Segurança pública

Destinos brasileiros preparam estratégias para a Copa, enquanto a população pede soluções imediatas

A Copa das Confederações, encerrada no último final de semana de junho, foi o primeiro grande teste para o Mundial de 2014. A estimativa da Embratur é de que o Brasil tenha obtido com os jogos uma receita de R$ 311,5 milhões, somados os gastos de estrangeiros (R$ 69 milhões), brasileiros (R$ 172 milhões) e das seleções (R$ 70 milhões). O cálculo de gastos leva em conta o número de turistas e o tempo de permanência desse visitante nas seis cidades que sediaram os jogos – Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e Salvador – dez dias, em média, no caso de estrangeiros, e três dias entre os brasileiros.

Além da Embratur, o Ministério do Turismo também comemorou os resultados da Copa das Confederações, tomando por base dados de uma pesquisa encomendada à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre a qualidade e infraestrutura dos serviços turísticos oferecidos nas seis cidades-sede. Brasileiros e estrangeiros interrogados apontaram grau de satisfação acima de 50% em mais da metade dos serviços recebidos. As condições gerais e belezas naturais das cidades, além da qualidade dos estádios, foram os itens mais bem avaliados. Na infraestrutura o que mais agradou foram o transporte privado, limpeza das ruas e a segurança pública, nessa ordem.

Interessante notar que, de fato, o Brasil esmerou-se no quesito segurança – pelo menos na que se manteve mobilizada em prol do evento. Com esse fim foi destacado um efetivo de 20,9 mil militares, 56,3 mil agentes de segurança pública e 600 profissionais da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), segundo números apresentados pelo Ministério da Defesa e a Secretaria Extraordinária para Grandes Eventos (Sesge) do Ministério da Justiça, além de tropas militares que ocuparam 92 estruturas estratégicas nas seis cidades que sediaram os jogos. Somente no Rio de Janeiro, a Divisão de Exército destacou 7.126 militares, parte deles destinados à proteção da infraestrutura estratégica previamente definida para o evento da Fifa. No litoral o patrulhamento ficou a cargo da Marinha do Brasil, aeronaves do Exército controlaram o tráfego de helicópteros, enquanto o Centro de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Comdabra) ocupou-se do espaço aéreo.

Mobilização nas cidades-sede

Em Belo Horizonte, segundo o vice-presidente do Convention & Visitors Bureau, Rodrigo Mangerotti, foi criado para atendimento aos eventos – no caso dessa cidade a Copa das Confederações e a Copa do Mundo – um núcleo de monitoramento em conjunto (polícias militar e civil, corpo de bombeiros etc) visando facilitar qualquer ação em momentos críticos, além de uma interação mais assertiva entre as forças do estado. “Temos algumas pesquisas que demonstram que a sensação de segurança em Belo Horizonte é boa e tem melhorado com atuações mais direcionadas em locais de grandes eventos e convenções. Em toda grande cidade este é um dos pontos de maior preocupação dos poderes público e privado, as cidades crescem e a criminalidade também”.

Falando pela Rede Arco, de que é superintendente, Rodrigo Mangerotti afirma estar conduzindo um trabalho coordenado por uma empresa especializada em segurança com uma estratégia de atuação em diferentes hotéis e cidades através de uma central. “Temos equipamentos de monitoramento, seguranças físicos, treinamento com equipe para situações de risco, botões de pânico, acesso restrito nos elevadores e atuação na conscientização de hóspedes sobre posturas e medidas em lugares de grande circulação de pessoas”. De acordo com Mangerotti, o investimento em segurança nos sete empreendimentos da rede é de R$ 500 mil por ano, abrangendo departamentos como recepção, eventos e governança. “Sabemos que o problema de segurança pública é de todos e não somente do estado, é necessário o aumento de trabalho conjunto, privado e público”, pondera.

“Belo Horizonte não apresenta grandes problemas de segurança pública como ocorre em outras capitais. A cidade está se fortalecendo como destino de turismo de negócios e os próximos torneios esportivos serão uma grande oportunidade para adquirir experiência nas diversas áreas que compõem a operação e logística de megaeventos, como segurança e atendimento ao turista”, afirma o secretário municipal extraordinário para a Copa do Mundo, Camillo Fraga.

O hotel Deville Salvador, que hospedou a seleção da Nigéria durante a Copa das Confederações, promoveu algumas adaptações para se adequar ao padrão Fifa. “Independentemente dos megaeventos já vínhamos fazendo atualizações frequentes, tanto que fomos considerados pelas diferentes unidades de segurança que fizeram a inspeção, pela Fifa – incluindo o Corpo de Bombeiros – como um dos hotéis mais bem estruturados da cidade”, afirma a gerente-geral Sandra Haas. Dentre os equipamentos e processos de segurança instalados, a gerente cita 64 câmeras com gravação digital e visão infravermelho, e luz de emergência autônoma em todos os andares. “Vale ressaltar que em função dos próximos eventos, a PM está instalando um sistema de monitoramento para a região de Itapuã, cujas antenas estão localizadas no Hotel Deville, e que ficará disponível após a Copa para uso do batalhão sediado nesta região”, completa. “Infelizmente, nos últimos anos a cidade tem ficado desprotegida, afetando principalmente os turistas. No entanto, nos últimos meses, tem-se notado uma movimentação maior na área de segurança pública, na renovação dos equipamentos e no aumento do efetivo policial nas ruas. Sendo assim, há a esperança de que, aos poucos, a cidade baixe seus índices de criminalidade a números mais razoáveis e condizentes com as grandes metrópoles”, acredita Sandra.

