Entrevistas
Alfredo Lopes: o Rio de Janeiro está preparado para competir mundialmente no turismo

Não é novidade que o Rio de Janeiro está no imaginário de turistas nacionais e internacionais, tanto pelas suas inúmeras belezas naturais quanto pelo próprio estilo acolhedor da cidade. No entanto, a pandemia de coronavírus trouxe mais desafios e exige uma preparação maior do destino para lidar com o novo cenário.

Em entrevista para a Hotelnews, Alfredo Lopes, que preside o Sindicato dos Meios de Hospedagem do Município do Rio de Janeiro (Hotéis Rio) e a Associação Comercial e Industrial do Recreio e Vargens (ACIR), comenta sobre a situação da Cidade Maravilhosa no setor de turismo e mais possibilidades de desenvolvimento com a troca na gestão política. O executivo também é presidente do Conselho Curador do Rio Convention & Visitors Bureau, do Conselho Empresarial de Turismo da Associação Comercial do Rio de Janeiro, e diretor da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi).

Para ele, a cidade está preparada para competir mundialmente na indústria de viagens, mas precisa de apoio do Ministério do Turismo e Embratur. Além disso, há pontos relacionados à segurança e posicionamento corporativo, o que futuramente vai interferir na percepção e confiança de turistas e organizadores de eventos.

Confira abaixo a entrevista:

HN: O governo federal e o Ministério do Turismo têm apoiado o Rio de Janeiro?

A proposta da Embratur de focar agora no mercado nacional tem lógica, porque as fronteiras internacionais estão fechadas, mas se a estratégia está sendo feita da melhor maneira, é outro assunto. A agência vem errando há muitos anos e é fácil afirmar isso tendo como base número de turistas internacionais que chegam por ano ao Brasil, que é pífio. Já foi menor que o acumulado da cidade de Buenos Aires e alguma coisa está errada.

A rede hoteleira do Rio é uma das mais modernas da América Latina porque ganhamos inúmeros quartos na época das Olimpíadas, e temos uma integração do transporte público que pode ser notada com a realização do Rock in Rio, por exemplo – o visitante não precisa colocar os pés no chão, pois chega ao aeroporto, entra no articulado e desce no local do evento. A cidade está pronta, mas precisamos de promoção e divulgação.

Do meu ponto de vista, a Embratur, inclusive, já participou de feiras inadequadas e de formas inadequadas, com estandes menores que algumas cidades pequenas. Não existe uma política constante. Com a evolução das mídias digitais podemos fazer tudo isso de forma mais barata, mas falta uma reestruturação neste sentido.

HN: Como está hoje a hotelaria da Barra da Tijuca, que se reinventou nos últimos anos?

Ao saber que o bairro teria 10 mil novos quartos, criamos o programa ProCap Barra para capacitação e montamos um caderno com todos os atrativos da região. Com isso, fechamos uma parceria com a Gol e trouxemos agentes de viagens e, posteriormente, jornalistas, do Brasil inteiro porque a Barra era desconhecida. Deu tão certo que no primeiro réveillon após as Olimpíadas a Barra lotou primeiro que Copacabana, virando também um bairro querido dos argentinos e outros turistas sul-americanos. Agora, a Barra tem ocupação em torno de 50%, dentro da média da cidade.

HN: A questão do Airbnb é um problema para o setor?

Essa é uma atividade que veio para ficar, com toda certeza, e o que a gente busca é a igualdade tributária. Existe diferença de IPTU, ISS sobre a fatura total, contratação de funcionários… É uma evasão de receitas e concorrência desleal porque não existe equilíbrio fiscal. Não adianta inaugurar um hotel de R$ 500 milhões e não ter estrutura pública por falta de dinheiro. Então, o Airbnb deve se adequar ao que já pagamos na hotelaria para termos arrecadação pública. E vejo esta situação semelhante ao caso do Uber e dos táxis. É raro um Airbnb oferecer uma qualidade de prestação de serviços equivalente a um hotel, até mesmo nos flats.

