha, o pagamento é feito via Airbnb e o anfitrião só recebe o valor da reserva 24 horas após o check-in.

Com quem concorre?

“Não existe um estereótipo de público na plataforma. Somos uma comunidade global que se interessa por troca de experiências, cultura, conforto, design e novas amizades. Uma das propostas do site é proporcionar uma interação pessoa-pessoa, mas temos anfitriões que são donos de pousadas, cama-e-café e até albergues. Se tiver personalidade é bem-vindo no Airbnb”, afirma o diretor, que não entende o negócio como concorrência desleal à hotelaria tradicional.

“Conduzimos uma série de estudos em diversos mercados onde o Airbnb é responsável por uma parte considerável das receitas de turismo, como Paris Barcelona, São Francisco e Nova York. O que as consultorias especializadas nos ajudaram a constatar foi que o setor hoteleiro manteve o ritmo de crescimento em todas elas – paralelo ao nosso”, ressalta o diretor. “Nossa maior influência foi no aumento no número de pessoas que decidiram visitar essas cidades, o que talvez antes não fizessem por falta de condições de arcar com os custos. O Airbnb veio para fortalecer a indústria do turismo, que agora mais do que nunca pode receber todos”, atesta.

Questionado sobre o âmbito legal dessa rede de hospitalidade informal, Gessner afirma que ainda não existe uma lei que proteja a economia compartilhada. “O Airbnb tem agido ativamente junto aos órgãos oficiais para que exista uma regulamentação do serviço com os governos e até o momento, a maior parte deles não tem um posicionamento ou uma regra específica para a atuação de sites de hospedagem alternativa nas cidades”, conclui.

Maria José Giaretta, presidente da HI Hostel Brasil, também não vê a plataforma como ameaça. A dirigente considera que quanto mais ampla for a oferta, melhor, mas espera que o Ministério do Turismo regulamente os meios de hospedagem existentes no País para que não haja furos estatísticos e para que quando o pequeno empreendedor for tirar seu alvará na prefeitura, ou buscar uma linha de crédito, o governo saiba separar o joio do trigo. “Nosso caso é bem específico, não somos conhecidos no Brasil por ausência de divulgação e pelo afastamento de políticas públicas a respeito, mas a Hostelling International e os Albergues da Juventude já estão no mundo desde 1909, sempre tentando acompanhar as necessidades da demanda e buscando as inovações incorporadas pela sociedade em cada período”, avalia. “O importante é que tenhamos uma oferta confiável e de qualidade, com padrões de higiene e segurança. Se cada categoria trabalhar corretamente encontrará seu melhor caminho”, completa.

“A hospitalidade tradicional, como conhecemos, precisará se reinventar para concorrer com novos modelos de negócios. Vivemos em um mundo de compartilhamentos, novas experiências e interatividade e o Airbnb uniu o desejo dessa nova geração em uma nova e inovadora plataforma”, diz Gabriela Otto, da GO Consultoria, empresa especializada em planejamento estratégico, capacitação de pessoas, posicionamento de marca e mercado de luxo. “O estado de Nova York processou o site alegando que local de moradia não pode ser locado por menos de 30 dias, mas na verdade o que o governo está tentando é manter os 14,35% de impostos arrecadados com hotéis e 30 mil empregos do setor. O site se defende dizendo que sempre existiram regras para pessoa jurídica ou física. É o momento das leis evoluírem e acompanharem a nova realidade do mercado. É preciso criar novas regras para as pessoas que quiserem ter um negócio, sem a exigência da abertura de uma empresa formal”, pondera.

Na opinião da consultora, as pessoas estão começando a dar mais importância para localização, valor e comentários do que às marcas, propriamente ditas. “O TripAdvisor foi um dos responsáveis por esse novo comportamento de compra de viagens e isso abre uma oportunidade única para negócios como Airbnb. Prova disso é encontrarmos hotéis independentes que prestam excelente serviço no topo da lista, ao invés de hotéis de rede, que investem milhões em publicidade. A transparência e dinamismo do novo modelo abafa a apatia das marcas hoteleiras que não estão se renovando. Nesse caso, o anfitrião é a marca, e o hóspede tem acesso à ele em todas as etapas da experiência de viagem. A maioria dos hotéis ainda investe boa parte do seu budget de marketing no Google e nas OTAs, mas o segredo está em falar diretamente com as pessoas. Esse é o trunfo do Airbnb”, resume.

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