Paulo Senise, diretor-executivo do Rio Convention & Visitors Bureau, acredita que após a instalação das UPPs, o Rio de Janeiro vive um momento de melhora significativa na percepção da segurança da cidade, especialmente no exterior. “Já notamos por conta disso um aumento no número de feiras e congressos que foram atraídos para a cidade nos últimos anos. O Rio chegou à 25ª colocação no ranking da International Congress & Convention Association (Icca), nossa melhor posição em dez anos. Senise entende que o governo tem tomado as medidas certas e competentes para o combate à violência. “As poucas ocorrências que ainda acontecem são pontuais, e merecem outras medidas para saná-las. Quanto a outras demandas, a indústria turística da cidade tem duas principais: a melhoria e ampliação de nosso aeroporto internacional e o aumento da oferta de espaços para eventos na cidade”.
O Mar Hotel, em Recife (PE), hospedou os times do Uruguai e do Japão nas rodadas em que ocorreram jogos na Arena Pernambuco. Para essas delegações foram reservados três andares do hotel, totalizando 50 apartamentos, além de um piso de convenções para lazer, relaxamento e reuniões táticas. Para garantir os níveis de segurança exigidos pela Fifa foram instalados equipamentos de monitoramento (CFTV) em todas as áreas sociais e espaços de acesso de hóspedes; aumentaram em 20% a equipe de seguranças; e foi reforçado o treinamento de pessoal via Pronatec In Company, programa em parceria com o Ministério do Turismo, e o Acolher, treinamento voltado para atendimento, além da confecção de informativos de conscientização ao hóspede sobre questões de segurança.

“Recife é uma megalópole e, como qualquer cidade grande, possui dificuldades para regular a violência. Nos últimos três ou quatro anos, a situação têm mudado muito, e para melhor, com uma importante atuação do governo de Pernambuco, que está tomando importantes ações para atingirmos a plena tranquilidade no quesito segurança”, avalia o gerente de Vendas e Marketing da rede Pontes de Hotéis & Resorts, Sérgio Paraíso. “Estamos sempre à frente das inovações, e não apenas focados no fato de sediar a Copa das Confederações ou a Copa do Mundo, em 2014. O investimento em segurança previsto para os próximos três anos será de 2% do faturamento”, completa.

No Distrito Federal, o Batalhão de Choque da Polícia Militar foi reforçado com a aquisição de novos veículos blindados, usados inclusive no controle das manifestações ocorridas durante a Copa das Confederações. Os blindados são equipados com canhões de água e câmeras de monitoramento externo, pesam 18 toneladas e possuem capacidade para quatro mil litros de água. O motor, construído especificamente para o veículo, tem força de 440 cavalos e autonomia para transportar 21 policiais. O investimento foi de R$ 3,25 milhões.

Em Fortaleza, o secretário adjunto de Turismo do Ceará, Marcos Pompeu , destacou o incremento na atuação dos oito Centros de Atendimento ao Turista, que são chamados de ‘Casa do Turista’. Foram disponibilizados 35 mil guias em português, inglês e espanhol, e empregados 900 voluntários em todas as zonas de maior concentração da cidade. Segundo Pompeu, 5% dos ingressos para as partidas de Fortaleza foram vendidos para estrangeiros. “Estamos entre as cidades-sede que recebeu o maior número de visitantes de outros países”, informou.

A Accor, que tem hotéis em todas as cidades envolvidas nos mundiais – exceto Cuiabá (MT), realizou em maio um treinamento com 130 colaboradores, com a presença da liderança da rede no Brasil e América Latina e gerentes das unidades. Na ocasião foram definidas estratégias para os grandes eventos mundiais, incluindo possíveis impactos nas operações e necessidades de adaptações na segurança. O trabalho foi coordenado pelo gerente de Segurança e Riscos da Accor para a América Latina, Otávio Novo, com base em uma consultoria encomendada pela rede a uma empresa israelense, especialista no tema. “O trabalho é independente dos mundiais, envolve um projeto inédito no mercado visando ampliar os níveis de proteção e segurança de hóspedes e colaboradores e é preventivo, ou seja, nos leva a adotar procedimentos mais específicos e assertivos, de forma que possamos antever os riscos e, assim, evitá-los”, explica Novo.

São Paulo em alerta

Fora da Copa das Confederações, São Paulo vive um momento particularmente inquietante no campo da segurança pública. A ocorrência de assaltos em série a bares e restaurantes da capital – 70 este ano, até o fechamento da matéria -, evidenciaram uma real fragilidade e ineficiência do sistema. Vítima recente de um dos arrastões, Danielle Dahoui, chef e proprietária do restaurante Ruella, está dando voz e corpo a um movimento social ativista que já conta com a adesão de grupos de empresários, ong’s e da própria comunidade que, como ela, acredita que o momento pede ações, mais do que apenas a indignação da sociedade. “Medidas paliativas não resolverão nossas questões com a segurança pública, que têm problemas em sua própria base. Temos duas polícias (civil e militar) que não se apoiam, nem sequer conversam entre si. Falta equipamento, preparo, mas principalmente uma condição mais digna de trabalho a policiais mal remunerados e tão inseguros quanto a população, que precisam tirar a farda na volta para casa por medo da retaliação dos bandidos, e têm seus uniformes secos atrás da geladeira porque não podem pendurá-los no varal temendo pela segurança da casa e da família, por exemplo”, conta Danielle que já tem agendada a data de 7 de agosto para a primeira reunião com os governos municipal e estadual. “Até lá vamos atuar divididos em grupos de trabalho com a finalidade de identificar uma pauta de problemas e as possíveis soluções, utilizando também como base a experiência de movimentos semelhantes que já alcançaram êxito em grandes capitais do mundo. Há muito que ser feito e nosso trabalho está apenas começando”, conclui.

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