Ana Biselli: a união faz a força
Ana Biselli Aidar decidiu cursar hotelaria no Senac após vivenciar duas experiências em resorts brasileiros na juventude. E, hoje, atua como presidente-executiva da Resorts Brasil, associação que congrega 70 empreendimentos que operam no país. Há 20 anos, a busca pela integração entre a academia e o mercado é foco de sua atuação profissional. Desde a realização da iniciação científica durante a faculdade, passando pela formação em estatística ao iniciar sua atuação como consultora, até os dias atuais, com a aplicação dos conhecimentos adquiridos no Mestrado e no Doutorado em Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP). Outro aspecto que acompanha sua trajetória é a crença na força do “nós”, que resultou tanto na constituição de uma numerosa família, ao lado de seu marido Otávio, quanto nas escolhas das experiências profissionais. Sua atuação esteve ancorada na academia, no associativismo e na colaboração em conselhos empresarias e consultivos (Fecomercio-SP e WTM-LA). Ana também foi uma das fomentadoras do G20+, coalizão de associações de turismo e eventos que, entre outras ações, deu suporte à sanção presidencial do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (PERSE).
HN: Poderia detalhar a sua carreira profissional na BSH e no Senac até chegar à presidência da Resorts Brasil?
AB: Iniciei a carreira em consultoria de investimentos, com foco na condução de estudos de viabilidade mercadológica e econômico-financeira para novos hotéis. Posteriormente, fui responsável pela estruturação do departamento de pesquisa, com o intuíto de produzir e distribuir ao mercado relatórios de tendências sobre diversos segmentos, como hotelaria econômica e resorts. Após cinco anos, parti para o mestrado e foi quando eu entrei no Senac. Primeiro como docente e coordenadora da consultoria de turismo, hotelaria e gastronomia, e mais adiante como coordenadora dos cursos superiores de hotelaria. No final dos anos 2000, tive minha primeira experiência no associativismo ao ingressar no Fórum de Operadores Hoteleiros (FOHB), como diretora-executiva. Durante os três anos e meio de atuação, tive a oportunidade de participar de iniciativas de pesquisas, organização de eventos junto aos associados, além de atuar na relação governamental. Quando saí do FOHB fiz uma pausa para a maternidade, combinada com a realização do doutorado. Foram cinco partos em cinco anos, quatro bebês e uma tese de doutorado. Pouco antes de defender a tese, nasceram os gêmeos. Fiz uma pausa para cuidar dos bebês e, após um ano, veio o convite para a Resorts Brasil. Logo que cheguei na associação veio a pandemia da Covid-19. Tivemos que concentrar os esforços na defesa pela sobrevivência do setor de turismo e eventos, com foco total na relação governamental. Há dois anos retomamos o planejamento das demais frentes de atuação da associação, como a produção de conhecimento e conexão entre associados e parceiros. Resumidamente, nos 20 anos de experiência sempre procurei manter certa relação com a academia, como docente e pesquisadora, procurando integrar o mercado ao mundo acadêmico. Juntamente com presidente do conselho da Resorts Brasil, Marcelo Picka Van Roey, esperamos intensificar essa integração, por meio de comitês, pesquisas e formações.
HN: Em algum momento da sua jornada você enfrentou o sexismo? Como vê esse tema no turismo e na hotelaria?
AB: Faço parte de uma família numerosa, com seis irmãos e duas irmãs. Então, cresci em um ambiente em que essa disputa era natural e não havia muita diferença. Cada um tinha de buscar o seu espaço. No mercado de trabalho, não me senti tratada com diferenças. Já no ambiente da política ainda predomina o masculino, o que em alguns momentos gerou certo desconforto, mas não a ponto de inibir a nossa atuação. A hotelaria é uma área que já convive há tempos com a diversidade e os lugares pelos quais passei foram boas escolas. Há aspectos a serem aprimorados, como maior número de lideranças femininas, mas já vemos evoluções importantes em redes de hotéis e resorts.
HN: Como percebe o associativismo na atividade hoteleira no Brasil? Como seria o cenário ideal?
AB: Eu sou muito fã do associativismo. O trabalho coletivo e colaborativo é muito poderoso, quando se alcança boa definição de onde se quer chegar. O desafio está em definir bem o propósito coletivo e se manter firme, evitando interferência do individual, que pode causar certa dispersão. As associações existem há décadas e têm passado por um processo de amadurecimento relevante. Cada vez mais, percebemos a preocupação em ter pessoas preparadas e dedicadas para atuar à frente delas. Contar com um time executivo adequado, bem orientado pelos voluntários (diretoria e conselho), é o cenário ideal para o melhor entendimento do propósito da associação e, consequentemente, para identificar a agenda comum prioritária. À medida que esse movimento acontece, é possível constatar o importante papel que as associações cumprem no universo dos seus associados.
Acredito que se trabalharmos em sintonia teremos a capacidade de compreender melhor os problemas e angariar benefícios de forma mais eficiente
HN: Hoje existem cinco associações ligadas à hotelaria, cada uma com um propósito – FOHB, FBHA, Resorts Brasil, BLTA e ABIH. Em que tema todos poderiam trabalhar de forma uníssona?
