Após quase um ano de pandemia do coronavírus, o cenário é instável em razão da crise econômica e de novas ondas de contaminação, que parecem nunca ter controle, ameaçando o futuro dos negócios e a manutenção dos empregos na hotelaria e turismo. Para traçar um panorama do setor, a Hotelnews conversou com especialistas de diferentes segmentos e traz um balanço do que devemos esperar em 2021.
Segundo a professora, pesquisadora e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, Mariana Aldrigui, este será mais um ano desafiador. “No ano passado ainda tivemos dias muito positivos, entre janeiro e março, mas já abrimos 2021 com perspectivas ruins e duas grandes sombras: a lentidão da vacinação e uma potencial crise econômica. O turismo, seja de lazer ou negócios, depende de disponibilidade de renda. Vale lembrar que as viagens corporativas já estavam ameaçadas pelo home office e agora existe a preocupação das empresas em expor funcionários à contaminação. Já o lazer depende da estabilidade financeira das famílias”.

Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), também observa dessa maneira a situação. “Será um ano muito difícil enquanto a vacina não estiver implementada por amplo espectro da população, principalmente da clientela para hotéis e restaurantes. Não temos precisão do timing porque além da falta de vacinas, o Brasil foi muito errático nessa postura de lidar, administrativamente, em termos de logística e postura, para os insumos”.

Alexandre Sampaio 
Orlando de Souza
Orlando de Souza, presidente executivo do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), reforça ainda mais a questão da vacinação em massa. “O cenário previsto para este primeiro semestre é muito negativo. A chave que poderá virar a atual situação dramática da hotelaria chama-se vacina. O ano de 2021 é o ano da vacinação, sendo melhor pensarmos em sobreviver a este ano e mirar a retomada em 2022”.
Já o sócio-diretor da HotelInvest, Pedro Cypriano, tem um olhar um pouco mais otimista. “À medida em que a população for imunizada, é natural que a recuperação de demanda se acentue, provavelmente com mais intensidade a partir do segundo semestre, quando pessoas com menos de 60 anos serão vacinadas em maior volume. Mas a qual patamar retornaremos? Essa é a grande dúvida, que depende principalmente de duas variáveis: 1) o controle da pandemia e velocidade de imunização da população; 2) o passivo fiscal e capacidade de crescimento econômico do País”.

Como referência para essa tese, destinos internacionais com sucesso nas duas variáveis, incluindo a China e os Emirados Árabes, já chegaram a um desempenho próximo ao período pré-pandemia. “No Brasil, ainda há muitas perguntas sem respostas claras, o que nos faz apostar em uma recuperação mais lenta este ano. Superar 45% de ocupação não será fácil para os principais destinos nacionais de negócio na média de 2021. E enquanto a tendência de recuperação não ganhar corpo, é natural que os investimentos em novos negócios sejam modestos no País, ao menos para os destinos urbanos”, avalia Cypriano.
Tendências em alta
Diferente da agenda de 2020, que era de conter a crise e sobreviver, a agenda deste ano inclui repensar o negócio e iniciar uma retomada para aqueles que ainda não começaram, é o que avalia Trícia Neves, sócia-diretora da Mapie Consultoria. Sobre quem levou a melhor ou a pior até agora, ela ressalta o mercado interno de lazer aquecido, o aluguel de residências cada vez mais forte e as viagens corporativas ainda incertas. O mercado de eventos, um dos mais prejudicados, está se transformando e lidando com um cenário bastante diferente, que tem como alternativa os eventos híbridos, ainda sem a presença de grupos grandes.
Nas palavras de Sampaio, não há muito o que fazer agora. “Além disso, não há condição de voltar à atividade corporativa enquanto as empresas estão protegendo os seus funcionários em home office, porque ainda não tem um imunizante que atenda toda a população mais economicamente jovem e ativa”.

A dica é criar forças e buscar novas possibilidades, sem ter como referência o pré-pandemia. “Este é um ano para melhorar a gestão, investir em deixar o negócio mais competitivo e eficiente para ser bem sucedido neste novo contexto. É preciso olhar para frente e entender o novo ambiente, evoluindo o negócio para novas realidades e desapegar dos números do passado, que não sabemos se um dia retornarão”, diz Trícia.
Entre os desafios para 2021, a executiva da Mapie fez uma lista de referência:
– Investir e realizar os avanços tecnológicos necessários, mesmo em meio à crise;
– Conseguir entender e se aproximar do seu propósito e manter o time engajado;
– Conduzir a mudança cultural necessária para pensar o negócio a partir da necessidade real dos clientes e não dos gestores;
– Dar ferramentas aos líderes para que se desenvolvam e estejam capacitados para dar suporte adequado aos times, além de tomar decisões em ambientes e contextos cada vez mais voláteis;
-Ter coragem para analisar e repensar o seu negócio, realizando as mudanças necessárias para se manter relevante.
Entre as tendências:
– A economia de baixo contato, acelerando ainda mais a adoção das tecnologias de auto-serviço no turismo;
– As viagens sem rótulos, quando os viajantes misturam viagens a trabalho com lazer e precisam de soluções diversas em suas hospedagens;
– Uma busca maior por ambientes de natureza, que tragam bem-estar e equilíbrio em meio ao stress destes anos intensos;
– Empresas mais humanizadas, conectadas com as necessidades dos seus clientes, colaboradores e outras redes de conexão.
Viagens de luxo
Enquanto isso, o segmento de luxo e hotéis boutique já trabalha com boas diárias médias e ocupações, mas os demais encaram uma nova realidade, com novos volumes de vendas e preços. Mas sobre a chegada de turistas internacionais ao Brasil, Simone Scorsato, diretora executiva da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), ainda vê um sumiço desse público. “Esta ausência de estrangeiros é algo que deve permanecer pelo menos nos seis primeiros meses do ano, com movimentos tímidos”.

Para ela, os tipos de viagens mais populares em 2021 incluem turismo de isolamento, itinerários com mais tempo no destino, na companhia de familiares, amigos ou pequenos grupos. “No nosso segmento, o luxo tem o papel de transformar as viagens em momentos raros”. Simone pede também que se mantenha a conscientização envolvendo normas de saúde, já que a pandemia ainda não acabou. “Precisamos fazer com que as pessoas entendam que os protocolos ainda são necessários, independente do início da imunização”.




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