Um ícone abandonado

Após hospedar grandes nomes nacionais e internacionais, o Othon Palace Hotel hoje serve de moradia irregular para centenas de famílias em sp

Um dos símbolos da hotelaria paulistana de outrora, o Othon Palace Hotel, da rede brasileira Hoteis Othon, completaria 60 anos de operação em dezembro próximo, se não tivesse fechado suas portas em 2008 após operar por um período no vermelho.

O imponente prédio de 25 andares cravado no centro da cidade foi construído para as comemorações do quarto centenário de São Paulo – ocasião em que a capital se apresentou ao mundo como a grande metrópole industrial e corporativa do Brasil. “Para estas celebrações, que contaram com festivais de música e cinema, eventos sociais e empresariais durante todo o ano de 1954, era necessária uma rede hoteleira de nível internacional na cidade”, conta Caio Calfat, vice-presidente de Assuntos Turístico-Imobiliários do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) e autor do livro ‘Hotelaria e Desenvolvimento Urbano em São Paulo – 150 anos de História’.

Para isso, segundo Calfat, tanto o município quanto o estado criaram leis que beneficiavam a construção destes empreendimentos, isentando-os de impostos e criando coeficientes de aproveitamento diferenciados. “O Othon Palace foi um dos hotéis feitos com este objetivo e que utilizaram os benefícios”.

Os mais de 250 apartamentos, divididos em três categorias – Presidencial de luxo, Casal e Solteiro -, e que receberam figuras ilustres, como a cantora Ella Fitzgerald (em 1960) e a rainha Elizabeth II (em 1968), ofereciam ‘a continuação do seu próprio lar’, como prometia o slogan na época. As acomodações eram equipadas com cofres particulares, rádio, televisão (apenas nas unidades Presidenciais), e eram atendidas por room service permanente.

No topo da torre art déco funcionava o Chalet Suisse, um dos mais luxuosos restaurantes da capital paulista, destacado pela decoração de chalé alpino, música ao vivo, boa comida e vista panorâmica da cidade. Com capacidade para 200 pessoas, o Grill Room oferecia jantar dançante, enquanto o salão de conferência abrigava um cinema e tinha bar próprio.

A queda

Com as mudanças urbanísticas da capital nas décadas de 1970 e 1980, muitas empresas mudaram-se para outros locais – primeiro a avenida Paulista, depois para a Faria Lima e, por fim, para a região da Berrini. Ao centro sobrou a degradação, assim como ao Othon Palace Hotel, que fechou suas portas em 2008 por prejuízos financeiros. “O Othon foi um dos melhores produtos da hotelaria de São Paulo, que trabalhava o tradicional, o luxo. Entretanto, por falta de investimentos para modernização e adequação às novas tecnologias, ficou abandonado e já estava prejudicando a qualidade da hotelaria paulistana”, destaca o presidente da Associação Brasileiras da Indústria de Hotéis de São Paulo (ABIH-SP), Bruno Omori.

Colocado à venda em 1999, e depois passado em dívidas para a prefeitura, o edifício que serviria à administração pública da cidade foi ocupado por mais de 800 famílias em outubro de 2012.

De acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura, a Secretaria Municipal de Habitação negociou a saída amigável dessas pessoas, que foram cadastradas em julho de 2013 e receberam apoio habitacional antes de serem incluídas nos programas para aluguel social e unidade definitiva. “O cadastro aconteceu porque o prédio estava em processo de desapropriação pelo Poder Público com reintegração de posse marcada pela justiça”.

Após esse processo, o edifício foi concretado e, ainda assim, ocupado novamente por outras famílias, que estão até hoje. Segundo a assessoria, a prefeitura pagou aproximadamente R$ 30 milhões no processo de desapropriação do edifício, que deverá ser sede da Secretaria Municipal de Finanças e Desenvolvimento Econômico, o que pode gerar uma economia em aluguéis da ordem de R$ 7,5 milhões por ano.

O Othon Palace foi durante muitos anos o preferido dos ‘vips’, principalmente os pertendentes ao meio artístico, como Sammy Davis Júnior, Harry James, Nat King Cole e Margot Fontain, a famosa bailarina que aparece nesta foto tirada durante um almoço no restaurante internacional do empreendimento

Deixe uma resposta