Equilíbrio e inclusão na hotelaria
Pessoas negras ainda não ocupam número significativo em cargos de liderança e sofrem com o racismo estrutural, realidade que exige uma autorreflexão nas empresas
Apesar de muita gente ainda fechar os olhos, a coluna do Brasil permanece como um reflexo do período escravocrata, principalmente no que se refere às oportunidades oferecidas a pessoas negras no mercado de trabalho. Herança do Brasil Colônia, época em que comerciantes escravizaram negros que vieram da África em navios, o racismo estrutural ainda permanece em várias nuances.
Mesmo que grandes empresas – geralmente startups e multinacionais – tenham dedicado tempo e espaço nos últimos anos para a inclusão, investindo em departamentos com foco na diversidade e separando cotas de vagas que encorajam negros a se inscreverem nos processos seletivos, a maioria das corporações não faz nem mesmo uma autoanálise sobre como se comportar. Basta olhar para as fotos dos “times dos sonhos” postadas nas redes sociais: quase todos são indivíduos brancos e do sexo masculino.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56,1% dos brasileiros se declaram negros, grupo que reúne pretos e pardos, somando mais de 115 milhões de afro-brasileiros, que gastam R$ 1,6 trilhão por ano, de acordo com o Instituto Locomotiva. E na indústria de viagens tem crescido em participação nos últimos dez anos, já que representa a maior parcela das camadas C, D e E. Juntas, essas classes cresceram mais de 105% no consumo de viagens entre 2010 e 2018, segundo informações do Ministério do Turismo.
“Em um país onde mais de 50% da população se autodeclara negra e isso não se reflete em cargos políticos, presidências de grupos e posições de C-level (seniores), alguma coisa está errada. No turismo não é diferente, e a presença é muito pequena. Há profissionais competentes, sabemos disso, mas não sinto que exista um compromisso sério em repensar este cenário. As associações e executivos da área também estão confortáveis com isso. Por exemplo, a Bahia, estado com maior percentual de população negra, não tem esta representatividade”, diz a hospitality insider e mentora Aline Silva.
“O primeiro passo para as empresas é reconhecer que há um déficit de inclusão racial, e a conscientização de que ela não existe. Depois do caso de George Floyd, as pessoas começaram a falar mais sobre o assunto, mas o turismo não refletiu a respeito. Precisamos quebrar esse comodismo. O mundo como um todo, e principalmente o Brasil, foi projetado para ser desigual e preconceituoso”, avalia Hubber Clemente, consultor e idealizador da Negros & Pretos: Afro Turismo e Afro Hotelaria, iniciativa para a visibilidade de profissionais negros do setor.
“Sinto um certo cinismo por parte de algumas pessoas quando eu falo sobre o tema. Algumas ficam desconfortáveis, outras fazem cara de espanto, do tipo: jura que ainda é assim? Daí penso comigo: olha a sua volta, quantos profissionais do nosso segmento estão em posição de destaque ou quantos escrevem para alguma mídia importante? Quantos participam de entrevistas, dos grandes eventos?”, questiona Aline.
Vale lembrar que a história da luta contra o racismo no Brasil está diretamente ligada à hotelaria. A primeira lei antirracista, a Lei Afonso Arinos, que completou 70 anos, surgiu após um caso que aconteceu em um hotel no centro de São Paulo. A dançarina e coreógrafa americana Katherine Dunham denunciou à imprensa durante sua estreia no Teatro Municipal que o gerente do Hotel Esplanada havia se negado a hospedá-la, com o argumento de que Katherine era uma “mulher de cor”. O caso teve repercussão internacional e em 3 de julho de 1951 o presidente Getúlio Vargas promulgou a Lei 1390, que proíbe a discriminação racial.
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