Beleza e criatividade
Como reaproveitar materiais na decoração de ambientes
Sustentabilidade. Esta palavrinha que está tão em evidência nos dias de hoje pode ser uma grande aliada de empreendimentos de todos os tamanhos e nichos, inclusive o hoteleiro. Ser sustentável nos dias de hoje é praticamente uma obrigação, visto que o número de brasileiros que tem conhecimento e se preocupa com desenvolvimento sustentável vem aumentando, segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Além de práticas de proteção ambiental, emissão CO2 e cuidados no consumo de energia e água, a hotelaria pode se valer do reaproveitamento de materiais que seriam descartados para incrementar a decoração dos ambientes. Assim, economiza, ajuda a natureza e ainda ganha a imagem de empresa consciente. “A reciclagem é importante em qualquer setor por se tornar uma prática responsável e aliada ao pensamento sustentável. Precisamos olhar o problema como a possibilidade de novas soluções, estudo de materiais e criação de tendências”, diz o bioarquiteto Michel Habib.
Segundo o especialista, após passarem pela reciclagem, os produtos tornam-se materiais comerciais com inúmeras formas a funções, inclusive competindo no mercado com os outros tipos disponíveis. Garrafas pet, por exemplo, tornam-se camisetas; pneus viram carpetes emborrachados etc. “No mercado construtivo a reciclagem está no processamento de materiais, como o entulho bruto, que pode ser utilizado tanto em concretos, enchimento de base, pavimentações, como também em artigos decorativos, como pisos e revestimentos. Esses materiais produzidos seguem padrões estéticos de design, tendência de mercado, e nascem como algo charmoso, moderno e com forte apelo conceitual, o que valoriza a credibilidade do empreendimento”, explica.
Habib conta que a temática da reciclagem é algo exaustivamente debatido e fundamentado em três pilares conhecidos como 3 R’s – Reduzir, Reutilizar e Reciclar, primícias traçadas como metas para a campanha de resíduos sólidos. “É importante enfatizar que a excelência será alcançada com a reutilização de materiais e, nesse caso, temos exemplos positivos do uso de produtos na fase construtiva, como os pneus para muros de arrimo, hortas, contenções e elementos decorativos, como garrafas, cerâmicas; além de diversas ações que dependerão muito da criatividade e da proposta almejada pelo empreendimento”.
Para todos os gostos
O mercado já dispõe de inúmeros materiais com componentes reciclados e que em nada diferem em beleza ou durabilidade em relação aos convencionais. “A pastilha feita de PET reciclado, por exemplo, é linda, está disponível em diversas cores e aproveita 60 garrafas por m2. Temos também pisos e revestimentos de parede que reaproveitam vidros de lâmpadas fluorescentes, móveis que utilizam materiais reciclados e reaproveitados, que são muito bonitos e sofisticados”, pontua a arquiteta Adriana Noya.
Para a profissional, aos poucos a sociedade está se conscientizando de que o planeta não vai suportar por muito tempo a forma como as pessoas estão o tratando. “Estamos passando, em São Paulo e no Brasil, por uma crise hídrica assustadora. Temos que ser conscientes no uso da água, não podemos jogar no meio ambiente cada vez mais lixo que vai demorar centenas de anos para se decompor”, argumenta Adriana, que acredita que pessoas mais conscientes vão em busca de hotéis que também tenham esta atitude.
Como exemplo, a arquiteta cita um projeto que fez para a Casa Cor SP e que unia sofisticação e sustentabilidade. “Recebi o prêmio de ambiente mais sustentável da mostra e fui menção honrosa no prêmio Planeta Casa. Tudo foi pensado de forma sustentável, foram utilizados materiais reaproveitados e reciclados; a iluminação foi feita em LED, diminuindo em 75% o gasto energético; foram escolhidos eletrodomésticos com pouco consumo energético, e o entulho da obra, todo destinado à reciclagem”.
Cuidados na escolha
Os materiais reciclados ou reutilizados devem responder de forma diferente quanto às questões de investimento financeiro e durabilidade, como explica Michel Habib. “Para exemplificar, pensaremos em um vaso decorativo que, feito industrialmente com polímeros reciclados, deverá responder a uma alta durabilidade em função da energia e recursos investidos. Em paralelo, um recipiente plástico cortado, moldado e pintado para a mesma função não terá as mesmas garantias quanto à durabilidade, porém pode responder bem a curto prazo com baixos investimentos. Todos esses fatores devem ser harmonizados com as necessidades técnicas e estéticas do empreendimento”, afirma.
