Hotéis que vão além do conceito pet friendly

O Brasil já é o segundo principal mercado pet do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos. De acordo com dados do Instituto Pet Brasil, o varejo pet nacional movimentou R$ 34,4 bilhões em 2018 – alta de 4,6% em relação ao ano anterior -, e os números não param de crescer. De acordo com a entidade, o gasto médio mensal com um cão supera os R$ 300; isso se o bichinho tiver uma rotina simples, sem atividades extras.

De olho nesse segmento, os meios de hospedagem estão cada vez mais atentos às demandas pet friendly, que representam um grande e interessante nicho. “Esse certamente já é um mercado consolidado no Brasil. Quem não se adequar para receber esse público estará perdendo uma boa fatia do mercado”, diz Larissa Rios, Turismóloga e fundadora do Turismo 4 Patas, primeiro guia online focado no segmento de ‘turismo animal’.

Mas, afinal, o que é pet friendly? Segundo Larissa Rios, a expressão significa, em tradução literal, ‘amigo dos animais’; portanto, um estabelecimento que recebe animais em seu espaço já é automaticamente considerado pet friendly sem necessariamente ser obrigado a oferecer condições ou estruturas específicas.

“No entanto, é óbvio que existe uma necessidade mínima de adequação; afinal de contas, não podemos nos esquecer de que a maioria dos hotéis pet friendly não é exclusiva para bichos. Cada estabelecimento pode estipular as suas regras e políticas dentro daquilo que pode e quer oferecer. Não existe uma regulamentação no mercado para padronizar esse segmento”, explica a especialista.

Presenças mais do que especiais

Em muitos países é possível encontrar hotéis que vão muito além do conceito ‘amigo dos animais’ e que oferecem grandes mordomias aos bichos. Alguns são tão engajados que incluíram mascotes no dia a dia da operação, e, como é difícil resistir à doçura de um cachorro brincalhão ou à perspicácia de um gatinho, os bichinhos se transformaram em verdadeiros ícones dos locais, auxiliando, inclusive, na promoção do empreendimento.
É o caso do Buster, cão da raça Morkie que ostenta o título de diretor operacional canino do hotel Nikko San Francisco, na Califórnia (EUA).

O simpático peludo ilustra o site, as redes sociais e até um livro repleto de fotos e dicas de locais icônicos para os visitantes. “Buster chegou ao hotel em 2015 como um grande amigo do nosso gerente geral. A partir de então incorporamos o conceito dog friendly em nosso empreendimento, que hoje é um dos mais receptivos da cidade”, conta Dani Ortega, diretora de Marketing da unidade.

A rotina do bichinho começa às 8h30. “Ele cumprimenta nossa equipe com muitos beijos de cachorro e faz um passeio pelo hotel”, explica Dani. Os hóspedes podem solicitar a presença do diretor operacional canino em horários programados. No quinto andar do prédio há um espaço projetado especialmente para ele.

No Brasil, o Jobim – um pastor australiano de três anos – é o responsável pela recepção do Novo Hamburgo Business Hotel (RS). Alegre e obediente, o cãozinho foi um presente da proprietária do hotel, Margarete Morsch, ao filho, que levava o animal diariamente para o empreendimento. “Eu percebi que o cachorro tinha um comportamento especial com os clientes e decidi criar uma função para ele”, diz.

Assim, Jobim passou a recepcionar os hóspedes e auxiliar nas campanhas de Marketing do hotel. “Aproveitamos que os clientes adoravam tirar fotos com ele e criamos uma promoção nas redes sociais. As pessoas postavam selfies com nossa estrela e no final do trimestre concorriam a uma hospedagem em nossa suíte principal”, finaliza.

Cuidadosamente escolhido pela gerência do Le Bristol Paris por ser gentil e sociável, o gato da raça Birman chamado Fa-Raon chegou ao hotel da Oetker Collection em novembro de 2010 e conquistou adultos e crianças. O bichinho é frequentemente protagonista de vídeos e fotos divulgados nas redes sociais do empreendimento e é muito comum encontrá-lo no balcão do concierge, no saguão e pelo jardim.

