Fernando de Noronha
Um paraíso em constante estado de atenção
É difícil falar ou escrever sobre Fernando de Noronha sem resvalar no lugar comum de adjetivos e superlativos, especialmente após uma primeira visita. Este pequeno pedaço de terra que se estende por nada além de 17 km2 de extensão é uma joia em estado bruto do turismo brasileiro que vive em constante estado de atenção. O acesso ainda é restrito e assim não poderia deixar de ser tratando-se de um santuário ecológico, habitat de golfinhos, tartarugas marinhas e praias absolutamente preservadas. Tanto que em algumas delas a contemplação só é permitida a distância.
Fernando de Noronha é a maior entre as 21 ilhas, rochedos e ilhotas que compõem o Arquipélago que leva o mesmo nome. É também a única habitada e abriga 16 praias, 12 ao norte e quatro no lado sul. Já quando se fala do Arquipélago, deve-se lembrar que ele é composto em sua totalidade, tanto na parte terrestre como em sua área marinha, por duas Unidades de Conservação Federais, hoje administradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), uma autarquia federal. As Unidades de Conservação são áreas protegidas do território nacional brasileiro, criadas pelo poder público, que têm por objetivo principal a manutenção da diversidade biológica, dos ecossistemas e das paisagens naturais de notável beleza cênica.
As duas Unidades de Conservação que compõem o Arquipélago são, portanto, o Parque Nacional Marinho Fernando de Noronha – ICMBio; e a Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha. Pela sua condição, Noronha não tem um prefeito, mas um administrador nomeado pelo governador de Pernambuco, cargo que na gestão de Eduardo Campos é ocupado por Romeu Batista.
No âmbito do Parque Nacional Marinho estão 70% da área da Ilha, além de suas ilhas e ilhotas secundárias e área marinha até a profundidade de 50 metros. Na prática, significa que nessas localidades são permitidas apenas atividades que façam uso indireto de seus recursos naturais, como a pesquisa científica, a educação ambiental e o turismo ecológico.
Entre os lugares que não podem ser visitados estão a Baía dos Golfinhos, que recebe quase que diariamente a visita de golfinhos rotadores; as piscinas naturais do Alagado (Buraco da Raquel) para preservação do ecossistema local e manutenção do equilíbrio da cadeia alimentar da fauna marinha e seus berçários; o mangue do sueste, único em ilhas oceânicas do Atlântico Sul; todo o lado esquerdo da Baía do Sueste e as ilhas secundárias. E mesmo dentro da área que pode ser visitada, os atrativos do Parque devem obedecer uma legislação específica, como não alimentar a fauna silvestre, não introduzir espécies, não fazer fogo, caçar, pescar e pernoitar nas praias. O horário de visitação é restrito ao período das 8h às 18h.
Antes mesmo de desembarcar na ilha, que fica a cerca de 545 km de Recife e 360 km de Natal, o turista paga uma taxa de preservação ambiental (TPA) no valor de R$ 40,40 por dia de permanência que, em média, é de três a cinco dias, embora para algumas operadoras, como a Ambiental uma das pioneiras na comercialização do destino sete dias seja o tempo ideal. A essa taxa deverá ser acrescida outra específica para entrada nas áreas integradas ao Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. A nova tarifa custará R$ 60 para brasileiros e R$ 120 para estrangeiros, também multiplicada pelo tempo de permanência.
Ainda assim, segundo a gerente comercial da Ambiental, Rose Franchini, Fernando de Noronha é o típico destino que tem 100% de aprovação. Não há quem não goste, do mochileiro ao turista mais exigente, passando pelos casais que querem passar uma lua de mel inesquecível até quem só queira uma boa opção para trilhas ou a prática de mergulho.
A todos os visitantes, Patrícia Roelandt, que atua na Coordenadoria de Turismo e Meio Ambiente da Administração Distrital, recomenda as palestras que acontecem todas as noites no Auditório do Centro de Visitantes do Projeto Tamar. Elas são gratuitas e tratam de assuntos diversos como golfinhos, tartarugas marinhas, tubarões, a flora, o Parque Nacional Marinho e sobre mergulho em Fernando de Noronha. A ideia da palestra é preparar o visitante que vem à Noronha. No caso das presstrips, é necessário reforçar as peculiaridades da ilha enquanto legislação federal, decretos, instruções normativas, controles, desafios e oportunidades, ao invés de apenas enfatizar os atrativos a serem visitados ao longo da programação.
Além das informações geológicas, geográficas, históricas, de infraestrutura, o objetivo da apresentação é sensibilizar os visitantes para a prática do ecoturismo. Fernando de Noronha é um destino atípico, tem duas Unidades de Conservação, mas se o visitante não for sensibilizando pode pensar que aqui é a terra do não. Esclarecendo as limitações e as fragilidades ambientais ensinamos a importância do cuidado que cada forma de vida necessita e que é possível integrar o ser humano ao meio ambiente. Esta é a grande oportunidade que Noronha reserva, resume.
O preço do isolamento
Sem indústrias ou parques fabris, a quase totalidade dos moradores da ilha tem na atividade turística o principal sustento. A oferta hoteleira é composta de 115 meios de hospedagem, entre pousadas e casas particulares transformadas em hospedarias, como é o caso da Tio João, administrada há 11 anos pelo presidente da Associação das Hospedarias Domiciliares de Fernando de Noronha (AHDFN), João Melo. A entidade foi criada em 1995 e congrega 82 estabelecimentos de um a três golfinhos, como são classificadas localmente, mas também algumas das pousadas mais exclusivas da ilha, como a Teju Açu referendada até mesmo pela National Geografic e a Triboju, inaugurada há pouco mais de quatro meses por Durval Lelys, da banda Ása de Águia, em sociedade com o irmão Ricardo Lelys, e o cantor noronhense Ju Medeiros. Até mesmo o único hotel da ilha, o Dolphin, é membro da AHDFN.
A manutenção ou não da classificação exclusiva de Noronha com base em golfinhos e não em estrelas, como determina o SBClass, recentemente implantado, é um dos assuntos que João Melo levará para o Ministério do Turismo. Articulado, o dirigente se ressente da falta de uma representação maior de Noronha na esfera federal, o que torna demasiadamente moroso qualquer processo de implantação de políticas públicas mais eficazes.
Por conta da sua posição geográfica e acesso limitado, empreender em Fernando de Noronha não é uma tarefa fácil. Nenhum negócio pode ser aberto na ilha sem a participação de um nativo na sociedade e os custos chegam com uma inflação de perto de 600%. Segundo João Melo, um milheiro de tijolo, por exemplo, que em qualquer localidade do Brasil é vendido a R$ 200 chega em Noronha por R$ 1,2 mil.Uma casa popular que em Recife se ergue por R$ 12 mil aqui não sai por menos de R$ 100 mil, afirma o dirigente, que no entanto se diz confiante no futuro do turismo em Noronha. Hoje temos fóruns pertinentes para que nós mesmos possamos discutir as soluções, diz.
A Revista Hotelnews viajou a convite da jornalista Cristina Lira em parceria com a Trip Linhas Aéreas e com apoio da Luck/Atalaia Noronha, Associação das Hospedarias Domiciliares de Fernando de Noronha (AHDFN), Administração da Ilha, Atlantis Divers e Assist-Card.

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