Resorts com golfe

Crise internacional estagnou projetos que apontavam o Brasil como nova bola da vez

Se por um lado a crise financeira que abalou grandes estruturas mundiais, marcadamente nos Estados Unidos e países da Europa em 2008, teve pouca influência sobre a economia brasileira, por outro deflagrou o processo que acabou por desequilibrar a balança comercial do País, que passou de um superávit que vinha sendo mantido há cinco anos para a situação de déficit, apresentada hoje.

Diante desse cenário, um dos setores mais impactados foi o de turismo e, consequentemente, de toda a cadeia produtiva de serviços em torno dele, como é o caso da hotelaria, especialmente a voltada ao público de lazer. Mais particularmente afetados foram os resorts, que viram a ocupação de hóspedes estrangeiros baixar de 40% para 10%, gerando um desequilíbrio que ainda hoje se tenta reverter. Diminuíram também assim as chances de viabilidade para novos negócios no segmento e alguns projetos acabaram engavetados.
Ricardo Mader Rodrigues, diretor da Jones Lang LaSalle Hotels – empresa especializada em serviços como estudos de viabilidade para investidores na indústria hoteleira – diz que essa realidade não é intrínseca ao Brasil. “De 2008 para cá houve uma queda na demanda pela construção de resorts em todo o mundo, à exceção dos que contemplam um projeto imobiliário”, afirma.

Antes da crise, no entanto, o Brasil viveu uma época de ouro para os resorts, que se apresentava como a ‘bola da vez’ para investimentos estrangeiros. Nessa esteira chegaram aqui grandes grupos internacionais e surgiram os primeiros projetos para a construção de megaresorts e a expansão dos empreendimentos já em operação com a instalação de novos equipamentos, entre os quais os campos de golfe despontavam como principal aposta, visando justamente o mercado internacional.

O CASE BAHIA

A rede Transamérica foi uma das primeiras a apostar no segmento ao incorporar um campo de golfe ao resort operado na ilha de Comandatuba (BA) desde 1987. A obra, entre projeto e construção, levou pouco mais de um ano até a inauguração do Comandatuba Ocean Course no ano 2000. “Havia na época uma aposta muito grande no mercado norte-americano, europeu e de alguns países da América Latina, como a Argentina, onde o golfe é muito difundido, além de uma expectativa de que também no Brasil houvesse uma difusão maior do esporte, o que não aconteceu”, afirma Heber Garrido, diretor de Marketing e Vendas do Transamérica Hospitality Group.
Mais do que uma aposta financeira, no entanto, a construção do campo para o Transamérica foi uma decisão estratégica. “Eu não imagino um resort de primeira linha sem um campo de golfe”, afirma Garrido. “Tanto assim que agregamos um minicampo com três buracos no Transamérica São Paulo”, completa o diretor que não descarta a possibilidade de um novo investimento do grupo com as mesmas características.

O doméstico, segundo o diretor, é hoje o principal mercado em Comandatuba e a ocupação do campo pelos hóspedes é de 10% a 15%, um número pequeno que a rede tenta compensar com a captação de eventos corporativos e a organização de torneios, próprios ou em parceria com as confederações, como alternativa para diluir os custos com a manutenção, que giram em torno de R$ 110 mil por mês. “Vale ressaltar que nesses custos estão consideradas as despesas operacionais, ou seja, incluem pessoal, utilidades e serviços (luz e telefone), material de consumo (escritório, impressos, peças de máquinas agrícolas, EPI e uniformes), os serviços de terceiros, como em publicidade e propaganda, além de impostos e taxas, gastos de combustível dos veículos e com o transportes dos funcionários”, explica Garrido.

O ano 2000 marcou também a inauguração do primeiro megacomplexo hoteleiro-turístico do Brasil, o Costa de Sauípe, agregando hotéis, pousadas, uma vila comercial com restaurantes e lojas, quadras de tênis, área náutica, centro equestre e o Sauípe Golf, que sozinho demandou investimentos da ordem de R$ 1 milhão para uma receita média mensal de R$ 30 mil. “A vantagem é que o campo nos coloca no cenário mundial pelo atrativo da atividade. Dependendo da estação do ano, temos em média 50 jogadores por semana”, afirma Cláudio Ribeiro Zulu, coordenador do golfe e dos centros esportivos. O público, segundo Zulu, também inclui moradores do Quintas do Sauípe, além de hóspedes e visitantes.

Quatro anos depois a oferta de resorts com campos de golfe na Bahia foi reforçada com a inauguração do Terravista Golf Course, em Trancoso, no ano de 2004. O custo inicial, envolvendo compra de máquinas e sistema de irrigação, foi superior a R$ 3 milhões, e outro R$ 1,5 milhão é gasto anualmente na manutenção e operação, o que inclui o emprego de 18 colaboradores dedicados ao campo. Um dos investidores é o empresário Michael Rumpf Gail, proprietário também de 50% do Club Med Trancoso.

Segundo o responsável pela operação do campo, Glauco Doebeli, o Terravista recebe jogadores de várias partes do Brasil – marcadamente de São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro -, e estrangeiros, principalmente da Europa (Suíça, Alemanha e Espanha) e da Argentina, hospedados não apenas no Club Med como também em outros hotéis e pousadas da região. “O campo representa um diferencial significativo para a rede hoteleira atrair o turista golfista, que geralmente se insere entre o público de mais alto padrão, além de eventos e ações voltadas ao público corporativo em períodos de baixa estação”, ressalta o diretor, que com essa movimentação afirma alcançar uma receita média anual R$ 1,1 milhão.