Segundo Jean-Marie Burlet, chefe do setor de Relacionamento com os Hóspedes do Le Bristol, o hotel é pet friendly desde a sua abertura, em 1925. Hoje ele é reconhecido como o ‘Palácio com um gato’, “ou talvez seja mais preciso dizer que o Fa-Raon é o gato com o seu próprio palácio”, brinca. “Ele não sai do hotel, mas gosta mesmo é de ficar no jardim. Adora ser abraçado, brincar com as crianças e com as flores do saguão”, completa.

Anos após a chegada de Fa-Raon, o hotel decidiu dar uma companhia para o bichano e adotou uma gatinha batizada de Kléopatre. Por algum tempo os dois dividiram as atenções dos visitantes, mas o bom relacionamento não durou muito, tanto que a gatinha precisou se mudar para o hotel alemão da mesma rede, o Brenners Park Hotel & Spa, que se tornou a sua nova morada. Kléo pode ser vista em fotos e vídeos espalhados pelas redes sociais e também pelos corredores do hotel.

Outra unidade da rede que adotou um bichano foi o The Lanesborough, em Londres. De acordo com Tom Bates, diretor de Comunicação do empreendimento, Lilibet é uma gatinha da raça Siberian Forest que chegou bem novinha e foi descobrindo a vida hoteleira pouco a pouco. “Como uma boa gata, ela gosta de dormir em praticamente todo lugar”, diverte-se Tom. “É brincalhona e interage muito com funcionários e hóspedes. Tornou-se conhecida rapidamente, especialmente entre os seguidores das nossas mídias sociais, que acompanham seus passeios pelo hotel”, completa.


Já o Amazon EcoPark Jungle Lodge (AM) foi adotado por um bicho muito especial: uma arara vermelha, que, apesar de estar sempre entre os funcionários e hóspedes, não é lá muito amigável. “Lauro fica sempre por aqui. Ele é apaixonado por uma de nossas camareiras. Todas os dias dá um rasante no restaurante durante o café da manhã para que os hóspedes tirem fotos”, diz Marcia Riedel, responsável por Vendas e Marketing da unidade.

A profissional conta que a arara chegou ao hotel há 20 anos, quando alguns animais resgatados do comércio ilegal foram soltos na região por órgãos governamentais. “Outras espécimes também viviam por aqui, mas foram tomando seus rumos. Ficou apenas Lauro, que, apesar de ser livre, gosta de dormir em uma viga alta da recepção e ficar próximo à área da governança durante o dia”, observa Marcia, que afirma que o hotel só não é pet friendly pela localização. “Como estamos no meio da floresta, não temos como cuidar dos animais de estimação dos hóspedes, que estão propícios a picadas de cobra ou ataques de jacarés”, esclarece.

O que é preciso para ser pet friendly?

Larissa Rios, da Turismo 4 Patas, defende que os empresários precisam se atentar a alguns pontos importantes para receber animais, como o tamanho dos quartos oferecidos, que precisam acomodar bem o porte do animal. “Seria apropriado também dispor de um espaço, como um gramado, para que os bichos possam gastar energia e fazer as suas necessidades. E, se possível, um local externo no restaurante para que acompanhem seus tutores durante as refeições”, ensina.

Para a turismóloga, esses são os critérios básicos que auxiliam os tutores a suprirem as necessidades essenciais de seus animais, “mas, dependendo do orçamento, espaço e interesse, o hotel pode oferecer desde playgrounds até mesmo piscinas”, complementa.

Já na visão de Cléber Santos, proprietário do Comportpet – Centro de Treinamento Canino (SP), é indispensável dispor de espaços adequados para práticas de atividade e para o descanso. “É importante que haja um local aberto e totalmente adaptado para que possam correr, brincar, nadar e se divertir sem o risco de se machucar”, orienta.

Caso não seja possível, como acontece em hotéis de grandes cidades, que não possuem áreas externas, o consultor diz que o empreendimento pode limitar o porte dos animais e adaptar uma sala fechada para a recreação, apesar do cheiro não ser muito agradável. “Acredito que a maioria dos hotéis disponha, pelo menos, de um gramado pequeno que possa ser utilizado”.