Em seu recente trabalho, Michel diz que utilizou 300 garrafas de vidro para criar paredes decorativas. O arquiteto costuma também recolher tubos de papelão da gráfica onde imprime seus projetos, realiza a captação de materiais em caçambas de demolição, utiliza resíduos sólidos processados, lonas plásticas de outdoors e banners, entre outras atitudes que “mais do que a reciclagem, economizam energia planetária sem a necessidade da produção de novos materiais”, completa.
Um toque de ousadia
Na pousada Toca da Praia, localizada em Maresias, litoral de São Paulo, materiais reciclados são os principais elementos da decoração. De acordo com a proprietária Niuara Helena, o espaço ganhou um lounge feito com mesas, sofás e poltronas de pallets. “Ficou muito acolhedor e tem uma aceitação enorme do público”, afirma.
O revestimento do balcão da recepção foi produzido com mão de obra local em material reciclado feito com folhas secas de bananeiras. Tingimento e cola também foram produzidos com materiais naturais a partir de matéria-prima local. “No salão do café da manhã reformamos e pintamos armários e cadeiras antigas, o que possibilitou um visual completamente novo aos móveis que tinham muita qualidade, porém já não eram atuais”, explica Niuara.
Para a iluminação do banheiro social foram utilizados canos de pvc. “Montamos uma luminária com materiais baratos, reciclados e com grande apelo visual. Além disso, aderimos ao LED, que economiza energia e previne o aquecimento do plástico, aumentando, assim, a durabilidade do material”, completa.
Em Trancoso, na Bahia, o Uxua Casa Hotel é reconhecido internacionalmente por sua profunda ligação com a natureza. Idealizado pelo holandês Wilbert Dias, que há seis anos decidiu largar seu posto de diretor criativo da Diesel, cada espaço do empreendimento mostra o compromisso do designer com a preservação da natureza e a valorização da mão de obra local. Todas as casas, algumas delas antigas residências de pescadores, foram transformadas ou construídas com o trabalho de artesãos nascidos na região sem a derrubada de nenhuma árvore. Além disso, Wilbert trabalha unicamente com materiais resgatados, como a caçamba de um caminhão que virou a cabeceira de uma cama e barcos que se transformaram em espreguiçadeiras.
Com a preocupação ambiental ocupando o posto de um dos pilares mais importantes da filosofia do hotel, o holandês tem trabalhado para aprimorar suas técnicas de reaproveitamento em linhas que unem o design com a ecologia, entre eles: mesas feitas com trocos de árvores, luminárias produzidas com sementes, chuveiros moldados com eucalipto da região, peças antigas recuperadas, entre outras.
Sempre com o objetivo de implantar a consciência da sustentabilidade em toda sua equipe, Sirley Abreu, proprietária do hotel Fazenda Rancho dos Canários, em Padre Bernardo (GO), é decoradora e cria diversas peças aproveitando sobras de material de construção e outros produtos. “Além de retirar da natureza o que seria lixo, posso fazer algo com um diferencial e com a consciência de um mundo melhor”, afirma.
Entre os artigos mais utilizados, a empresária cita restos de canos, bambus, latas, sobras de madeira, tábuas usadas em construção, garrafas, ferramentas desgastadas com o uso, aro de pneu de bicicleta, ferraduras usadas, disco de arado, entre outros. “Todos os cantos do hotel possuem objetos que dão charme e fazem toda a diferença. Com criatividade podemos transformar o descartável em autêntico, fazendo com que o ambiente se torne mais agradável e aconchegante”, completa.
Pelo mundo
Os espaços e objetos decorativos do hotel The Farm, em Jaipur, na Índia, foram criados por artistas utilizando sucata como principal matéria-prima. “Brincalhões, originais e recuperados. Os ambientes refletem essas ideias. O The Farm é um grande laboratório para nossas criações, que estão sempre pautadas na ecologia e na reciclagem”, explica Surya Singh, que juntamente com o marido, Ritu, planejou cada espaço do hotel eco-friendly. “Mais do que mostrar ideias, queremos despertar a criatividade nas pessoas. Todo mundo pode colocar a mão na massa e produzir coisas legais”.
Projetado por Fernando e Humberto Campana, o New Hotel (foto), da rede Yes!, em Atenas, na Grécia, também conta com decoração diferenciada e sustentável. Lobby e restaurante ganharam móveis e objetos feitos com material que seria descartado em um projeto encabeçado pelos brasileiros. Os irmãos contam que quando foram convidados para esse desafio, recusaram em um primeiro momento, pois não queriam criar mais um hotel butique ou design. Entretanto, depois de analisarem o potencial do espaço e a liberdade de criação, perceberam que era uma ótima oportunidade. Decidiram, então, criar um projeto chamado Campana’s Workshop in Athen, onde jovens estudantes de arquitetura os ajudaram a brincar com a ideia de transformar referências clássicas e folclóricas de uma forma contemporânea.

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