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Fórum Nacional da Hotelaria abre Semana da Hospitalidade do FOHB

Com a sétima edição do Fórum Nacional da Hotelaria, o FOHB abriu nesta segunda-feira a Semana da Hospitalidade, que será marcada por outros dois eventos esta semana – Sweet Ideias: transformando cardápios em experiências, uma degustação às cegas exclusiva para gestores de A&B e chefs de cozinha de redes associadas; e o Encontro Corporativo de Compras, durante a Equipotel.

Assim como em edições anteriores, o fórum se configura como encontro marcado por insights estratégicos, análises econômicas e provocações sobre o futuro do turismo, hotelaria e foodservice. É esse o tom do evento que reúne especialistas em uma série de palestras, onde temas como inovação, distribuição hoteleira, cenário macroeconômico e transformação digital estão no centro das discussões.

O presidente do Conselho de Administração do FOHB, Beto Caputo (Atrio Hotéis) abriu a programação destacando o cumprimento de metas estabelecidas para o último ano, entre elas a captação de três novos associados (WAM, Summit e Tauá); a ampliação da promoção junto aos associados, objetivo alcançado com o lançamento da campanha com o avatar Fohbinho e a newsletter mensal “Flash FOHB”; e redução de alíquota de  40%, evitando o aumento na carga tributária.  

Orlando de Souza e Hans Donner; e Guilheme Dietze

“Live Your Time” e a visão criativa do tempo

Abrindo o evento com uma proposta instigante, o designer Hans Donner apresentou a palestra “Live Your Time”, propondo uma nova perspectiva sobre o tempo, inovação e criatividade. Donner, conhecido por sua contribuição visual à televisão brasileira, provocou reflexões sobre como a percepção temporal impacta nossas decisões e experiências — tanto pessoais quanto profissionais. Sua abordagem uniu design, filosofia, inovação e emoção, trazendo uma provocação inspiradora para o início do evento.

Cenário econômico desafiante e perspectivas para o turismo

Na segunda palestra, Guilherme Dietze, economista e presidente do Conselho de Turismo da Fecomercio-SP, apresentou um panorama macroeconômico realista da economia brasileira. Com base em uma análise de duas décadas, Dietze abordou o impacto crônico da inflação elevada no país, os desafios estruturais do sistema fiscal e a dificuldade de investimentos em um ambiente com juros elevados.

Dietze destacou que a inflação brasileira tem sido sistematicamente mais alta do que a de países como os EUA e que a economia nacional é excessivamente indexada. A baixa taxa de poupança e o alto custo financeiro dificultam o crescimento sustentável. Ainda assim, trouxe pontos positivos, como o faturamento recorde do turismo nacional (R$ 213 bilhões) e a resiliência do setor de hospedagem, com crescimento previsto até 2026.

Outro destaque foi o alerta sobre o fim do PERSE, a reforma tributária, excesso de interferência na atividade econômica e a escassez de mão de obra, desafios que exigirão atenção redobrada nos últimos anos.  

Cristiano Vasques, Paulo Salvador e Wilson Ferreira

Distribuição hoteleira e os caminhos da inovação

Com três décadas de experiência em cargos executivos e atualmente sócio da Noctua Advisory, Paulo Salvador trouxe uma abordagem técnica e estratégica sobre os canais de distribuição hoteleira. Através de um estudo abrangente com mais de 800 hotéis, nas categorias econômico, midscale e upscale, o especialista mostrou como os custos de distribuição impactam diretamente na rentabilidade do setor. Comissões, taxas de conectividade, programas de fidelidade e OTAs podem consumir até 30% do valor pago pelo hóspede.

A pesquisa apontou que 74% das transações passaram por cartões virtuais em 2024 e que a dependência das OTAs ainda é muito alta. Salvador alertou para a vulnerabilidade que isso gera, especialmente para redes com mais de 50% das reservas nesses canais. Ao mesmo tempo, defendeu investimentos urgentes em plataformas próprias (topline), como sites com diferenciais competitivos e marketing digital direcionado.

Um dado animador veio da comparação internacional: o Brasil, com canais IDS integrando lazer e corporativo, apresenta um modelo raro e inovador que pode ser ampliado.

