Coleta de invertebrados na caverna Furna Feia, em BaraúnaRN (Parque Nacional da Furna Feia) – Foto Diego Bento
O Plano de Ação Nacional para a Conservação do Patrimônio Espeleológico (PAN Cavernas do Brasil) vem desenvolvendo pesquisas com foco na redução dos impactos do turismo espeleológico no Brasil, que possui 30 mil cavernas registradas e um potencial estimado para ultrapassar 300 mil. O objetivo é subsidiar a definição de áreas que poderão ser abertas ou restritas à visitação, de forma a conciliar o uso público com a conservação sustentável das cavernas turísticas.
Segundo Marconi Sousa Silva, professor e pesquisador do Centro de Estudos em Biologia Subterrânea da Universidade Federal de Lavras (CEBS/UFLA), em Minas Gerais, e articulador dessa ação no PAN Cavernas do Brasil, “as alterações e usos antrópicos frequentes sem o devido plano de manejo em cavernas podem causar um desequilíbrio irreversível. Diversos estudos, tanto no Brasil quanto em outros países, avaliaram os efeitos de alterações antrópicas e constataram mudanças na temperatura, na umidade e na quantidade de CO₂, além do pisoteio e a compactação de sedimentos”.
De acordo com o professor, essas alterações provocam estresse na fauna cavernícola, especialmente em invertebrados troglóbios, que existem exclusivamente nesse tipo de ambiente. Além disso, diversos estudos têm constatado a introdução de matéria orgânica estranha às cavernas, como o desenvolvimento de fungos e de biofilmes fotossintéticos associados ao uso de iluminação artificial. Esses processos podem causar danos aos espeleotemas, formações que levam dezenas, e até centenas de anos para se constituírem.

Sobre a metodologia
A mensuração de parâmetros microclimáticos, como concentração de CO₂, temperatura e umidade, é uma das etapas dessa análise. Esses elementos são bastante sensíveis à presença humana e funcionam como indicadores diretos de alterações no ambiente cavernícola. “Esses dados podem ser obtidos por meio de sensores automáticos, registradores contínuos ou medições pontuais realizadas durante as campanhas de campo”, explica Marconi.
Também são aplicadas técnicas de amostragem padronizada da fauna, com foco na caracterização dos microhabitats e da estrutura física das cavernas. Além disso, são realizadas análises da diversidade de espécies, que permitem identificar mudanças na composição biológica ao longo do tempo ou entre diferentes setores da caverna, auxiliando na detecção de substituições de espécies e na avaliação de possíveis impactos associados à visitação. O estudo também avalia de que forma a estrutura dos microhabitats no piso da caverna, especialmente a granulometria do sedimento, pode atenuar os impactos do pisoteamento, sobretudo para os invertebrados de baixa mobilidade.
O passo a passo da primeira expedição
O analista ambiental e coordenador da Base Avançada do ICMBio/Cecav no Rio Grande do Norte, Diego Bento, explica que de forma experimental os pesquisadores delimitaram vários pontos amostrais nas áreas visitáveis e em áreas adjacentes. Todos esses pontos foram amostrados antes e após quatro dias de visitações simuladas, quando foram observados a riqueza e abundância de espécies de invertebrados cavernícolas. Também foram coletados dados microclimáticos e outras informações relacionadas aos microhabitats presentes em cada ponto amostral.
As visitações foram realizadas com cerca de 45 pessoas por dia, que percorreram toda a extensão visitável da caverna e retornaram pelo mesmo trajeto, simulando o que seria o impacto de 90 pessoas entrado na caverna pela entrada principal e saindo por uma claraboia próxima ao final da caverna (situação que representaria a capacidade de carga máxima da caverna).
“A hipótese com que trabalhamos é que a visitação faça com que os animais saiam da área visitada e passem para áreas não visitadas, mesmo que esses espaços sejam próximos. Além disso, há a hipótese de que não haverá diminuição da riqueza geral da caverna nem da abundância. O que deve acontecer é uma migração da fauna”. De acordo com o analista ambiental, a ideia é verificar se os impactos do turismo ficam dentro do que é considerado ‘aceitável’.
“A Furna Feia é uma caverna que ainda não recebe visitação, então estamos conseguindo realizar todo esse trabalho antes da chegada dos turistas. Isso é algo que, na maioria das cavernas do Brasil, não é possível. Geralmente, elas primeiro passam a receber visitação e só depois vêm as pesquisas para tentar regularizar a situação”, explicou Diego.

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