Dia do Chef de Cozinha: três lições que a profissão me ensinou e que vão muito além do fogão
Por Caio Fontenelle
Todo dia 20 de outubro, quando se celebra o Dia do Chef de Cozinha, costumo pensar no significado dessa profissão. Durante muito tempo, ela foi associada apenas ao talento e à criatividade diante do fogão. Hoje, depois de alguns anos do outro lado do balcão, tenho certeza de que ser chef é muito mais do que isso.
Minha relação com a gastronomia é bem anterior ao primeiro restaurante. Sempre fui aquele que reúne os amigos e a família em volta da mesa para um jantar. Cozinhar para as pessoas que eu gosto sempre foi um prazer, e essa paixão nunca deixou de existir, mesmo durante os muitos anos em que construí minha carreira em grandes empresas, nas áreas comercial, de marketing e gestão. Com o tempo, o que era apenas um hobby deixou de caber nesse lugar e se transformou em trabalho.
Essa transição me ensinou a primeira lição: o chef é, antes de tudo, alguém que garante consistência. As grandes redes de food service só são conhecidas no mundo inteiro porque conseguem manter o mesmo padrão, independente de onde a unidade está localizada. O prato que emociona na primeira visita precisa emocionar do mesmo jeito na décima. Por isso, nas minhas cozinhas, trabalhamos com fichas técnicas e processos bem definidos. Ao contrário do que muitos podem pensar, eles não engessam a criatividade, mas liberam a equipe para se concentrar no que importa: o ponto da carne, o tempero, o cuidado com o prato. Quando o padrão está claro, o talento tem espaço para existir e se expandir sem ansiedade.
A segunda lição é que o chef é um formador de equipes. Uma cozinha profissional é um ambiente de pressão, de ritmo intenso e de muito trabalho coletivo. Ninguém entrega um serviço sozinho. Ensinar, corrigir com respeito, dar espaço para quem está crescendo e reconhecer o trabalho de cada um faz parte do ofício tanto quanto saber executar uma receita. A qualidade que chega à mesa do cliente é o resultado do trabalho de muitas mãos.
A terceira coisa valiosa que aprendi é que o chef cuida de uma experiência inteira, e não só do prato. Quem vai a um restaurante quer celebrar, encontrar pessoas queridas ou simplesmente se presentear. A comida precisa ser boa, mas a recepção, o atendimento, o ambiente e o tempo de espera também contam. O chef que entende isso olha para o salão com a mesma atenção que dedica à cozinha.
Há ainda uma dimensão da profissão que merece mais reconhecimento. O chef é também um empreendedor. Ele lida com fornecedores, controle de custos, planejamento, sazonalidade e indicadores. A gastronomia brasileira vive um momento de valorização, e acredito que ela só vai amadurecer ainda mais se enxergarmos o chef como alguém que une técnica, gestão e sensibilidade.
Após quase 20 anos nesse mercado, o que me move diariamente continua sendo o momento em que o prato chega à mesa e eu vejo a reação de quem prova. Esse retorno imediato é uma das coisas mais bonitas da profissão.
Porém, deixo um recado para quem sonha em seguir esse caminho: a paixão é o ponto de partida, mas ela sozinha não sustenta uma carreira. Antes de abrir o meu primeiro restaurante, estudei muito, concluí um mestrado em empreendedorismo e dei aulas em faculdades para aprimorar meus conhecimentos.
Aos 40 anos, eu fui atrás do meu maior sonho. Minha decisão foi uma aventura, mas uma aventura bem calculada e planejada. Se você sente que a cozinha é o seu lugar, vá em frente, mas prepare-se, estude, entenda o negócio e construa a base antes de dar o salto. Neste Dia do Chef de Cozinha, minha homenagem vai a todos que fazem desse ofício uma forma de cuidar das pessoas.
Caio Fontenelle, empreendedor que deixou a carreira executiva para se tornar chef de cozinha e fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack, em Blumenau (SC).

notícias recentes
Trul Hotéis reforça estrutura comercial
Hotéis.com aponta três tendências que devem influenciar as viagens em 2027
Mais de 1,83 milhão de turistas internacionais estiveram no RJ este ano
notícias relacionadas
A força do turismo brasileiro está na diversidade dos destinos
O Turismo como estratégia de Estado
A fidelidade da clientela é sinônimo de lucro do hoteleiro