Otimismo e cautela

Economista-chefe da CNC, Fábio Bentes apresentou uma análise que equilibrou otimismo e cautela. De um lado, ressaltou que o turismo foi o setor que mais cresceu após a crise sanitária, mantendo geração de empregos e expansão mesmo em momentos adversos. De outro, destacou os entraves do sistema tributário brasileiro — classificado como “o pior do mundo” — e a tendência de populismo fiscal que dificulta a previsibilidade para investidores e empresários.

Segundo o economista, mesmo com a desaceleração recente da economia, o setor de turismo segue forte, com recordes de turistas internacionais, crescimento real das atividades e impacto mínimo na inflação. No entanto, ele alertou para os efeitos da reforma tributária sobre o setor de serviços, com possíveis alíquotas de até 28% de IVA, penalizando justamente quem mais emprega.

Fabio Bentes, Guilherme Horn, Cristina Souza e Jessica Montes

O futuro do foodservice é high-tech e personalizado

Encerrando o ciclo de palestras, Cristina Souza, CEO da Gouvêa Foodservice, abordou os rumos da alimentação fora do lar. Com um mercado global estimado em R$ 6,7 trilhões e crescimento puxado por Ásia e Oriente Médio, o setor de foodservice no Brasil ainda enfrenta desafios estruturais, mas avança com ajuda da tecnologia.

Ela destacou que 60% dos consumidores preferem interação digital e que 83% dos colaboradores querem tecnologia para automatizar tarefas básicas, como parte de um movimento que redefine hospitalidade e eficiência. A inteligência artificial já é realidade em reservas, recomendações e personalização de experiências.

A palestra foi encerrada com um bate papo com a participação de Jéssica Montes, gerente de marketing da Seara Food Solutions, que além de destacar a criação de um núcleo dedicado à hotelaria, revelou dados de uma pesquisa que aponta que 91% do consumidor brasileiro está mais aberto a experimentações quando fora de casa. De olho nessa oportunidade, antecipou o lançamento de uma nova receita de pão de queijo, mais leve e de preparo rápido, especialmente desenvolvido para o mercado hoteleiro.

Hotelaria em transformação: tecnologia, sustentabilidade e novos modelos de negócio

De inteligência artificial à transição energética, passando pelo fortalecimento do associativismo e a evolução do real estate, especialistas que se apresentaram na segunda metade do dia apontaram tendências e desafios que devem impactar a hospitalidade nos próximos anos. Entre os temas, destaque para a importância do associativismo, o impacto das redes sociais, o panorama atual e futuro da hotelaria, o papel da sustentabilidade na matriz energética e a revolução trazida pela inteligência artificial.

O papel estratégico dos convention bureaux

O tema foi apresentado por Toni Sando, executivo do Visite São Paulo, que iniciou sua apresentação destacando que 50% dos membros do conselho da entidade são hoteleiros e que a missão central é aumentar o fluxo de visitantes por meio da promoção dos destinos e da captação de eventos. “Cada evento captado traz grupos que movimentam hotéis, restaurantes, comércio e atrações, gerando receita direta para a cidade”, afirmou. Trabalho que resulta da contribuição voluntária via room tax, e garante os recursos necessários que são reinvestidos diretamente no setor. “Eventos trazem grupos de visitantes e todos precisam dormir, comer, se movimentar, fazem compras, visitam lugares, curtem a noite e isso aumenta o nível de consumo na cidade – isso é a economia do visitante”, destaca.  

Mario Sergio Cortella e Toni Sando

Novo Panorama da Hotelaria Brasileira

Sócio-diretor da HotelInvest, Cristiano Vasques apresentou a versão atualizada do Panorama da Hotelaria Brasileira, lançada neste mês de setembro, com indicadores das 10 principais capitais. A ocupação média oscilou entre crescimento em quatro cidades, queda em outras três e estabilidade nas demais. Já a diária média teve alta de 5,3%, chegando a R$ 444, e o RevPAR cresceu 8%, impulsionado principalmente pelo Rio de Janeiro.

