Japão – Um ano após o tsunami

POR CHIEKO AOKI

Perto de completar um ano do abalo sofrido após a passagem de um terremoto seguido de tsunami, o Japão já dá sinais de recuperação. Reinventando-se a cada dia, o país está dando ao mundo um exemplo do que é possível fazer com apoio da população e a solidariedade de países vizinhos.

O impacto da tragédia natural e os danos causados pela usina nuclear foi tremendo e a dimensão dos prejuízos era um dado incerto até mesmo para os próprios japoneses. Diversos países tomaram medidas de evacuação de diplomatas e funcionários pelos riscos da radiação, assim como enviaram alertas para que ninguém viajasse ao Japão. Logo no inicio, houve casos em que aviões chegaram a pousar e em seguida decolaram de volta, com medo de uma possível contaminação. Hotéis estavam vazios, com zero de ocupação estrangeira. Visitei um hotel cinco estrelas duas semanas após o terremoto e foi muito triste ver o lobby vazio e também escuro, devido ao controle de gasto de energia que perdurou pelos primeiros seis meses.

Segundo dados do turismo local, no pior momento, o cancelamento das reservas de viagens chegou a 90% e se manteve na casa dos 75% ao longo de todo o mês de março do ano passado. Aos poucos a situação foi se normalizando, com os eventos voltando a acontecer, mas esse movimento de recuperação levou praticamente oito meses, boa parte dos quais passados em estado de luto em todo o país. Hotéis e restaurantes de luxo sofreram grande impacto com o acidente.

Dados da Jones Lang apontam que 2011 fechou com queda de 38% no Revpar dos hotéis cinco estrelas. No geral, o declínio na ocupação dos hotéis japoneses chegou a 45% nos primeiros meses do ano. Mas estes números estão sendo melhorados, graças aos estrangeiros que viajam a negócios e à própria população local, que por solidariedade está dando preferência às viagens domésticas. Nestas horas, vemos como a união e os laços sentimentais são importantes para a recuperação consciente do turismo.

Exemplo dessa solidariedade ante os primeiros impactos do desastre veio do famoso hotel cinco estrelas Grand Prince Hotel, no bairro de Akasaka, que planejava encerrar as atividades no dia 31 de março, mas seguiu em operação até o final de julho, cedendo suas instalações para a hospedagem de até 700 famílias das cidades atingidas.

SUPERAÇÃO

O pior inimigo é aquele que é invisível e pouco conhecido, como é o caso da radiação nuclear. O governo japonês anuncia diariamente como a situação está sendo controlada em todo o país e seus eventuais efeitos na produção agrícola, no gado e na atmosfera. Apesar da garantia da segurança tecnicamente comprovada, no entanto, muitos turistas continuam evitando viajar ao Japão. Por outro lado, existem relatos comoventes, como por exemplo de estudantes de Taiwan e da Coréia que formaram grupos de visita ao país poucos meses após o terremoto, como forma de avaliarem e comprovarem os níveis de segurança do turismo japonês e, dessa forma, incentivarem seus compatriotas. Apesar destes esforços, as viagens a lazer continuam abaixo dos anos anteriores e espera-se uma recuperação apenas entre este e o próximo ano.

Em contrapartida, as viagens corporativas, especialmente com viajantes domésticos, estão aumentando bastante por conta da movimentação de negócios com obras e atividades de retomada do país pós-terremoto. A recuperação ainda é parcial porque as empresas estão apertando as despesas devido às perdas de 2011, mas as festas de casamento, por exemplo, recuperaram o ritmo e têm mantido uma boa ocupação para os espaços de eventos.
Quando fui visitar um conhecido meu de muitos anos que está à frente do Tokyo Disney Resort, a ocupação em todos os hotéis estava baixíssima, mas hoje eles estão conseguindo, gradualmente, recuperar a movimentação, graças aos turistas domésticos e a alguns estrangeiros, principalmente de países da Ásia.

Como disse antes, a perspectiva de recuperação na ocupação e no Revpar dos hotéis aos níveis anteriores ao terremoto é para os próximos dois anos, dependendo certamente da confiança na segurança dos controles da radiação, no que o governo está totalmente empenhado, juntamente com as ações de recuperação das cidades atingidas pelo terremoto. Isso tem fomentado e continuará fomentando a economia do país com a reconstrução de estradas, casas e a infraestrutura de urbanização, cujos danos, calcula-se, chega, ainda segundo Jones Lang, à ordem de US$ 190 a 300 bilhões, significando que valores próximos a estes deverão ser gastos ao longo dos proximos anos em obras de reconstrução, o que, consequentemente, vai gerar mais negócios, mais viagens, mais eventos.

AÇÕES EFETIVAS

Para citar algumas das ações tomadas com vistas, especificamente, à revitalização do turismo, os órgãos do governo e entidades privadas têm trabalhado intensamente na divulgação da segurança no controle das radiações nucleares, bem como na promoção de melhores condições nos preços e maior atratividade nos entretenimentos e na gastronomia, que é um dos pontos fortes do turismo japonês. Existem diversas campanhas para incentivar o turismo doméstico, divulgando cidades com programas de gastronomia regionais, apresentação igualmente na TV de cidades e seus hotéis, principalmente aqueles que possuem águas termais, uma opção verdadeiramente adorada pelos japoneses.

Diariamente são veiculados programas nos diversos canais de TV exibindo astros famosos visitando e apresentando as cidades e dando dicas especiais. Cidades inteiras estão se reinventando para atrair turistas, o que tem resultado em invocações sob todos os aspectos. Uma amiga minha, brasileira, por exemplo, foi passar cinco dias do ano novo em uma cidade próxima ao Monte Fuji, para curtir as águas termais e também os diferentes sons dos sinos dos templos, programa que a cidade reinventou, organizou e tem atraído muitos turistas.
A Blue Tree e eu, pessoalmente, temos participado de ações de solidariedade. Logo após o acidente, as equipes dos hotéis da rede participaram da campanha “Abraço Dobrado”, fazendo cegonhas em dobradura de papel para envio às comunidades flageladas. Segundo a crença japonesa, mil cegonhas atraem felicidade e a realização dos desejos. E este ano participaremos de um evento organizado pelo governo japonês, em São Paulo, em agradecimento ao apoio recebido do povo brasileiro. Ainda não posso divulgar detalhes, apenas antecipar que o evento acontecerá exatamente na data em que ocorreu o terremoto.

Chieko Aoki atua em hotelaria há mais de 25 anos, é fundadora e presidente do Grupo Chieko Aoki, composto pelas redes Blue Tree Hotels, Spotlight Hotels e Noah Gastronomia.

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