Por Marcia Holland
Escolher um hotel envolve localização, conforto, serviços, gastronomia e preço, mas a experiência de hospedagem é construída por uma camada muito mais complexa de percepções. Antes mesmo de avaliar conscientemente um ambiente, o hóspede já percebe sua luminosidade, temperatura, acústica, escala, cores, texturas, aromas e materiais. O corpo responde ao espaço enquanto o cérebro seleciona estímulos, reconhece padrões, estabelece associações e começa a construir uma memória daquele lugar.
É nesse território que o design sensorial, a metodologia CMF (Color, Material & Finish) e o neurodesign encontram na hotelaria um extraordinário campo de aplicação. Em conjunto, permitem compreender a experiência do hóspede como resultado de múltiplas informações sensoriais que precisam apresentar coerência com o posicionamento, a arquitetura, a cultura local e a proposta de hospitalidade do empreendimento.
O hóspede percebe antes de analisar
A experiência começa muito antes da acomodação. A aproximação do edifício, a identificação da entrada, a transição entre exterior e interior e os primeiros segundos no lobby formam uma sequência perceptiva extremamente importante.
Ao entrar, o visitante recebe simultaneamente informações visuais, sonoras, táteis, térmicas e olfativas. A altura do pé-direito, a reverberação das vozes, a temperatura da luz, a textura do piso, a presença de vegetação, o aroma do ambiente e a distância até o balcão de atendimento participam da construção das primeiras impressões.
Grande parte dessas respostas ocorre sem uma análise deliberada. O hóspede dificilmente descreve tecnicamente o coeficiente de reflexão de uma superfície ou a temperatura de cor da iluminação. Entretanto, percebe o ambiente como acolhedor, sofisticado, impessoal, tranquilo, estimulante ou desconfortável.
Essa passagem entre propriedades físicas e experiência percebida constitui um dos campos mais interessantes para a aplicação do neurodesign na hotelaria. O projeto passa a considerar atenção, percepção, orientação espacial, memória e comportamento como variáveis relevantes para a experiência.
CMF: quando a intenção ganha materialidade
É justamente nesse ponto que o CMF assume papel estratégico. Color, Material & Finish permite organizar cor, materialidade e acabamento como componentes de uma linguagem sensorial coerente.
A cor nunca atua isoladamente. Sua percepção depende da luz, do entorno, da escala e da superfície sobre a qual aparece. Da mesma maneira, um material comunica por sua textura, temperatura ao toque, peso visual, brilho, envelhecimento e relação com outros materiais.
Para a hotelaria, isso abre a possibilidade de desenvolver um verdadeiro CMF da hospitalidade: uma estratégia integrada de cores, materiais e acabamentos relacionada à identidade do empreendimento, ao perfil do hóspede, ao contexto cultural, à experiência sensorial, à manutenção e à durabilidade.
A seleção deixa de ocorrer ambiente por ambiente e passa a formar um sistema.
Da paleta de cores à assinatura sensorial
Considere dois hotéis que adotam paletas semelhantes de beges, marrons e tons terrosos. No primeiro, essas cores aparecem associadas à madeira de poro aparente, pedra natural, tecidos encorpados, fibras e metais de baixo brilho. No segundo, aparecem em superfícies sintéticas muito lisas, revestimentos brilhantes e iluminação uniforme. Embora as famílias cromáticas possam ser próximas, as experiências resultantes serão distintas. As marcas hoteleiras costumam possuir identidade visual cuidadosamente desenvolvida. Entretanto, a marca de um hotel também é vivida por meio do espaço físico.
O que aconteceria se, além de logotipo, tipografia e cores institucionais, um empreendimento possuísse uma assinatura sensorial reconhecível?
Essa assinatura poderia ser construída por determinadas relações cromáticas, famílias de materiais, graus de brilho, texturas, condições luminosas, características acústicas e elementos olfativos. Não seria necessário repetir os mesmos materiais em todos os ambientes. O reconhecimento poderia surgir da coerência entre diferentes decisões.
Um hotel associado à natureza pode explorar materiais cuja textura e variabilidade permaneçam perceptíveis, combinados a uma estratégia cromática derivada da paisagem local. Um empreendimento urbano contemporâneo pode trabalhar maior precisão geométrica, superfícies controladas, contrastes e materiais associados à tecnologia. Um hotel histórico pode reinterpretar cores e materialidades de seu contexto sem transformar o espaço em reprodução literal do passado.
Aqui existe uma oportunidade particularmente rica: transformar atributos abstratos de marca em parâmetros sensoriais de projeto.
O novo luxo e a precisão sensorial
A hotelaria de alto padrão também permite repensar o próprio conceito de luxo: silêncio, privacidade, conforto térmico, controle da iluminação, qualidade tátil, ergonomia e facilidade de uso podem produzir uma sensação de cuidado extremamente sofisticada.
A singularidade pode estar na maneira como o lugar é interpretado sensorialmente.
Um hotel pode se apresentar como exclusivo, acolhedor, sustentável, tecnológico ou conectado à cultura local. Mas seus ambientes efetivamente comunicam essas características? O CMF corresponde ao posicionamento de mercado? Os materiais produzem a percepção de valor desejada? Existe coerência entre lobby, apartamentos, restaurante e áreas de lazer? A iluminação valoriza as cores e superfícies especificadas? Os acabamentos mantêm sua qualidade perceptiva com o uso?
Existe uma característica fascinante na hospitalidade: o hóspede ocupa temporariamente um espaço que outra pessoa projetou em detalhes para recebê-lo. Durante algumas horas ou alguns dias, aquele ambiente participa de seu sono, alimentação, descanso, trabalho, encontros e experiências de viagem.
Depois do checkout, grande parte dos detalhes desaparece da memória consciente. É provável que o hóspede não recorde exatamente o revestimento utilizado no lobby ou a tonalidade da parede do apartamento. Entretanto, pode lembrar durante muito tempo da atmosfera daquele lugar.
Essa é uma das maiores potências do design sensorial.
Para arquitetos, designers e gestores hoteleiros, a pergunta passa a ser extremamente estimulante: que memória desejamos construir e quais decisões de projeto estão contribuindo para ela?
Responder exige investigar o espaço com instrumentos que articulem percepção, comportamento, cor, materialidade e experiência. Design sensorial, neurodesign e CMF oferecem um território fértil para esse trabalho e ampliam as possibilidades de inovação na hotelaria.
Porque, entre todos os elementos que um hóspede pode levar de uma viagem, existe um que nenhuma mala transporta: a memória sensorial de um lugar ao qual ele gostaria de voltar.
Marcia Holland é arquiteta, mestre e doutora pela FAU-USP, especialista em CMF (Color, Material & Finish) e pesquisadora em neurociência aplicada ao design e à arquitetura. É autora do livro CMF: A Essência das Cores e do e-book Estratégia Cromática, publicações que investigam a cor como sistema de percepção, decisão e geração de valor no design e na arquitetura.

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