Segundo Vasques, não há uma nova onda massiva de desenvolvimento hoteleiro no Brasil, mas sim movimentos pontuais, especialmente em cidades secundárias e terciárias, financiados em grande parte por capital próprio. E destacou três tendências: Expansão do turismo de lazer, que atrai investidores e impulsiona a oferta; Entrada de fundos de investimento qualificados na hotelaria, adquirindo ativos de grande porte; Crescimento das segundas residências em empreendimentos hoteleiros.

Sustentabilidade e transição energética

Wilson Ferreira Jr., especialista em matriz energética, alertou para a urgência da transição energética. Ele lembrou que enquanto em outros países o setor de transporte é o responsável pela maior parte das emissões de gee (28%), no Brasil o desmatamento é o grande vilão, respondendo por 47% das emissões.

“Não temos planeta B. A hotelaria, como parte da cadeia de viagens e turismo, precisa estar atenta à sustentabilidade, pois os efeitos das mudanças climáticas já impactam diretamente destinos turísticos e cidades costeiras”, ressaltou.

O especialista trouxe o dado alarmante de que as mudanças climáticas levam 26 milhões de pessoas à pobreza a cada ano e os desastres climáticos causados pelo efeito estufa causam uma perda global, também anual, de US$ 520 bilhões. Entre os principais países emissores estão China,  Estados Unidos, Índia, Rússia, Japão, Brasil, Indonésia, Irã e Canadá.

Inteligência Artificial: revolução em curso

Guilherme Horn, investidor-anjo e especialista em inovação, começou a palestra esclarecendo que as bases do que hoje conhecemos como inteligência artificial foram criadas em 1956 por um grupo de especialistas, passou por várias etapas até chegar ao deep learning, no ano 2000 e, mais recentemente ao ChatGpt, com o conceito de inteligência artificial generativa, em que a capacidade de criação é o principal diferencial.

Horn comparou a chegada da IA generativa ao impacto histórico da eletricidade, lembrando que o ChatGPT e ferramentas similares inauguram uma era de criação exponencial e acessível. “Não se trata de uma evolução, mas de uma revolução, comparável à substituição das carroças pelos carros”.

De acordo com o palestrante, as barreiras surgem pelo medo da substituição.  Novas profissões vão surgir, e o que vai mudar são as tarefas, mas ninguém perderá funções ou cargos. “Nos últimos 20 anos vimos a revolução no mundo digital e hoje temos  empresas em diferentes estágios nessa corrida, mas a IA chegou pra quebrar todas essas barreiras. É uma oportunidade democrática para empresas de todos os portes”, atestou.

Ao final da palestra, Horn deixou três mensagens-chave: experimentar sem medo, aceitar que o futuro é incerto e compreender que inovar não é mais opção, mas necessidade.

Hospitality Real Estate de volta ao protagonista

Paulo Mâncio, diretor executivo da CBRE Brasil, apresentou números do mercado imobiliário hoteleiro. O país conta hoje com 488 fundos imobiliários, movimentando R$ 237,5 bilhões. Para 2025, a perspectiva é positiva, impulsionada pela expansão dos voos internacionais e pelo aumento da ocupação hoteleira. Entre as oportunidades, destacou os segmentos de short stay, multipropriedade e branded residences, que seguem em expansão.

Encerramento filosófico

Para fechar o ciclo de debates, o filósofo Mario Sergio Cortella trouxe reflexões sobre os tempos de mudanças velozes. “Se você não tem dúvidas, é porque está mal informado”, disse, lembrando uma citação de Millor Fernandes. Falou de humildade intelectual e reforçou que a dúvida é o motor da criatividade e da inovação, tônica que dominou boa parte da palestra, que foi permeada por citações de outros autores, como Inácio de Loyola Brandão e seu livro “O menino que perguntava”.

Cortella trouxe reflexões sobre propósito, liderança e transformação numa alusão a temas essenciais para o futuro da hotelaria.

Próximo Fórum

Mestre de cerimônias do evento que teve “Conhecimento e Inspiração” como tema, o presidente executivo do Fohb, Orlando de Souza, voltou ao palco no encerramento para anunciar que a próxima edição do Fórum Nacional da Hotelaria está marcada para o dia 16 de setembro.

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