Entre os investidores internacionais atraídos pelo forte potencial do segmento e da Bahia, para projetos do gênero, à época, destaca-se o espanhol Iberostar, que chegou à Praia do Forte em 2007 – um ano antes da crise – com um projeto que integrava dois resorts cinco estrelas, spa, centro de convenções e também um campo de golfe. À área de dois milhões de metros quadrados em que se localiza esse complexo também é anunciada, para breve, a inserção de um empreendimento imobiliário residencial com centro comercial.

NOVOS INVESTIMENTOS

Fora do Nordeste, a oferta de resorts com campo de golfe é bastante limitada. Um dos mais antigos é o Iguassu Resort, em Foz do Iguaçu (PR), hoje agregado ao portfólio da GJP Hotéis. O resort já nasceu com um campo de golfe agregado ao projeto e ambos foram inaugurados em 1995. Neste momento ele passa por uma reformulação completa, com previsão de reabertura no início de 2014, mas sua utilização não foi totalmente interrompida, apenas limitada a nove buracos até a completa conclusão das obras. “O campo é uma ferramenta muito forte para a venda de nosso resort. Oferecer um produto como esse na região de Foz do Iguaçu é um diferencial muito importante, mas não queremos criar expectativas sobre a receita que ele irá gerar”, afirma Sean Corte Real, gerente de golfe do Iguassu Resort. “Nossa expectativa é receber entusiastas do golfe, entre os turistas que visitam Foz do Iguaçu, hóspedes do resort ou de outros hotéis, além de moradores. Ao fim das obras, também esperamos estar aptos a sediar eventos e torneios nacionais e internacionais”, completa.

Em Mogi das Cruzes, no interior paulista, além do mercado corporativo, outro público que mantém equilibrada a ocupação do Paradise Golf & Lake Resort é a colônia asiática, tradicionalmente aficionada pelo esporte. A média de ocupação é alta – são aproximadamente mil jogadores por mês, segundo a gerente de Marketing, Tatiana Alabarce, em sua maioria asiáticos do sexo masculino, com idade entre 35 e 70 anos, e oriundos da capital e outras cidades do interior. “Somos sede de muitos campeonatos e torneios realizados por diversas empresas e clubes de várias partes do Brasil”, afirma a gerente. Entre as vantagens agregadas ela cita a estrutura de apoio ao jogador, que encontra no mesmo espaço do campo opções de hospedagem, alimentação e outras atividades de lazer para ele e sua família.

Também no interior paulista, mais precisamente em São Roque, a apenas 40 minutos da capital, o proprietário do Villa Rossa, Altamiro O´Reilly, juntou-se aos sócios no Grupo Taxaquara, de que também é acionista, para viabilizar a construção do Clube de Golfe Vila da Mata, ao lado da área em que se localiza o hotel. No mês de junho, o empreendimento inaugurou a sede do driving range e uma área de treino. O campo, propriamente dito, estará pronto para uso pleno até o final do ano. “Iniciamos a construção do campo em 2007, quando começamos a implantar o projeto do arquiteto americano Randall Thompson, mas as obras foram paralisadas até que obtivéssemos as aprovações completas para o condomínio que também será construído na área, então as retomamos em maio de 2011”, conta O´Reilly.
Com o novo empreendimento, de acordo com o investidor, a expectativa é de o campo atraia hóspedes ao hotel e vice-versa. “O investimento total para a construção do campo e do condomínio é de R$ 60 milhões, sendo que R$ 30 milhões já foram viabilizados. O custo médio de manutenção, quando o campo estiver totalmente em funcionamento, será de R$ 60 mil mensais”.

A proximidade com a capital é uma vantagem competitiva, na opinião de O´Reilly. “O golfe atrai um consumidor de alto padrão. Como na capital paulista existem apenas três campos oficiais, todos fechados para sócios e convidados, o Clube de Golfe Vila da Mata será uma excelente opção para a prática do esporte em área próxima da cidade. Desde 2007 que nenhum campo é inaugurado em um raio de 40 minutos da capital”, informa. “Além disso temos uma ocupação muito alta do hotel ao longo do ano com convenções de empresas e o golfe será uma opção adicional de atividades para dinâmicas de grupo e hóspedes de lazer. Muitas pessoas se iniciam no esporte depois de terem tido contato com ele durante uma viagem de lazer ou a trabalho”, completa o empresário que espera um acréscimo de pelo menos 10% na ocupação do hotel com a atração de golfistas, especialmente na baixa temporada. “Geralmente os praticantes do esporte têm disponibilidade de se ausentar de suas ocupações ao longo do ano todo. Além de torneios das mais diversas modalidades existentes, também queremos estabelecer uma relação mais próxima com operadoras especializadas em turismo de golfe e em eventos corporativos”, completa.

A quase inexistência de projetos para a construção de resorts com essa configuração no Brasil justifica a avaliação do diretor da Jones Lang LaSalle Hotels. “O golfe ainda é um esporte muito restrito e levando em conta o custo da construção e manutenção dos campos, este não é um negócio viável considerando-se apenas o diferencial agregado à operação hoteleira. Em 20 anos, o número de golfistas no Brasil pode ter dobrado, mas sobre uma base que já era muito pequena. Enquanto não existirem campos públicos, esse mercado não crescerá significativamente”, conclui Ricardo Mader Rodrigues.

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