Entrevistas
50 anos de hotelaria familiar e o novo olhar de Daniel Gorin

Foto de Vitor Bossa

À frente do Grupo City & Sea, Daniel Gorin representa a terceira geração de uma história que atravessa cinco décadas na hotelaria carioca. Em um momento simbólico – marcado pelos 50 anos do Hotel Arpoador e do Ipanema Inn -, ele fala sobre o desafio de preservar um legado familiar sólido enquanto imprime uma visão contemporânea, pautada por inovação, experiência e sustentabilidade.

Nesta entrevista, o executivo compartilha como tradição e transformação caminham juntas na construção do futuro da marca.

Você é formado em Comunicação Social, correto? Como foi entrar no segmento hoteleiro e assumir os negócios da família? Como você se preparou para esse momento e como avalia a sua atuação até aqui?

Sou formado em Comunicação Social, sim, e acredito que essa formação foi fundamental para a forma como atuo hoje. Trabalhei durante anos no mercado de arte em Londres, em um ambiente extremamente dinâmico e multicultural, onde aprendi muito sobre gestão, curadoria, experiência e, principalmente, sobre a importância de propósito e narrativa nas marcas.

Voltar ao Brasil para assumir os hotéis da família foi uma decisão muito consciente. Não foi apenas dar continuidade a um negócio, mas assumir um legado construído pelos meus avós, que fundaram os hotéis, e que até hoje contam com a presença ativa da minha família na gestão. Meu irmão Marcelo e eu nos preparamos para esse momento com muito estudo e respeito pela história, mas também com o compromisso de modernizar a operação, atualizar processos e trazer uma visão mais contemporânea para a hotelaria.

Avalio minha atuação até aqui como um equilíbrio entre preservar essência e promover transformação. Modernizamos atendimento, infraestrutura, tecnologia e, sobretudo, reposicionamos os hotéis como referências em sustentabilidade, algo que se tornou central na nossa estratégia. O futuro da hotelaria, para nós, envolve necessariamente a regeneração do meio ambiente.

1 – O hotel Arpoador completou 50 anos em 2024 e o Ipanema Inn comemora suas cinco décadas este ano. Qual o segredo da longevidade na hotelaria? O que você sente sendo a terceira geração no comando do grupo?

A longevidade na hotelaria passa, acima de tudo, por coerência. Coerência entre discurso e prática, entre identidade e experiência entregue ao hóspede. Nossos hotéis sempre tiveram uma relação muito orgânica com o bairro, com a cidade e com as pessoas. São empreendimentos integrados à vida urbana.

Ser a terceira geração no comando traz uma responsabilidade enorme, mas também muito orgulho. Existe um compromisso constante de honrar o passado sem ficar preso a ele. Entender que o que funcionou há 30 ou 40 anos precisa ser reinterpretado à luz dos desafios atuais – especialmente no que diz respeito à sustentabilidade, impacto social e novas expectativas dos viajantes.

O entendimento de que os colaboradores estão no centro das nossas decisões traz um senso de comunidade a este ecossistema, que apesar de ter um porte médio, promove um impacto positivo significante na vida de diversos indivíduos e suas famílias.

2 – Como você define os hotéis? Quais os grandes diferenciais das propriedades? Qual é o público prioritário atualmente?

Os hotéis têm identidades muito claras, complementares, e compartilham os mesmos valores de hospitalidade e sustentabilidade City&Sea. Temos a consciência desde sempre que o Rio de Janeiro é único em vocação turística por ser uma metrópole à beira-mar, incrustada no meio da mata atlântica e com uma vida cultural das mais vibrantes.

O Hotel Arpoador é um hotel boutique à beira-mar, com uma vibe de casa de praia no Rio de Janeiro. Estamos literalmente no ponto mais próximo do mar entre todos os hotéis da cidade, e isso molda toda a experiência. A propriedade convida o hóspede a relaxar e viver o mar: temos um terraço exclusivo para hóspedes com práticas regulares de yoga, sitting pool, sauna, o Maré spa, sala wellness, além de bar exclusivo. Complementam essa vivência o serviço de praia completo com snacks servidos aos hóspedes na praia e as bicicletas, que reforçam um estilo de vida de bem-estar carioca e praiano.

Já o Ipanema Inn é um hotel boutique urbano, com serviço caloroso e localização do coração desse icônico bairro onde nasci e cresci. O hotel convida o hóspede a viver o bairro como um morador: circular de bicicleta, frequentar a praia com futevôlei e treino funcional cortesias, caminhar pelas ruas, descobrir comércios locais. A experiência é urbana e autêntica, sempre com serviço de praia e apoio do nosso time de concierge para criar roteiros personalizados.