Sobre os serviços de dog walker, que também poderiam ser oferecidos, Santos acredita que não seja vantajoso pelos riscos que a prática apresenta. “Primeiro que o local vai precisar ter um funcionário fixo e de confiança que tenha treinamento para isso. Depois, não são todos os hóspedes que confiam em desconhecidos passeando com seus bichos pelas ruas. O animal pode ser roubado ou se soltar da guia e acontecer um acidente. É um risco muito grande”, considera.

O Unique, na capital paulista, recebe bichinhos desde a sua abertura, em 2002. A unidade hospeda apenas animais de pequeno porte, pois são os que ficam mais confortáveis nos quartos, como conta a gerente de hospedagem Fabíola Akissue Carezzato. “Os cachorros são os mais frequentes. Poderia dizer que representam 80% dos nossos hóspedes-pet. Os outros 20% são gatos; mas já hospedamos até um papagaio”, conta.

Fabíola diz que todos os animais recebem caminha, lençóis, tapete, comedor, bebedor e fralda higiênica. “A diferença é que oferecemos um brinquedo para os cães e um arranhador para os gatos”, explica a gerente, para quem um dos grandes desafios de ser pet friendly na cidade é a falta de locais adequados para os animais passearem. “Outra questão é a proibição de pets em restaurantes fechados. Assim, os donos precisam escolher um local com área externa caso queiram a companhia dos seus ‘amigos’ durante as refeições”.

Apesar de estar encrustado no meio da metrópole, o Grand Hyatt São Paulo oferece conforto e diversão aos hóspedes de quatro patas, que são recebidos com amenidades especiais no apartamento: caminha, bebedouro, comedouro; além de guloseimas, como pipoca e cerveja feitos especialmente para eles, como conta a coordenadora de Marketing do hotel, Carolina Caleiro. “Somos Pet Lovers desde o início de nossas operações, em 2014. Recebemos cachorros, gatos, aves, furões, hamsters e chinchilas. Em torno de 15 bichinhos todos os meses. A maioria cachorros, seguido de aves – como casais de papagaios – e depois os gatos”, pontua.

Carolina diz que além dos mimos no quarto, os pet-hóspedes têm à disposição um programa de fidelidade oferecido logo no check-in. “Trata-se de um Registro Pet com nome, raça e idade. A cada cinco hospedagens, o tutor ganha isenção da taxa de limpeza e a cada 10 estadias é presenteado com uma caminha personalizada do hotel”, explica.

A unidade oferece, ainda, tag de porta que sinaliza se há animais no apartamento (e se eles querem ou não receber visitas), o que auxilia a equipe na hora da limpeza; carta de boas-vindas com as condições do programa e dicas de locais pet-friendly próximos ao hotel; além de pet station com água na entrada da unidade; espaço externo no restaurante Kinu; e o Parcão, uma área para que possam brincar soltos. “Conseguimos adaptar todo o hotel para receber bem os bichinhos e temos tido muita procura”, afirma Carolina Caleiro.

Segurança para todos

Pensar na segurança do animal é outro ponto fundamental, como explica Cléber Santos. Segundo o especialista, é preciso fazer algumas adaptações para receber qualquer tipo de bicho, como melhorar os portões, cobrir tomadas e reforçar a atenção em locais em que eles possam se machucar ou até mesmo fugir. 

“No caso de hotéis que aceitam gatos, o empreendimento deveria disponibilizar redes de proteção nas janelas e orientar as ações dos funcionários, em especial das camareiras, que precisam saber como entrar no quarto com pet e cuidar para que o animal não fuja enquanto realiza a limpeza”, explica o consultor, que ministra esse tipo de treinamento em hotéis de todo o Brasil.

Para a diretora da hotelnews, Alessandra Leite, que já se hospedou em alguns hotéis com os seus gatos, é muito importante que o empreendimento se preocupe em conhecer os costumes dos bichanos e que disponibilize uma caixa higiênica de bom tamanho. “Com os modelos menores os gatos podem jogar areia para fora da caixa e deixar uma bagunça no quarto”, explica.

Alessandra ressalta ainda que, se o hotel quiser oferecer a areia, é interessante que ele se informe sobre a marca que o hóspede costuma utilizar em casa. “Parece bobeira, mas os gatos são muito metódicos e, com esse tipo de mudança, eles podem fazer as necessidades no lugar errado”, explica.

