O Senado Federal aprovou ontem (14) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que define o fim da escala 6×1. Com isso, as empresas brasileiras se deparam com um desafio: reorganizar suas operações, absorver eventuais custos adicionais e preservar a competitividade sem comprometer a qualidade dos serviços.
Há anos sofrendo com a falta de a falta de mão de obra, o setor turístico, que funciona, em sua marioria, 24 horas por dia, sete dias por semana, já vem discutindo o assunto há algum tempo. Caso da Atrio Hotel Management, que possui um amplo projeto de gestão de pessoas como parte de seu planejamento estratégico. A iniciativa engloba questões relacionadas à atração e retenção de talentos, passando por temas como escalas de trabalho, remuneração, recompensas, benefícios e boas condições de trabalho.
Dentro desse plano, a mudança da escala 6×1 já vinha sendo discutida há alguns meses, inclusive com a implementação de um projeto-piloto em dois empreendimentos em operação. “Essa era uma decisão esperada e que, sem dúvida, traz impactos para o setor. Afinal, a hotelaria, como atividade essencialmente prestadora de serviços, depende de pessoas, e tudo o que impacta essa dimensão tem repercussão direta no negócio”, afirma Paulo Melega, vice-presidente da empresa.

Na avaliação do executivo, os efeitos serão mais expressivos no curto prazo. “Em médio e longo prazos, algumas questões que hoje representam aumento direto de custos poderão ser amenizadas com o uso de tecnologia e aumento de produtividade”, diz.
Do modo geral e na visão da companhia, os impactos e desafios da mudança não são lineares, pois variam de acordo com as características, o porte e a sazonalidade de cada hotel. Esses efeitos envolvem dois grandes pilares. O primeiro é a readequação das escalas de trabalho, considerando um número maior de folgas.
O segundo é a redução da jornada semanal, inicialmente de 44 para 42 horas, com previsão de chegar a 40 horas em dois anos. “As duas mudanças pressionam os custos com mão de obra, pois exigem um número maior de pessoas para garantir a cobertura das escalas de trabalho. Como se trata da principal linha de custo operacional de um hotel, o impacto é relevante”, avalia Paulo Melega.
Para Danila Bernardi, sócia-diretora da área de BPO Financeiro da Athros Auditoria e Consultoria, a experiência ilustra um dos principais desafios de uma eventual mudança na legislação: conciliar os benefícios sociais da redução da jornada com a capacidade financeira e operacional das empresas.
“Os impactos serão diferentes conforme o setor. Empresas que operam sete dias por semana, como hotéis, restaurantes, hospitais e parte do comércio, precisarão avaliar cuidadosamente suas escalas. A redução da jornada sem diminuição salarial pode exigir novas contratações e elevar o custo da folha. Dependendo da atividade e das margens do negócio, parte desses custos poderá ser repassada aos preços. É uma transição que exige planejamento e análise individualizada”, avalia Danila.

A especialista também chama atenção para o papel da tecnologia e da produtividade nessa reorganização. Embora investimentos em automação possam ajudar a compensar a redução das horas trabalhadas, seus efeitos variam entre atividades e podem provocar mudanças no perfil e na quantidade de empregos necessários.
No Grupo Schultz, criado há 40 anos e posicionado como das maiores empresas de turismo do Brasil, os colaboradores já trabalham na escala 5×2, com exceção de colaboradores que atuam, em sistema de rodízio, no plantão de vendas realizado aos sábados. “Nosso time jurídico está finalizando um plano de ação que orientará os próximos passos, mas o fato é que acreditamos que a mudança seja positiva para os colaboradores e para a empresa”, diz Ana Santana, diretora-geral do Grupo.

O TRYP by Wyndham São Paulo Paraíso, hotel com 263 apartamentos na capital paulista, adotou a escala 5×2 em fevereiro de 2024, antecipando uma transformação que agora ganha dimensão nacional. A mudança foi implementada em todos os departamentos e contempla atualmente 49 colaboradores.
Mais de dois anos depois, a administração apresenta resultados relevantes: o índice anual de turnover caiu de 6% para 2,5%, uma redução relativa de aproximadamente 58%, enquanto a nova organização das escalas representou um aumento de cerca de 10% na folha de pagamento.
Segundo Patrícia Garcia, gerente-geral do hotel, a decisão foi incorporada à estratégia de gestão de pessoas, com foco na qualidade de vida, na atração e na retenção de profissionais. “Quando decidimos adotar a escala 5×2, sabíamos que haveria um impacto financeiro e que precisaríamos reorganizar a operação. Mas também entendíamos que a dificuldade de atrair e reter profissionais era um dos grandes desafios da hotelaria”.
A profissional diz que com a redução do turnover anual de 6% para 2,5%, há um indicador concreto de que investir na qualidade de vida das equipes pode trazer benefícios para o negócio. “O custo precisa ser considerado, mas não pode ser analisado isoladamente dos ganhos em estabilidade, engajamento e qualidade do atendimento”, afirma Patrícia. “Além disso, os indicadores de satisfação dos hóspedes aumentaram, uma vez que o nível de excelência no atendimento melhorou”, completa.

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