Projetos luminotécnicos

Como utilizar as luzes para compor ambientes

Escolhida de acordo com a ocasião e o ambiente, a iluminação pode ajudar na criação da imagem que um estabelecimento quer passar para o cliente, em especial na hotelaria. Feita de detalhes, a experiência da hospedagem pode ser destacada também através de projetos luminotécnicos, que promovem diferentes sensações, como conforto, intimidade, descontração etc. “A iluminação pode ser funcional ou determinar a leitura do ambiente e a função de um projeto luminotécnico é traçar um diálogo entre cliente, produto e arquitetura”, diz a projetista de iluminação, Jamille Tormann.

A iluminação influencia no jeito do homem agir e interagir no ambiente, como conta Jamille. “Certa vez, em um jantar de casamento, deixamos a luz em 100% e as pessoas falavam relativamente alto. Quando baixamos para 70%, quase que instantaneamente o ruído e o tom de voz das pessoas foram reduzidos. Assim, posso dizer que um projeto luminotécnico zela pelo aspecto emocional dos usuários do ambiente e pelas características culturais do lugar e deveria ser pensado em conjunto com o plano arquitetônico”, afirma a projetista.

Para deixar o ambiente mais aconchegante, segundo a designer de interiores Vanessa de Mani, pode-se utilizar a luz halógena amarelada. “Essas lâmpadas com facho direto dão uma nuance no ambiente e complementam a decoração”, diz. Já a luz direta, segundo a profissional, pode ser usada com sancas abertas de até dez centímetros centralizadas ou próximo à parede. “As cenas acontecem até mesmo com a iluminação convencional. O importante é não exagerar ou deixar falhas em alguns pontos. O projeto tem que ser pensado como um todo”, elucida Vanessa.

Antonio Carlos Bonfato, professor de hotelaria do Centro Universitário Senac – Campus Águas de São Pedro (SP), enfatiza que a iluminação é muito importante em todas as áreas de um hotel. “No caso das sociais e de uso dos hóspedes, ela pode valorizar ou não o ambiente. Tudo vai depender do que deve ser destacado. O foco da visão é direcionado a algo por meio da iluminação”, explica. Em outros locais, ela deve ser prática, fornecendo a luminosidade necessária para exercer a atividade com salubridade e segurança, como no caso das áreas administrativas.

Já em ambientes como centros de convenções e eventos, a prioridade, segundo o professor, é ter formas de iluminação variadas, fazendo com que o espaço seja adaptável a vários tipos de ocasiões, desde uma reunião de trabalho até um show musical. “Um projeto que priorize essa variedade e sua combinação é o ideal, além de ser uma vantagem competitiva na hora de vender um evento social ou corporativo a determinado cliente”, destaca Bonfato.

Os dormitórios pedem um tom mais quente ou neutro, convidando ao relaxamento e ao aconchego. Nos escritórios, o ambiente deve ser produtivo e agradável e o projeto de iluminação levar em consideração a individualização da luz, hoje disponível com sistemas que permitem escolher tonalidades e intensidade.

Em relação às áreas com televisão e banheiro, é recomendada atenção especial, uma vez que a luz não deve refletir no aparelho ou criar sombra durante maquiagem ou barba, por isso a escolha correta do item pode evitar alguns incômodos. “Em sala de TV, por exemplo, a luz não deve ser muito intensa para criar cenas adequadas e garantir mais conforto. Neste caso, o uso do dimmer é bastante aconselhável. Já no banheiro, o ideal é a utilização de lâmpadas dicroicas mescladas a fluorescentes”, ressalta Izabel Souki, diretora do escritório de Engenharia e Projetos que leva o seu nome.

Cuidado com as cores
Normalmente empregadas para a valorização de fachadas, da volumetria do edifício e da identidade visual do empreendimento, as lâmpadas coloridas devem ser utilizadas com extremo critério, pois o deslize pode gerar uma impressão contrária à pretendida. “Sempre oriento os meus alunos, arquitetos se especializando em iluminação, que estudem os significados das cores. Um projeto criado aqui no Brasil teria um significado totalmente diferente na China, por exemplo”, pontua Jamille Tormann.

Para Vanessa de Mani, a luz colorida não deve ser utilizada em todo o ambiente, exceto quando a proposta é diferenciada, já que ela tem o poder de deixar a decoração mais lúdica. “As cores podem ser usadas em locais onde há uma proposta mais descontraída, como brinquedotecas, salas infanto-juvenis, área de jardins, espaço para descanso e danceterias”.

A afirmação é endossada pela projetista de iluminação Jamille Tormann, que se preocupa com a forma como as cores têm sido utilizadas em monumentos e igrejas, descaracterizando seu apelo simbólico. “Estão fazendo uso das tecnologias de forma aleatória, sem planejamento, e transformando todas as fachadas e o espaço arquitetônico em um festival de cores. Isso é muito perigoso. Estamos vivendo um momento de abundância visual, mas, ao mesmo tempo, ficando mais cegos, sem saber para onde devemos olhar”, destaca.

Entrevista
Entrevistamos Valmir Perez, lighting designer do Laboratório de Iluminação do Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes Unicamp (SP) e autor do livro Luz e Arte – Um paralelo entre as ideias de grandes mestres da pintura e o design de iluminação, lançado no final de abril. Confira:

– Como a iluminação interfere no ambiente?
A iluminação no espaço construído é de fundamental importância. A luz é o veículo das sensações e percepções visuais. Nada pode ser reconhecido visualmente sem a presença de uma fonte luminosa, daí a importância dos cuidados com projetos de iluminação, tanto dos ambientes externos, quanto internos, inclusive nos espaços cênicos, públicos, rodovias etc.

– O tipo de iluminação é escolhido de acordo com a ocasião e o ambiente?
Um projeto de iluminação não é apenas escolher a fonte, instrumento, soluções tecnológicas ou luminárias corretas para um espaço. Envolve o estudo das características espaciais, históricas, conceituais, estéticas etc dos espaços.

– Como utilizar luz central, arandelas, colunas, abajures, spots?
Se um projetista de iluminação se pautar em receitas prontas, provavelmente cairá no mais perigoso dos erros, o de levar conceitos distorcidos para uma atividade extremamente aberta e complexa. Tendência é moda e moda não tem nada a ver com necessidade, ela é criada artificialmente para gerar consumo, enquanto projetos sérios de iluminação visam muito mais que apenas beleza e modismos de ocasião.

– O que muda com as políticas de sustentabilidade?
Por um lado, já está havendo uma mudança bastante significativa no quesito economia de energia. Arquitetos e projetistas de iluminação estão muito mais preocupados atualmente com aproveitamento da luz natural e isso é muito bom. Por outro lado, com a introdução, primeiramente das fontes fluorescentes e mais recentemente dos Leds, faz-se também necessária uma discussão mais ampla com a sociedade e, principalmente, com os projetistas e associações sobre os verdadeiros ganhos e vantagens das novas soluções.

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