A hotelaria na rota do vinho
Destinos tradicionais e emergentes atraem cada vez mais investimentdos do setor
A indústria do luxo está se rendendo ao agroturismo e derrubando mitos e preconceitos contra a qualidade dos serviços de hospedagem em áreas rurais. Destinos tradicionais e emergentes na produção vinícola atraem cada vez mais investimentos hoteleiros, na mesma medida em que é crescente o mercado consumidor que, mais do que atrativos turísticos, busca experiência em suas viagens de lazer e até mesmo de negócios.
O estado de Mendoza, na Argentina, ocupa um território de cerca de 150 mil quilômetros quadrados, localizado aos pés da Cordilheira dos Andes, e figura hoje como o nono principal produtor mundial de vinho, juntamente com Melbourne (Austrália), Bordeaux (França), São Francisco e Valle de Napa (Estados Unidos), Porto (Portugal), Bilbao e Rioja (Espanha) e Cidade do Cabo (África do Sul). Aproximadamente dez milhões de hectolitros de vinho são produzidos anualmente nas cerca de 100 vinícolas que se distribuem pelos caminhos do vinho, como é chamada a rota entre Vale de Uco, que envolve os municípios de Tupungato, Tunuyan e San Carlos; Lujan de Cuyo e Maipú. Dos produtores dessa região saem cerca de 70% dos vinhos e 50% do azeite extra virgem da Argentina. Boa parte dessas vinícolas já está organizada para receber turistas, dedica dias da semana à visitação e sessões de degustação, e aposta agora na instalação de meios de hospedagem, o que amplia a experiência do público com os produtos primários e o ambiente agrícola.
Em Valle de Uco se destaca o Fuente Mayor Hotel & Casino, aberto há apenas dois anos e já registrando ocupação média de 45%, que se distribui ao longo do ano entre turistas de lazer (65%) e negócios (35%), ambos atraídos pela temática do vinho. O hotel tem 51 quartos, divididos entre clássicos, superior e executivos, todos com vista para os vinhedos e montanhas, e uma área mais isolada, onde cabanas se distribuem por uma área de 40 hectares. Piscina, hidromassagem, solarium, spa com tratamentos a base de vinho, como não poderia ser diferente, e um cassino completam a infraestrutura.
Aberto há cerca de três anos, o Entre Cielos Luxury Wine Hotel & Spa figurou na lista de 2012 da Boutique Hotel Awards, que reconhece os melhores do mundo nessa categoria. O estilo contemporâneo da propriedade chama a atenção desde a entrada, assim como as 16 habitações batizadas com nomes que classificam os vinhos – Young, Classic, Reserva, Gran Reserva, Gran Cru e Limited Edition. Este último identifica o único loft da propriedade, suspenso por pilares de madeira sobre os vinhedos de Malbec – o tipo mais produzido em Mendoza -, que faz lembrar uma cápsula pelas formas circulares. Da banheira instalada no terraço, tem-se uma das mais belas vistas da Cordilheira dos Andes.
Entre os lançamentos mais recentes, destaque para o Gualtallary Luxury Vineyars, mais novo empreendimento da Huentala Inversiones Hoteleras, grupo formado em 2002 e proprietário também do Huentala Hotel, do Sheraton Mendoza e do cassino anexo a ele, todos localizados na capital. O projeto do novo hotel, já em construção, começou a ser desenhado em 2010, com a compra de 220 hectares de área em Tupungato, que além de hotel e vinícola abrigará um residencial.
Outro projeto novo de vulto na região está sendo conduzido pela The Vines of Mendoza, a empresa argentina idealizadora e gestora de uma área de 600 hectares de vinhedos privados, também localizados em Valle do Uco, na região de Mendonça, onde constrói um resort & spa em estilo boutique em meio a videiras e aos pés dos Andes. O The Vines Resort & Spa será aberto em dezembro de 2013, com 22 chalés, comercializados em sistema de condotel a valores entre US$ 300 mil e US$ 900 mil. O investidor pode usar o chalé para sua hospedagem durante seis semanas distribuídas ao longo do ano, sob reserva antecipada, mas deve se comprometer a disponibilizar as demais ao pool hoteleiro, com retorno de 5% sobre as diárias. O resort também contará com um restaurante Siete Fuegos, com assinatura do chef Francis Mallmann, piscina, fitness center, salões para abrigar festas e eventos e um spa. Aos hóspedes será oferecida a possibilidade participar de todo o processo de fabricação do vinho, desde a colheita até a seleção e manipulação das uvas no barril. Atualmente há 11 chalés já construídos.
