Por Jurema Monteiro
O Brasil tem dimensões continentais, um enorme potencial turístico e uma barreira ainda pouco enfrentada: a dificuldade de acesso a muitos destinos. Mais de 5.500 municípios compõem o território nacional, mas apenas cerca de 170 contam com voos comerciais regulares. A aviação cresceu nas últimas décadas — saltando de menos de 30 milhões de passageiros transportados no início dos anos 2000 para cerca de 118 milhões em 2024, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Ainda assim, o setor segue concentrado em poucas rotas, operado majoritariamente por três companhias e sob forte pressão de custos como câmbio, combustível e infraestrutura.
Enquanto isso, o transporte rodoviário continua sendo fundamental para os brasileiros que viajam dentro do país. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) estima que mais de 60% das viagens de média e longa distância sejam feitas por ônibus, com destaque para as regiões Sudeste e Sul. No entanto, faltam investimentos em infraestrutura, sinalização e integração com outros modais — sobretudo aeroportos e atrativos turísticos regionais.
A mudança exige esforços e recursos, mas um caminho estratégico e disruptivo pode estar na melhoria da intermodalidade. Integrar os transportes aéreo e rodoviário é essencial para democratizar o turismo e fortalecer toda a cadeia de valor da hospitalidade. Isso inclui não apenas hotéis e pousadas, mas também meios alternativos, como hostels e a locação por temporada, que vêm ganhando relevância em destinos em consolidação ou com alta demanda pontual, como grandes eventos.
A experiência do turista não começa no check-in nem termina no check-out. Ela é influenciada por fatores como tempo de deslocamento, conforto na chegada, acesso facilitado à informação e conexão entre os modais. Políticas públicas que ignorem essa lógica integrada correm o risco de comprometer todo o ciclo econômico do turismo — da ocupação de leitos à geração de emprego e renda locais.
Por isso, governos e empresas precisam atuar de forma coordenada. Ações como incentivos à operação de linhas regionais, integração da experiência entre ônibus e voos e melhorias na sinalização turística são passos fundamentais. E os meios de hospedagem têm um papel ativo a cumprir: promover parcerias, apoiar soluções logísticas inovadoras e influenciar a formulação de políticas mais conectadas com a realidade dos destinos.
Em 2024, o turismo gerou mais de 8 milhões de empregos diretos e indiretos e atraiu US$ 7,3 bilhões em divisas com visitantes internacionais. Mas, para que esses números avancem, é preciso garantir que o turista consiga chegar — com conforto, segurança e eficiência — a todos os cantos do país.
A integração de modais não é apenas uma pauta de infraestrutura. É uma estratégia de desenvolvimento, inclusão e competitividade. É hora de pensar a hospitalidade como uma jornada completa. E isso começa por conectar — de verdade — o Brasil.
Jurema Monteiro é bacharel em turismo pela Universidade Anhembi-Morumbi, com especialização em comunicação pela ESPM e mestrado em co-criação de experiências em turismo pela Universidade de Brasília. Foi presidente da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (ABEAR) e hoje é consultora associada da Prospectiva Public Affairs.

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