Michael Nagy: espírito livre e visão de futuro na hotelaria
É difícil alguém que trabalha no turismo não conhecer o nome Michael Nagy. O sul-africano, que ainda passou boa parte da vida na Inglaterra com família de origem portuguesa, encerrou os estudos bem cedo e já fez um pouco de tudo. Trabalha desde os 11 anos, entregando jornal, foi barman e ainda servia mesas em hotel Waldorf Astoria, tudo para ganhar seu próprio dinheiro. No entanto, o turismo já era algo de família. “Meu pai foi diretor geral da Varig e abriu as lojas na África do Sul. Nasci aprendendo o turismo dentro de casa”, diz Nagy.
Ao escolher seu rumo, estava dividido entre diferentes vocações: a área financeira, sendo arquiteto, ou viajar o mundo. Porém, seu pai decidiu que ele deveria cursar hotelaria. “O Westminster College, em Londres, era um hotel-escola. Me identifiquei muito mais com a parte estratégica, operacional e do marketing, mas passei por todas as áreas. Em 1987 estava me formando, e nessa época ainda nascia o conceito de cartão magnético dos quartos”, relembra.
Após se formar, teve de escolher entre oportunidades em Brighton, para gerente geral num hotel na beira da praia, ou a área de hospitality no Torneio de Wimbledon, e ele escolheu a segunda opção por amar tênis. “Adorava a concepção de gerir de maneira separada os eventos, alimentos e bebidas, e ver um outro lado do negócio. Me considero um dos melhores estrategistas que conheço e não paro de estudar até hoje”.

A mãe, Mari Raquel, e a irmã, Anna 
Com os irmãos Anna e João
Virginiano, sempre acha que pode fazer tudo melhor. “Sou muito emotivo, perfeccionista e aprendi que a busca pela perfeição não deve trazer sofrimento, e não devemos desrespeitar ninguém no processo”. Nagy sempre faz cursos online não pelos certificados, mas pelo crescimento pessoal. “Às vezes eu esqueço de cuidar de mim, mas é isso que define quem eu sou: 8 ou 80. Faço muita coisa ao mesmo tempo, mas consistência uma hora cansa. Sempre testo minhas capacidades e meu sonho é não parar de evoluir”.
Ainda na juventude foi contratado para abrir novas unidades da franquia de restaurantes Beefeater, viajando pelo Reino Unido. Depois assumiu a gerência de um dos empreendimentos, isso aos 19 anos de idade. “Ganhava 7,5 mil libras por ano e pensava em ser um franqueador global no setor de alimentos, mas recebi uma nova proposta para trabalhar com anúncios classificados em revistas”.
Nagy folheava outras publicações, identificando quem ainda não era seu cliente, e nas primeiras duas semanas já tinha vendido sua cota equivalente a três meses. “Passei a sugerir novas ideias, modelos de anúncios diferentes e uma outra linha de pensamento, atraindo até mesmo anunciantes internacionais. Como consequência, meu salário triplicou e ganhei carro e cartão corporativo. Mas aos 21 anos, irritado com a vida, comprei uma passagem de volta ao mundo na Thomas Cook e pedi demissão. Já tinha um bom dinheiro guardado e o que me encantava era o desafio, e não o salário”, admite.
Escolha pelo Brasil
Em Portugal, foi chamado para a área do timesharing numa empresa de resorts, para vaga de gerente geral em solo grego. No mesmo momento, seu irmão o convida para vir ao Brasil e a Ícaro, revista da Varig, precisava de um diretor internacional. Entre Grécia e Brasil, escolheu o Rio de Janeiro, chegando em 1992 – e acabou trabalhando em uma operadora incoming ao lado do irmão.
Além disso, foi pioneiro com a chegada de uma grande empresa de serviços financeiros. “Aqui não existia VISA, apenas American Express e Diners, isso entre 1994 e 1996. Li num jornal que estava acontecendo uma prospecção da marca para entrar no País e o CVB receberia um executivo da VISA International para lançar a marca. Participei da implantação e ganhei muito dinheiro com essa ‘brincadeira’ na época”.
Em 1998 foi contratado por Joaquim Rodrigues para trabalhar na Hotéis Othon e bateu todos os recordes. “Um ano depois virei o diretor exclusivo de internacional da rede. Entendi o mundo corporativo brasileiro e o Othon foi uma grande escola. Nesta época a Pestana chegou ao Brasil e me convidou. Na sequência, assumi uma OTA (agência de viagem online), chamado HDN, só que descobri que a empresa não era tão honesta e por isso, depois, eles quebraram. Fui embora e fiz consultoria para a Meliá durante um ano, em São Paulo”.
Ao acabar a consultoria, Nagy já gostava de golfe e montou a Golf Corporate Brasil (GCB), viajando o mundo levando brasileiros para jogar, desenhando campos de golfe e outros empreendimentos. Ainda trouxe torneios e campeonatos para Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo, incluindo parcerias com a confederação brasileira.
Certo dia recebeu uma ligação de Alfredo Lopes, que precisava de uma “ajudinha” no Rio Convention & Visitors Bureau. O que era para ser uma consultoria, de poucos meses, resultou no cargo de diretor executivo por seis anos. “Fizemos ações inéditas como fechar a avenida Strip, em Las Vegas. Aprendi a vender o destino unindo as bagagens com golfe, relacionamento e os bancos. Até hoje ligo para esses contatos e eles me atendem, então devo ter feito algo certo”.

Parte da equipe do Fairmont Copacabana 
Festa de 2 anos do hotel
Momento na Accor
Michael Nagy foi sondado pela Accor quando o projeto do Fairmont Copacabana – o primeiro da marca na América do Sul – ainda estava nascendo. Logo chegou para o time da rede francesa em 2018, assumindo o cargo de diretor de Vendas e Marketing.
“Nossa equipe é espetacular e estamos reinventando a hospitalidade, que hoje virou um marketplace online e offline. Sabíamos das curvaturas da sazonalidade, mas a pandemia acabou com isso. Até março do ano passado, com 5 meses de operação, faturávamos R$ 13 milhões por mês com 78% da ocupação efetiva por gringos e público de eventos corporativos. Com isso, mudamos 180 graus e ultimamente o brasileiro representa 90% dos clientes”.


Para quem deseja entrar na área da hotelaria, Nagy recomenda que é essencial gostar de pessoas e saber que não existirá horário definido na rotina. “Nosso ofício envolve todo dia uma nova experiência, com tribos novas chegando a todo instante. É preciso criar momentos para que o hotel também seja um destino, sem medo. O mundo mudou e não vai voltar ao que era antes, e as empresas deverão aprender a fazer negócios com todas as enfermidades que ainda virão”.
Pai amoroso
Ao falar sobre a família, o executivo bem-humorado se emociona e cai em lágrimas. Ele é pai de três filhos com Patricia, ex-esposa natural de Petrópolis (RJ), por quem nutre grande admiração. “É uma das mulheres mais lindas que conheço e hoje somos amigos. Juntos tivemos João Paulo, Luis Felipe e Maria Eduarda. Os três são as melhores coisas que fiz na minha vida, mas entendo que todos devem voar. O tempo é deles, eu concordando ou não. Quero sempre evoluir como pai e como ser humano”.

Nagy com os filhos João Paulo, Maria Eduarda e Luis Felipe
| BATE-BOLA Destino: Rio de Janeiro Hotel icônico: qualquer Fairmont no mundo Talentos na hotelaria: João Nagy (irmão) e Carlos Eduardo Sousa Uma característica marcante: obstinado |
Foto de capa: Divulgação/Bruno Ryfer

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