Destinos consolidados
O Chile é outro país da América Latina com a produção de vinho já consolidada e uma estrutura organizada de meios de hospedagem. Um dos projetos inovadores é o da vinícola Matetic, uma fabricante de vinhos orgânicos localizada a pouco mais de 100 km da capital, Santiago, que integra em sua propriedade o La Casona, um refinado hotel com apenas sete quartos.
O hotel foi instalado em uma grande casa da estância, com mais de 100 anos de história e que foi totalmente reformada em 2004, em meio aos 170 hectares da área onde o vinho é produzido a partir de uvas Syrah, Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Chardonnay e, em menor escala, Riesling, Malbec, Cabernet Franc e Gewürztraminer. A produção anual é de 30 mil caixas de nove litros cada, a maior parte exportada para os Estados Unidos, Japão e Brasil. A ocupação média anual é de 45%, com maior fluxo entre outubro e abril, e um mercado igualmente distribuído entre chilenos e estrangeiros, principalmente norte-americanos, europeus e brasileiros.
O Valle de Casablanca, onde se localiza a propriedade, foi nomeada como a décima Great Wine Capitals of the World, um chamariz para a maior parte do público, segundo o gerente de Turismo, Felipe Wilson. As pessoas tem muito interesse em conhecer a origem dos vinhos que consomem, afirma. Nosso principal desafio na inserção de uma operação hoteleira foi manter uma arquitetura adequada ao entorno, que respeite o Valle e represente da melhor forma possível o conceito de equilíbrio mantido na Viña, completa.
Inserido entre os países emergentes na produção vinícola, a África do Sul também tem cases interessantes de hotelaria temática, como o da família Biden, que em 2008 transformou sua casa de campo com cinco suítes, localizada na região de Franschhoek, no hotel boutique La Residence. Reconfigurada, a propriedade passou a abrigar 11 suítes e cinco villas três delas com piscina privativa entre 30 hectares de vinhedos e montanhas. A decoração é suntuosa, com candelabros indianos pendurados no teto, espelhos, tapetes persas e uma quantidade impressionante de obras de arte sul-africanas (algumas poucas disponíveis para venda), além de peças e objetos coletados em antiquários na decoração. Os banheiros são um capítulo à parte medem quase o mesmo tamanho do quarto e possuem banheiras de imersão em estilo vitoriano. Um hóspede habituée do La Residence é o cantor inglês Elton John, a quem é reservada a suíte Majarani. Ele inclusive opinou na decoração da suíte, que mantém um porta retrato seu na cabeceira.
Os vinhedos começaram a ser plantados quando o hotel estava sendo construído. A área total das videiras é de apenas dez hectares e os vinhos ali produzidos (Cabernet Sauvignon e Shiraz) não são vendidos fora do hotel. Além dos próprios sul-africanos, o hotel tem entre os principais mercados os Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Holanda e Brasil.
Já para quem gosta de aliar história à experiência de hospedar-se em uma propriedade vinícola, o Castello del Nero é uma excelente opção em Florença, na Itália. Localizado em Tavarnelle Val di Pesa, no coração da região vinícola de Chianti, o hotel ocupa uma edificação originária do século 12, erguida como casa de campo da família Del Nero, nobre e tradicional na região da Toscana. É um produto Virtuoso e membro da The Leading Hotels of The World. O brasão da família ainda pode ser visto no Castello, assim como os afrescos pintados em diferentes momentos de séculos passados. A propriedade foi transformada em hotel em 2006 e está inserida em área de 300 hectares, oito deles de vinhedos produtores de Sangiovese, Trebbiano, Colorino e Canaiolo.
A adega foi cuidadosamente restaurada, mantém duas paredes de tijolos e pedras e permanece sendo utilizada como no passado, para uma comemoração privê ou sessões de degustação de vinhos, apresentadas por um experiente sommelier, com duração de uma hora para grupos de no máximo oito pessoas – e acompanhadas por uma variedade de frios típicos da região, como o queijo Pecorino.

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