AB: Acreditamos que há, ao menos, três focos de atuação da Resorts Brasil que deveriam ser trabalhados no coletivo ampliado: a relação governamental, a inovação e o ESG. São assuntos transversais que se tornam mais relevantes com uma atuação integrada. O foco que provocou essa integração inicial foi a atuação em defesa da sobrevivência do setor de turismo e eventos junto ao poder público federal, durante a pandemia da Covid 19. Essa união gerou resultados bastante positivos para o coletivo. Acreditamos que se torna ainda mais relevante e poderosa ao integrar turismo, eventos e entretenimento. O segundo foco é a inovação. Podemos resolver as dores do nosso segmento por meio da iniciativa privada. Os novos empreendedores vão escolher um setor produtivo para atuar que valorize o capital humano, que invista em tecnologia e que esteja aberto à inovação. Acredito que se trabalharmos em sintonia teremos a capacidade de compreender melhor os problemas e angariar benefícios de forma mais eficiente. O turismo representa uma participação significativa na economia, mas somos muito pulverizados. Quando nos unimos, conseguimos demonstrar o nosso poder, nossa força. O terceiro tema é o ESG. Não adianta nada pensarmos isoladamente o que faremos a respeito da agenda 2030. Já existe uma estratégia global e o setor produtivo do turismo brasileiro precisa se conectar a isso e desenvolver uma estratégia unificada e complementar. Esse ano realizaremos o Fórum ESG, a fim de integrar o que já tem sido feito na Resorts Brasil com outras associações e com o governo, para que possamos selecionar algumas bandeiras a curto, médio e longo prazos, e caminhar juntos.
HN: Você acha utópico que a hotelaria tenha uma única voz para tentar obter benefícios, assim como o setor marítimo, de parques e de agentes?
AB: A fragmentação não é uma característica somente da hotelaria, mas entendo que seria muito difícil criar uma única entidade. A origem e o propósito de cada associação são diferentes. A ABIH, por exemplo, no meu entendimento, trabalha prioritariamente a relação governamental, tanto no âmbito estadual quanto federal. Já a Resorts Brasil nasceu com o foco na promoção do segmento e, mais recentemente, passou a ter uma atuação de apoio ao associado junto ao poder público. No entanto, acredito que há maneiras de integrar essa relação governamental de forma estratégica, com olhar de médio e longo prazos. Essa foi a experiência vivida durante a pandemia, ao criar a coalizão de mais de 20 associações de turismo e eventos (G20+). Partindo de uma agenda comum, que foi naturalmente criada a partir da crise, foi natural trabalhar os projetos, as ações e divisão de tarefas. Nosso desafio, atualmente, é saber como vamos desenhar essa agenda comum daqui para frente. Passada a pandemia, quem vai decidir o foco que devemos ter na relação com o governo? Não acredito no modelo de uma única associação, mas sim na organização com governança que possa colaborar para que as agendas sejam bem definidas e estabelecidas com a colaboração de todos. E é importante manter a capilaridade e a força das associações, pois é vantajoso termos vários porta-vozes, desde que eles falem a mesma língua e peçam a mesma coisa.
HN: Qual é a missão da Resorts Brasil?
AB: O nosso principal objetivo é promover e fortalecer o segmento resorts nas respectivas localidades. Conectado a isso, acreditamos que temos o papel de ajudar a desenvolver a comunidade local a partir dos empreendimentos. Temos essa capacidade de descentralizar a atividade econômica e a geração de renda nas cinco regiões do país.

HN: Em 2022, a Resorts Brasil produziu uma cartilha com o tema ESG. Dois anos depois, como você avalia a aplicabilidade desse material?
AB: Essa cartilha marcou o início de uma grande jornada. Primeiro, identificamos o que deveríamos fazer e onde precisaríamos trabalhar o nosso foco, pois a agenda é muito extensa. E fizemos este trabalho dialogando com o cliente corporativo em conjunto com a Associação Latino Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (ALAGEV). O passo dois foi medir o nível de maturidade dos resorts em cada tema, nos três eixos. Divulgamos aos associados para que eles conhecessem a média do mercado e compreendessem em que patamar estavam. Agora, o hoteleiro precisa obter ferramentas para fazer essa transformação. Para isso, proporcionamos formação. Já estamos na segunda turma de capacitação. E, em paralelo, ativamos o Turistech Hub, para que ele busque novas soluções junto às que estão na praça. Podemos ver resultados concretos de associados que já criaram comitês específicos para debater e evoluir na agenda. Então, nosso plano começou com a sensibilização, passou para a medição e agora entrou na fase da solução e da formação. A próxima etapa é evoluir no debate integrado entre associações e governos de como utilizar os escassos recursos do Brasil para otimizar essa agenda.
O modelo de multipropriedade trouxe oportunidades de crescimento da oferta de lazer que, se bem planejado, é interessante
HN: Há pouco mais de um ano, a Resorts Brasil vem investindo no Turistech Hub, uma iniciativa que oferece oportunidade para o surgimento de soluções digitais para os gargalos da hotelaria. Como surgiu e como funciona esse projeto?