HN: O segmento de multipropriedade tem chances de dar certo na cidade?

O Rio de Janeiro não tem tradição neste negócio. Os apart hotéis entraram aqui quando os argentinos tinham mais poder de compra, mas depois veio a decadência, e a multipropriedade é um exemplo disso. O que vemos agora é que, quando aconteceram as olimpíadas, muitos construtores e operadores venderam cotas, e existem hotéis com 300 sócios, para se ter ideia. E a chance de dar errado é imensa. O segmento funciona mais para destinos como Caldas Novas (GO) e Gramado (RS), mas não vejo sucesso no Rio de Janeiro. O ponto é a gestão e complexidade do negócio.

HN: Você acredita que os cruzeiros atrapalham a hotelaria?

Os cruzeiros vieram para ficar e, pela nossa experiência no Rio, que teve crescimento exponencial, vindo principalmente da Europa e navegando pela costa brasileira, eles ficam encantados e acabam voltando. São pessoas com poder aquisitivo e visitam vários destinos da região.

Tem um potencial de arrecadação de impostos para o município e uma grande penetração pela publicidade que eles fazem. Nosso porto foi todo remodelado e precisamos ainda investir em gerenciamento. É um segmento que veio para ficar. Os navios não causam prejuízos para a hotelaria e os desejos não se confundem, porque normalmente esse tipo de viagem é um sonho.

HN: Por que São Paulo é sede de mais eventos corporativos que o Rio de Janeiro?

O primeiro ponto é que a tarifa hoteleira não é o diferencial de São Paulo em relação ao Rio, mas sim porque a região paulista concentra várias indústrias, um fator determinante para os negócios. Ficamos muito restritos a tecnologia, laboratórios e feiras médicas, enquanto a capital paulista concentra vários setores.

E no Rio, temos o problema da percepção sobre a segurança, incluindo o caso das linhas amarela e vermelha, nas quais as pessoas remetem a tiroteios e outras complicações de imagem. Estamos trabalhando nessa questão para colocar mais patrulhamento e garantir que os visitantes não tenham problemas. Ainda dialogamos com os aeroportos para ver de qual maneira podemos ajudá-los.

Em paralelo, o centro de convenções Riocentro tem estrutura, mas virou hospital de campanha durante a pandemia do coronavírus, o que impede a visita dos organizadores de eventos, pois está nas mãos da prefeitura. Só que para tudo desenvolver nos próximos meses, dependemos do aquecimento da economia.

HN: Você acredita que o Rio de Janeiro está preparado para a competitividade no cenário mundial?

A cidade já sediou o maior calendário de eventos no mesmo ano, e tudo funcionou, com deslocamento de milhares de pessoas. Mesmo com o cancelamento do carnaval, as pessoas mantiveram suas viagens porque o destino é muito forte em atrações e programas, ressaltando que nossos principais viajantes domésticos são da capital e interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás – geralmente famílias com dinheiro para gastar porque o destino não é barato.

Sempre existe algo a ser feito e estamos numa crise econômica grave, mas o prefeito Eduardo Paes tem conhecimento profundo sobre o turismo. Nossa ideia é criar um ordenamento e gerenciamento do Leme ao Pontal, para obras de manutenção e segurança. Acredito que, sim, o Rio está preparado. A rede hoteleira está pronta para a demanda que surgir.

Durante o carnaval os hotéis oferecem aulas de samba e para tocar instrumentos. Os turistas querem participar de tudo e se conectar socialmente com os cariocas, de pessoas que geralmente têm realidades diferentes. Esta é uma diferença enorme do destino. Estamos num momento desafiador, mas o Rio de Janeiro tem todas as condições de superá-lo. Temos agora pessoas jovens na política, que podem ajudar no desenvolvimento. Somos uma grande marca no turismo.

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