A gastronomia é um pilar fundamental nos dois hotéis e acontece de forma integrada à experiência. No Arpoador, o arp bar traduz a cozinha costeira, com foco em frutos do mar, frescor e sabores ligados ao oceano. No Ipanema Inn, o Quitéria oferece uma gastronomia brasileira leve e fresca. Em ambos, o café da manhã é servido à la carte para os hóspedes, dentro dos próprios restaurantes, que também são abertos ao público, o que reforça a conexão com a cidade.

Nos dois hotéis, o grande diferencial está no serviço próximo, humano e atento aos detalhes, com equipes e concierges que conhecem profundamente o Rio. Tudo isso é sustentado por escolhas operacionais conscientes, desde fornecedores locais até práticas ambientais consolidadas.

Hoje, nosso público prioritário é o viajante que busca experiência, autenticidade e bem-estar, alguém que valoriza insumos de qualidade, um serviço caloroso e próximo do hóspede, a cultura local, além de localizações icônicas e iniciativas de sustentabilidade.

3 – Como gerente geral, o que você mais preza na operação hoteleira? Como é a sua gestão?

Prezo muito pela consistência operacional aliada à cultura de equipe. A experiência do hóspede começa internamente, com colaboradores engajados, informados e que entendem o porquê das decisões.

Minha gestão é bastante próxima, participativa e orientada a longo prazo. Busco sempre decisões que façam sentido para o tripé sustentável, social e financeiro. Sustentabilidade, para mim, é um pilar de gestão.

4 – Você é engajado na questão da sustentabilidade. Como estão os hotéis na questão ESG? Quais os destaques?

A sustentabilidade faz parte da estrutura de gestão dos hotéis em todas as decisões. Fomos os primeiros hotéis do Estado do Rio de Janeiro a conquistar a certificação Lixo Zero, com taxas de desvio de resíduos de aterro consistentemente acima de 90%, o que exige mudança real de processos, engajamento da equipe e revisão constante da operação.

Recentemente em dezembro de 2025, o Hotel Arpoador também conquistou a certificação Green Key, um selo internacionalmente reconhecido. Além disso, tivemos destaque nacional ao conquistar o primeiro lugar no Selo Verde da ABIH em 2024 e 2025, o que reforça nosso papel pioneiro na hotelaria sustentável.

Na prática, isso se traduz em ações muito concretas: gestão criteriosa de resíduos, eficiência energética, redução do consumo de água, escolha de fornecedores locais e artesanais, além de uma gastronomia conectada à sazonalidade e à produção responsável. Também investimos fortemente na formação das equipes, porque sustentabilidade só funciona quando é entendida e praticada por todos.

Para nós, as iniciativas sustentáveis são uma responsabilidade com o território onde estamos inseridos e, cada vez mais, um fator decisivo para a relevância e a longevidade dos hotéis.

5 – Existem planos de expansão do grupo e/ou modernização das unidades?

A modernização dos hotéis é contínua e faz parte da nossa rotina, seja em infraestrutura, tecnologia, serviços ou processos. Acreditamos muito na ideia de evolução constante, mantendo sempre a identidade.

Em relação à expansão, sentimos que hoje o grupo atingiu um nível de maturidade importante. Depois de conduzir reformas estruturais, modernizar o atendimento, fortalecer a governança e consolidar um posicionamento claro em sustentabilidade e experiência, entendemos que estamos preparados para administrar um terceiro hotel.

Nosso olhar está naturalmente voltado para a Zona Sul do Rio de Janeiro, uma área que conhecemos profundamente e com o qual temos uma relação histórica. Ainda estamos em fase de planejamento e estruturação, com muita responsabilidade.

6 – O que é preciso melhorar no Brasil para o setor hoteleiro prosperar? Como você vê o mercado, os incentivos e o setor como um todo?

Vejo o mercado com otimismo, especialmente para hotéis independentes e com identidade forte. O viajante está mais exigente, mais consciente e mais interessado em experiências verdadeiras. Quem entender isso e investir em qualidade, sustentabilidade e gestão profissional tende a prosperar.

O Brasil tem um potencial imenso, mas ainda enfrenta desafios estruturais. Precisamos de políticas públicas mais consistentes para o turismo, incentivos claros para práticas sustentáveis e maior previsibilidade econômica.

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