AB: A criação foi durante a pandemia. A Resorts Brasil já tinha decidido que a inovação seria um eixo estratégico. Reunimos 40 pessoas do setor para escrever artigos sobre temas relevantes para o contexto pós-pandemia, e uma das reflexões foi a respeito da inovação, por meio do mapeamento de turistechs que existem pelo Brasil. A partir daí, surgiu o Turistech Hub. Percebemos que não faria sentido falar de inovação a portas fechadas. Teríamos que convidar os atores da cadeia para participar. O primeiro evento foi há dois anos, quando aprofundamos o conceito de inovação aberta junto aos nossos associados e algumas associações do trade. Tivemos retorno positivo. Logo vieram algumas associações e empresas para nos apoiar. O Turistech possui três modalidades, a primeira é fazer uma agenda absolutamente customizada, onde há serviços específicos para identificar os desafios, buscar a melhor solução ou acelerá-la. Outra modalidade é quando algumas empresas se unem para resolver a mesma dor. Como no caso de quatro resorts que queriam melhorar a experiência do cliente. Então, eles identificaram os desafios relativos ao assunto e juntos foram buscar soluções. A vantagem de fazer no coletivo é a capacidade de conhecer soluções diferentes com baixo investimento e maior rapidez. E o terceiro modelo é onde está o fomento da atividade, que ajuda as empresas, mas não resolvem os desafios de competitividade delas. Esse modelo engloba a formação de pessoas e lideranças, e a criação de relatórios de tendências e de base de dados de soluções tecnológicas.
HN: Como percebe a chegada da inteligência artificial na hospitalidade?
AB: Acredito que a Inteligência Artificial não vai substituir totalmente, mas vai acelerar e simplificar muitas das atividades. Durante a Jornada Resorts Brasil 2023 convidamos especialistas para tratar do tema, especialmente com foco na gestão da reputação. Enfrentamos certa dificuldade em responder as interações que surgem nas diversas plataformas. E hoje é possível utilizar IA para acelerar o processo de resposta. A tecnologia oferece várias respostas possíveis para determinada interação, mas no final é um humano que decide a que cabe melhor. Essa tecnologia pode entrar em vários aspectos da operação e tem o poder de processar rápido a informação para que o humano esteja mais bem preparado para tomar a decisão final.
HN: Como você percebe o modelo de multipropriedade e como enxerga os próximos cinco anos da hotelaria de lazer no Brasil? O segmento é a bola da vez na hotelaria?
AB: O desafio do desequilíbrio do desenvolvimento imobiliário e do resultado da operação hoteleira é algo já vivido em nosso país. Foi assim com o condotel e agora com a multipropriedade. Há certo desconhecimento por parte de quem compra uma unidade ou uma fração em relação ao negócio. Há incorporadoras que estão voltadas exclusivamente à venda do negócio imobiliário e pouco preocupadas com o resultado da operação hoteleira. Existe uma necessidade evidente de formação e de informação confiável para que as pessoas possam tomar melhores decisões sobre o tipo de investimentos que querem fazer. Assim, teríamos uma oferta evoluindo em um ritmo mais equilibrado e não com perspectiva de dobrar nos próximos anos. A demanda por empreendimentos de lazer apresentou crescimento relevante, mas talvez não acompanhe o ritmo de crescimento da oferta. Então, para competirmos com esses novos empreendimentos, temos que fazer dois movimentos, um é aumentar a demanda para o nosso setor, por meio de projetos estruturantes, ampliando a malha aérea e trazendo visitantes internacionais; o outro é agregar valor à experiência do cliente. Em cinco anos, acredito que esse segmento vai se acomodar, pois muitos deles não estão bem estruturados como negócio, e vão ficar pelo caminho. Mas aqueles que têm um bom produto, localização, precificação e público atingido são interessantes. O modelo de multipropriedade trouxe oportunidades de crescimento da oferta de lazer e, se bem planejado, é interessante. O desafio é quando a oferta não foi bem estruturada e contamina a imagem do setor.
HN: Como foi a articulação para a sansão presidencial do PERSE?
AB: Existe uma coalizão de associações de turismo e eventos com mais de 20 entidades que, de alguma maneira, se conectaram para esse processo. Essa conexão aconteceu no começo da pandemia e se manteve. Este ano foi um pouco diferente, pois durante a tramitação do PERSE, em outras ocasiões, nós tínhamos uma liderança clara de quem estava representando o setor produtivo de turismo e eventos. Nessa última foi mais desafiador, pois novas forças foram surgindo para defender a mesma pauta, nem sempre com uma estratégia alinhada. A Resorts Brasil buscou contribuir para manter a integração dessas forças para lutarmos pela mesma causa. A maneira que encontramos para manter a união do turismo e eventos em prol do setor como um todo foi trabalharmos na fundamentação da nossa defesa por meio de estudos, pesquisas e divulgação desse material. Mais de 10 associações colaboraram nessa direção. Nós acreditamos que só vamos resolver os desafios complexos que temos se houver um bom diálogo entre as associações e uma estratégia conjunta de interlocução com o parlamento.

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