Franquias

Hotelaria e Turismo lideram entre os segmentos que mais cresceram com esse modelo de negócio

A última edição da Convenção ABF do Franchising, promovida no final de outubro na Ilha de Comandatuba (BA), trouxe dados impressionantes sobre o mercado de franquias e sua evolução crescente no Brasil. A Associação Brasileira de Franchising, entidade sem fins lucrativos criada em 1987 e que há 12 anos organiza o evento, congrega hoje mil associados, entre franqueadores, franqueados e prestadores de serviços e projeta para 2012 um crescimento de 15% e R$ 105 bilhões em faturamento para o segmento.

O número de redes em operação no Brasil, segundo dados da ABF, cresceu 9,5% e o número de unidades – entre franqueadas e próprias -, chegou a 93.098, envolvendo aproximadamente duas mil marcas. Ainda com base nos dados da associação, essa expansão resultou na abertura de mais de 60,5 mil novos postos de trabalho em um setor que já emprega cerca de 830 mil pessoas e pode chegar perto de 1 milhão até o final deste ano, segundo os prognósticos apresentados na convenção. Outro indicativo positivo apresentado pela ABF é de que 4,7% das marcas nacionais disponíveis nesse modelo de negócio (cerca de 90) já estão no mercado externo, espalhadas por 58 países. Para quem almeja ingressar nesse ramo, o investimento mínimo é de R$ 50 mil, preço estimado de uma microfranquia, que representa 17% do total de marcas e 4% do faturamento de todo o setor.

Entre os segmentos de mercado que mais cresceram, a Hotelaria e o Turismo despontam, com índice de 85,9%. Seguem-se a estes o de Móveis, Decoração e Presentes (35%), Esportes, Saúde, Beleza e Lazer (24,3%), Negócios, Serviços e Outros Varejos (14,9%), Alimentação (14,5%) e Acessórios Pessoais e Calçados (13,15%). Das 176 novas franquias que surgiram em 2011 (os dados deste ano ainda não estão compilados), 54 pertencem à área de A&B.

EXPANSÃO

Entre as marcas do setor de alimentação fora do lar já consolidadas e que continuam em franca expansão está a Spoleto, com 41 aberturas recentes. Ela foi criada em 1999 e pertence ao Grupo Trigo, dos sócios Mario Chady e Eduardo Ourivio, que também detém no Brasil a licença das marcas Domino’s Pizza e Koni Store, trazidas ao País em 2004 e 2008, respectivamente. Juntas, as três marcas o grupo somam mais de 450 unidades em todo território nacional e no exterior.

Segundo o diretor geral da marca Domino’s no Brasil, Henrique Pamplona, que também fala como porta voz do Grupo Trigo, o interessado em abrir uma dessas três franquias tem de ter espírito empreendedor e empresarial e disponibilizar de R$ 510 mil a R$ 650 mil para investimentos iniciais, dependendo do espaço físico. O retorno do capital é de 36 meses em média e o faturamento mensal gira em torno de R$ 115 mil. Para atrair futuros franqueados, o Grupo Trigo investe em três modelos de negócios diferentes: Store in Store, Spoleto 21 Sustentável e Koni Express. A aposta principal, segundo Pamplona, é no primeiro, que possibilita a exploração de duas marcas em um mesmo ambiente. “Esse modelo chamado Store in Store pode unir combinações como Spoleto e Domino’s ou Domino’s e Koni ou ainda Spoleto e Koni e é ótimo para capitais, pois divide entre as marcas o custo de locação e cria locais de conveniência para o público. A proposta contempla também cidades menores, a partir de 120 mil habitantes, mas o espaço mínimo disponível deve ser de 150 metros quadrados”, afirma o diretor.

Em 2003, Alcindo de Lazari Júnior apostou na abertura de uma loja da Spoleto no Shopping Pátio Paulista (SP) porque pensava em oferecer um diferencial de mercado que saísse da “mesmice do fast food tradicional”, como ele próprio define. “Encontramos no Spoleto tudo o que buscávamos, desde a inovação na forma de servir, agilidade no atendimento e qualidade do produto, até o conceito vanguardista na alimentação rápida temática”.

Segundo o franqueado, a marca desenvolveu uma empatia rápida com o consumidor, e o retorno do investimento aconteceu mais rápido do que o previsto por ambas as partes. “A previsão era de 24 a 36 meses e em 20 meses já havíamos retornado o capital, caracterizando um excelente custo/benefício para o investimento”, afirma Lazari Júnior.