Entretenimento constante

Além das precauções com a segurança dos bichos, Cléber Santos diz ser interessante estabelecer um cronograma de atividades para que o animal possa se exercitar e se divertir. “Minhas sugestões são as gincanas com bolinhas, gelo ou frutas e, quando possível, passeios ao ar livre e brincadeiras na água”.

Com o intuito de oferecer esse tipo de estrutura para os pets, Cléber uniu-se a Fernando Hernandez Jr., diretor na Surya-Pan Hotel e Eventos (SP), e transformou o empreendimento no que eles chamam de primeiro hotel 100% pet friendly do Brasil.

De acordo com o especialista, o local proporciona programações na piscina, brincadeiras, passeios pelas trilhas em três modalidades, recreação no lago e em pequenas cachoeiras. “Além disso, há workshops e palestras sobre pets e comportamento animal para instruir ainda mais os tutores”.

Diferentemente do que muitos podem pensar, não é tão difícil implementar melhorias para agradar os hóspedes com animais de estimação. Na pousada Ronco do Bugio (SP), por exemplo, foi um processo natural. “Na época em que construímos a pousada, esse conceito de pet friendly nem estava em voga. Certa vez, um hóspede gostou da pousada e queria voltar; porém, a família tinha aumentado e ele queria incluir o Fritz, um Schnauzer, na programação. Ele foi o nosso primeiro hóspede pet”, conta Gabriela Majolo, sócia-proprietária da pousada.

Assim, com o interesse crescente, Gabriela foi adaptando a rotina, os serviços e a estrutura para receber os bichinhos, que hoje ganham um kit próprio com toalha, banheirinha, potes para ração e água, além de outros muitos mimos, e têm uma piscina de água natural exclusiva. “Junto aos donos e na guia, podem circular por quase toda pousada, incluindo as áreas específicas de refeição”, explica.

Hoje, a pousada aceita todos os tipos de animais e já hospedou gato, coelho, periquito, papagaio, furão, iguana e até um canário. Não há atividades exclusivas para os pets, pois a ideia é que eles fiquem o tempo todo com seus donos e aproveitem a propriedade. “Hospedamos uma média de 20 animais todos os meses, sendo que, em alguns períodos, praticamente todas as suítes destinadas a esse público ficam ocupadas”, completa Gabriela.

O Unique Garden, em Mairiporã (SP), também recebe todos os tipos de animais (exceto aves) desde a sua inauguração, mas a política pet é focada em cachorros, uma vez que o empreendimento não possui redes de proteção. O local atende cerca de 30 pets todos os meses e oferece mimos já na chegada. “Os bichinhos são recebidos com um biscoito de banana e aveia feito especialmente pela nossa equipe”, explica Elenice Pereira, coordenadora de Operações do hotel.

A profissional conta que todos ganham um pet kit contendo caminha com lençol e manta, comedouro, bebedouro e tapete higiênico. E, para que possam aproveitar mais momentos na companhia de seus donos, eles são aceitos em alguns chalés mediante taxa de R$250,00 por pet. “Para que os animais possam se exercitar, o hotel construiu um playground exclusivo todo gramado, com quiosque de descanso e uma piscina para mergulho”, completa.

Já a Pousada Gaia Viva (SP) tem como foco o cachorro, e costuma se apresentar como uma pousada para cães que aceita humanos. Konrad Bruch, proprietário do local, conta que a ideia de ter um hotel pet friendly nasceu aos poucos, com apenas um quarto. “Hoje estamos com 11 unidades exclusivas para hóspedes com pets”, afirma.

Na estrutura da pousada estão uma piscina de uso comum (humanos e animais), a piscina aquecida do chalé Vegas, petcare para cuidados estéticos, sala veterinária, restaurante, sala de jogos, dois lagos, pista de agility e minicozinha para apoio aos pets. “Os bichos podem frequentar todos os lugares, sem restrição”, avisa.

No Las Ventanas al Paraíso, no México, os bichinhos são super mimados. Eles têm à disposição um menu de massagens, uma cabana portátil para que possam acompanhar seus tutores na piscina ou na praia, cardápios personalizados preparados pelos chefs do resort e servidos em tigelas especiais, mordomos sempre prontos para bons passeios, além de serviço de pet sitter e organização de festas de aniversário

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