Vitoria Da Riva: Amazonia responsável
Vitoria Da Riva é formada em Letras e tem pós-graduação em Administração de Empresas, mas foi na hotelaria que encontrou os meios que precisava para exercer a vocação nata, como ambientalista, e alcançar o objetivo maior de garantir a preservação de uma área de 11.399 hectares de floresta primária, em Alta Floresta (MT). Assim nasceu o projeto do Cristalino Lodge, um dos empreendimentos mais admirados e reconhecidos internacionalmente pelos esforços em prol da conservação da Amazônia e por difundir o turismo ecológico a partir de práticas e economias sustentáveis.
Revista hotelnews: O que motivou a sua opção pela hospitalidade mesmo tendo estudado outras áreas?
Vitoria da Riva: Meu ingresso nesse segmento foi motivado pela conservação do meio ambiente. Comprei a área onde hoje opera o Cristalino Lodge com o intuito de preservar a natureza, e a hospitalidade foi uma consequência de levar pessoas para conhecer o local.
HN: Qual foi a inspiração para a criação do Cristalino Lodge?
VR: Tudo começou na década de 1990, juntamente com o surgimento do movimento de ecoturismo nos Estados Unidos e de países da Europa, quando as pessoas começaram a se voltar para a natureza ao realizar percursos em trilhas. Isso me inspirou e, como eu já havia comprado a área, quis levar as pessoas para conhecer o local. Já a criação do projeto mais estruturado e totalmente sustentável veio das oficinas de capacitação em ecoturismo, oferecidas no Brasil pela Conservation International, que me possibilitaram conhecer esse movimento melhor. Na época não havia nenhuma literatura sobre o tema, entretanto, a Universidade de Banth e a Sobek Expeditions – contratadas pela Conservation International – nos proporcionaram um treinamento. Éramos 40 participantes aprendendo sobre capacitação em ecoturismo e nossa missão foi multiplicar o conhecimento para mais de 800 pessoas.
HN: A Fundação Cristalino surgiu sete anos depois da abertura do lodge. Como se divide hoje a atuação desses dois negócios na disseminação da cultura da educação e da conservação ambiental entre os hóspedes e a comunidade?
VR: Nós trabalhamos em sinergia. A Fundação surgiu justamente porque eu senti a necessidade de conhecimento, uma vez que você só respeita aquilo que conhece. Do ponto de vista científico – sobre qual seria a biodiversidade dessa região -, a área era totalmente desconhecida, até mesmo pelo órgão ambiental de Mato Grosso. Diante disso, criei a Fundação justamente para poder trazer pesquisadores e conhecimento para o local. Hoje, nós trabalhamos em sinergia. O lodge ajuda a fundação com a arrecadação de uma taxa e a fundação traz todo o conhecimento científico dos pesquisadores, de maneira bem plausível para os hóspedes e guias. E essa é uma maneira de fazermos com que o conhecimento chegue até o turista e também à comunidade.
HN: O Programa Um Dia na Floresta surgiu da sua crença na importância da educação ambiental das crianças da comunidade, como está esse projeto?
VR: Esse é um programa muito importante, especialmente para mim, pois trabalha com o futuro de crianças de 8 a 12 anos. Até 2019 (antes da pandemia), cerca de cinco mil crianças já tinham passado pelo programa e todos os anos aumentamos esse número. Atendemos todas as escolas rurais, municipais e estaduais de Alta Floresta e região, além de outros municípios mais próximos.
HN: Quantas pessoas o lodge e a fundação empregam e como é selecionada e treinada essa mão de obra, considerando a necessária qualificação e especialização no tema da sustentabilidade?
VR: No lodge, antes de mais nada, as pessoas já chegam com uma ideia da conservação do local e, principalmente, a praticam. O hotel inteiro participa do programa de reciclagem de lixo e compostagem. Os colaboradores usam a sustentabilidade na prática e sabem da necessidade de ter respeito pela natureza que nos cerca. Quanto à Fundação, o rigor naturalmente é maior, são biólogos com uma formação mais completa, mas todos passam por um programa específico de seleção. Hoje, entre lodge e fundação, empregamos 55 pessoas.
HN: Quanto os turistas internacionais representam na ocupação do lodge e de que mercados predominantemente?
VR: Os estrangeiros representam 60% da nossa ocupação e, em geral, são predominantes da Europa e da América do Norte.
HN: Que balanço faz entre os desafios superados e os que ainda precisam ser enfrentados nesses 30 anos?
VR: O primeiro desafio superado foi ter conseguido construir o lodge devagar, ao longo dos anos, e ter atraído pessoas para conhecer essa natureza maravilhosa. O desafio agora é a conservação do entorno, especialmente do Parque Cristalino.
HN: Qual é a sua visão de futuro para as próximas décadas?
VR: Eu sou uma pessoa otimista e acredito que o mundo e, principalmente os brasileiros, vão acordar para a importância da conservação da Amazônia. Mas, essa é uma realidade que ainda não vivemos, especialmente as pessoas que habitam essa região. Elas não estão plenamente conscientes da importância do local em que moram.
HN: Quem é o principal inimigo da Amazônia?
VR: Eu acho que é a falta de alfabetização ecológica por parte de prefeitos, vereadores e da comunidade em geral, que ainda não entenderam o que é ecologia, meio ambiente. Nós fazemos parte disso, não somos separados. Então, considero que o principal inimigo é a ignorância, e depois a ganância de quem só pensa em ganhar dinheiro, derrubando florestas e com garimpo. Frentes que essas pessoas estão desbravando só para ter mais dinheiro, e, muitas vezes, sem necessidade. Em resumo, falta visão sobre uma maneira de utilizar a Amazônia de forma responsável, e isso é totalmente possível por meio da exploração de negócios sustentáveis, que não danifiquem o meio ambiente.
HN: Acredita que o Brasil pode ser uma potência no ecoturismo mundial? O que falta para o país decolar?
VR: Considero o potencial do ecoturismo do Brasil como o maior de todos os países do mundo. Isto porque temos um imenso território com paisagens deslumbrantes, localizadas em todos os nossos biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Uma população acolhedora, alegre e um capital musical considerado patrimônio brasileiro. Mas, falta ao Brasil um planejamento integrado deste capital natural, visando o desenvolvimento de infraestrutura turística, relacionado ao transporte aéreo e rodoviário, apoio a projetos sustentáveis e comunidades locais, visando o desenvolvimento do turismo de baixo impacto. O verdadeiro ecoturista não está interessado no turismo de massa e sim em conhecer a cultura, a natureza e as pessoas que habitam aquele local. Daí a necessidade também de uma política de alfabetização ecológica para os políticos que dirigem este setor, para que entendam suas reais necessidades e promovam uma verdadeira revolução, possibilitando também a educação das comunidades e diferenciando o conceito de turismo de massa e ecoturismo.
A entrevista foi publicada na edição 423 que pode ser lida aqui ou no nosso app, disponível para download na Apple Store e no Google Play

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