A nutricionista Adriana Caldas também já administrava uma loja Spoleto no Rio de Janeiro quando em 2007 vislumbrou uma segunda oportunidade de negócio com o Grupo Trigo, desta vez com a Koni Store. “É uma marca de jovens gestores que tiveram uma excelente sacada de revolucionar a gastronomia japonesa com um fast food de qualidade”, justifica. “A comida japonesa vem se popularizando e consolidando cada vez mais no mercado nacional e se tornando uma excelente alternativa para o público consumidor. A demanda de mercado é enorme”, completa Adriana, que tem o público mais predominante em consumidores jovens, do sexo feminino, e diz ter recebido o retorno no tempo previsto, entre dois e três anos.

Em Recife (PE), a Domino’s Pizza foi a aposta das sócias Carolina Pincovsky e Paula Albuquerque. A loja foi aberta em agosto deste ano. “Já conhecíamos a Domino’s por ela ser uma grande rede mundial. Conhecíamos o produto e tínhamos uma noção do potencial da marca. Além disso, percebemos uma lacuna neste mercado aqui em Recife, que carecia de uma pizzaria de padrão mundial”, explicam as sócias, que bateram o martelo durante visita a uma das feiras da ABF.

De acordo com as sócias, pesou na decisão o baixo risco do negócio. “É uma franquia mundial, forte em diversos países. Trata-se de um ramo em que não há, via de regra, sazonalidade. Não fizemos nenhuma publicidade na inauguração, trabalhamos apenas com mídia espontânea e tivemos recorde nacional de vendas. Além disso, por ser uma franquia, todos os processos são padronizados, ficando mais fácil de gerenciar o negócio”, ressalta Carolina, que espera obter o retorno antes mesmo do prazo estimado de três anos. “O mercado respondeu muito bem. Recebemos nos primeiros 20 dias de funcionamento mais de 4,5 mil pedidos”, acrescenta Paula. A localização, segundo as sócias, foi determinante no sucesso. “Nosso público é muito jovem porque a loja fica próxima de grandes escolas e esse perfil de consumidor é muito fiel. Eles almoçam lá duas vezes por semana e quando estão em casa ainda pedem delivery”, completam.

Hotelaria e Turismo

De acordo com Ricardo Camargo, diretor executivo da ABF, o desenvolvimento do mercado de franquias está diretamente ligado ao aumento de renda da população e ao ingresso definitivo das mulheres no mercado de trabalho, o que gera mais demanda de serviços como alimentação fora do lar, lavanderias, reparos domésticos, além de serviços de beleza, saúde e entretenimento. Citando especificamente o expressivo crescimento do setor de Hotelaria e Turismo, Camargo cita a Tam Viagens, que somente em 2011 passou a adotar o modelo de franquias como forma de expansão e nesse mesmo ano abriu 115 operações.

Da Hotelaria, mais particularmente, um case é o Grupo Accor, que ingressou nesse ramo no ano 2000, com as bandeiras ibis, ibis budget e ibis Styles (antigos Formule 1), Mercure e Novotel e, em breve, lançará oportunidades também com as marcas Adagio e Adagio Access, como informa Abel Castro, diretor de Desenvolvimento da Accor para a América Latina. “Hoje temos no Brasil 25 hotéis franqueados e nosso cronograma de expansão é muito positivo”, conta o diretor, lembrando que esse volume corresponde à operação de 14% dos hotéis dessas marcas e a expectativa é de que o índice suba para 21% até 2016.

Segundo Abel, todas as regiões do Brasil, principalmente cidades do interior com mais de cem mil habitantes e atividade econômica, têm público potencial para ingressar nesse modelo de negócio. “A franquia hoteleira tem um característica distinta das demais. Pelo alto valor do investimento inicial, o franqueado não é o operador direto do hotel. Portanto, em todas as nossas unidades franqueadas existe a figura do gerente-geral”. A Accor, segundo o diretor, tem envolvimento direto no recrutamento, seleção e treinamento da mão de obra. “Cada marca tem um processo de auditoria das franquias e com isso controlamos e acompanhamos a qualidade do atendimento dos franqueados. Os empreendimentos recebem a visita de gerentes de Operações, clientes misteriosos, agentes de qualidade, auditores da ISO, manutenção preventiva etc”, revela.

De acordo com o diretor, os contratos de franquia são por um período médio de dez anos, mas cada marca tem um valor mínimo de investimento e consequentemente um tempo de retorno diferente. Como exemplo, Abel cita o investimento para um ibis budget de 80 quartos que é de aproximadamente R$ 6,5 milhões (sem contar o valor do terreno), com prazo de retorno entre sete de dez anos. “A vantagem do modelo de franquia é que podemos desenvolver parcerias em cidades distantes, sem ter nossa operação direta e, consequentemente, o custo de hotel administrado. Ou seja, o franqueado opera localmente, como o suporte e know how da Accor. Além disso, obviamente, os fees de franquias são mais baixos que os de um hotel administrado”, conclui.

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