Diretoria do Global ReformBnB, autoridades locais e o prefeito de Kyoto, Sr. Daisaku Kadokawa
O ReformBNB, movimento de associações hoteleiras de diversas partes do planeta, nasceu em Nova Iorque, passou por Barcelona e viajou para Buenos Aires, onde tomou corpo e se transformou no Global ReformBnB. Foi quando veio a pandemia, em 2020, e muitos encontros virtuais aconteceram até que, em maio desse ano, o evento desembarcou em Paris.
Mais recentemente, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro, a primeira capital da terra do sol nascente, Kyoto, foi a anfitriã, por meio de sua representante AJRA – All Japan Ryokan Hotel Association Junior. O encontro recebeu hoteleiros de todas as partes do globo, mas, dessa vez, o foco foi muito dirigido à Ásia e à Oceania. A hotelnews acompanha de perto esse movimento desde Barcelona, em 2018.
Associações de aproximadamente 20 países participaram presencialmente, principalmente de destinos asiáticos e da Oceania, como China, Hong Kong, Coréia do Sul, Camboja, Austrália e Nova Zelândia. Outras 250 pessoas, representando associações de 35 países, acompanharam virtualmente os debates, que trataram de assuntos-chaves da hotelaria e do turismo internacional.

Regras pelo mundo
O que no Brasil tende a ser um assunto morno, como apontam alguns consultores – onde pesquisas patrocinadas mostram que o modelo impacta pouco na ocupação da hotelaria tradicional -, pelo mundo a preocupação já é bem alta. A movimentação e a organização para encontrar fórmulas que atendam às demandas locais para regulamentar o modelo é grande.
Em momento algum se ouve falar em proibição como alguns erroneamente comparam esse movimento à guerra que aconteceu entre taxistas e a Uber, o que se pede é apenas isonomia. Mas, já encontramos locais onde existem altas multas para quem não registra sua propriedade, como em Hong Kong e Paris. Em Amsterdam, na Holanda, o proprietário pode locar apenas 60 dias por ano, desde que registrado; em Las Vegas, no estado de Nevada, Estados Unidos, até a polícia pode ser acionada para retirar o hóspede de uma locação ilegal.
Segurança
Da Argentina ao Canadá, da Inglaterra à Hong Kong, da África do Sul à Dinamarca, os temas debatidos são os mesmos, e sempre começam pela segurança do modelo. Qual a segurança que um STR oferece ao seu hóspede? Em caso de urgência ou emergência, a quem recorrer? Quais as exigências contra incêndio? Quem se lembra do caso em que uma família brasileira morreu intoxicada no Chile, em maio de 2019, com o gás encanado, por não dominar o manuseio?
STR e o plano diretor dos municípios
No Brasil, algumas cidades passaram a oferecer em seu plano diretor o benefício de transformar prédios residenciais em uso misto (o que se chama R de residencial e NR de não residencial), assim, muitos lugares começaram a oferecer uma série de benesses às construtoras para, em tese, ofertar à população acesso à moradia em regiões mais urbanizadas e com menos dependência de transporte público.
Além disso, disponibilizava maior revitalização do entorno de onde esses prédios nascem, incluindo no plano diretor a fachada ativa (quando a fachada do edifício oferece algum serviço integrado ao passeio público). Isso também ainda não é uma realidade total. Andando pelas ruas podemos testemunhar dezenas de imóveis com essa proposta disponíveis para locação/venda, causando até um efeito reverso. Espaços sem vida e pouco iluminados.
O resultado dessas iniciativas, se usarmos a cidade de São Paulo como exemplo, está fomentando uma disparada quase que descontrolada do modelo de micro apartamentos. O mercado imobiliário vem sendo agressivo na venda das unidades e seus corretores abusam do apelo da renda que pode gerar com a aquisição, já que as unidades estarão preparadas para receber hóspedes no modelo STR.
Alguns projetos inicialmente garantem receita durante o período da obra e no estudo de viabilidade – muitos deles assinados por conhecidos e tradicionais consultores do mercado -, garantem uma ocupação não inferior a 80% (sendo que a ocupação da cidade com o atual inventário beira 70%). A ousadia é tamanha que em um caso o corretor sugeriu que fizesse uma captação bancária, que, segundo ele, somente com a receita gerada pela locação, seria possível pagar a parcela do imóvel.
Questões globais respostas locais
Voltando ao cenário apresentado no Global ReformBnB, em Kyoto, Bruno Bentley, consultor financeiro internacional e membro da Associação de Hotéis de Paris, apresentou alguns questionamentos para reflexão:
– O STR está realmente criando um novo turismo ou está apenas mudando turistas de hotéis para os STRs?
– O crescimento do turismo está eliminando outras formas de atividades econômicas, livrando-se dos moradores?
– Qual o tamanho das externalities negativas que vem de tudo isso (o mais importante sendo a inflação dos aluguéis, perturbação pública etc)
– Isso está interferindo na urbanização e no turismo? Planejamento de uma região, por exemplo, trazendo de longe mais turistas para uma área do que o desejável?
– Quais impostos são perdidos quando os hotéis fecham? Mesmo que não feche, são eles realmente substituídos pela receita do STR?
– Quais e como são os benefícios e os custos das atividades do STR distribuídos na comunidade?

Com esse questionamento provocativo, sugiro que os hoteleiros e suas associações percebam o advento do modelo de aluguel de curta duração como um real player e, assim sendo, trate-o com a atenção merecida para depois não ter que correr atrás também desta questão.

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