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Magdala Castro: 98 anos de amor e dedicação

Em sua trajetória, fundadora da revista hotelnews e da feira Equipotel deixou um legado indiscutível ao turismo e à hotelaria

Maria Magdala Xavier Nogueira, ou apenas Magdala Castro, foi a verdadeira mulher empoderada. Diante das adversidades da vida, que começaram muito cedo, ela fez nascer em si a garra dos vencedores e conquistou tudo o que quis ao longo de seus (bem vividos) 98 anos. 

Infelizmente, no dia 2 de julho de 2023 tivemos que nos despedir da empreendedora, empresária, amiga, mãe, avó, bisavó, mas o legado e o exemplo de força, determinação e astúcia – com uma generosa pitada de carisma e amor – ficarão para sempre na memória dos familiares e de todos aqueles que tiveram o prazer de trabalhar com Magdala.

Esta reportagem, baseada na biografia “Magdala: intuiçāo e talento na hotelaria brasileira”, escrita por Ines Garçoni e Simone Goldberg, conta um pouco da trajetória da fundadora da revista hotelnews e da Equipotel, a maior feira de hospitalidade da América Latina. Mostra o caminho – por muitos desconhecido – que a profissional trilhou para prover um futuro melhor para as filhas. Sua visão fora do convencional, aliada à grande criatividade, a levaram a ser uma das protagonistas do desenvolvimento do setor no Brasil.

Do nascimento à descobertado talento empreendedor

Terceira de quatro filhos, Magdala veio ao mundo em Niterói (RJ) no dia 21 de fevereiro de 1925. Dala, como era chamada pelos irmãos – Alcy, Renato e Maria Therezinha – era uma criança alegre e que adorava cantar, o que lhe rendeu o apelido de vitrola. Dedicada aos estudos, gostava de matérias pouco chamativas para as garotas da época, como matemática, mas não passava por sua cabeça abraçar uma carreira ou o desejo por autonomia. Tanto que, seguindo os padrões da época, casou-se com Jairo em 1941, quando tinha apenas 16 anos.

Até o final da década, o casal já estava com a família formada – tiveram quatro meninas: Martha Helena, Rosa Maria, Katia Maria e Marcia Regina. O marido não tinha ambição na vida, o salário que ganhava estava longe de suprir as necessidades de uma família daquele tamanho. Cansada da falta de perspectiva, decidiu pedir ajuda ao padrinho Horácio – um homem muito bem relacionado, dono de alto cargo na prefeitura do Rio de Janeiro – para entrar no mercado de trabalho, mesmo que essa prática fosse vista com maus olhos na época em que o machismo era mais evidente.

Mudança de chave

Horácio a instruiu a procurar Normando Ferreira Lopes, jornalista da Rádio Mundial. O profissional recomendou que a jovem conversasse com Carlos Emmanuel Silva, diretor da empresa Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul, e assim ela fez. Prestou alguns exames e conseguiu seu primeiro emprego. O trabalho era simples demais para sua capacidade. Em pouco tempo foi transferida para um cargo melhor, mas sem aumento de salário. 

Assim, percebeu que aquela rotina não lhe servia e largou o emprego. Voltou a procurar Normando para que lhe ajudasse com um trabalho melhor e ele sugeriu que ela comercializasse anúncios para a Rádio Mundial. O salário era por comissão, então, quanto mais ela convertesse, mais ganharia. A garota trabalharia vendendo patrocínios e anúncios avulsos, o que exigia disposição. Já no primeiro mês, dobrou o salário anterior e ganhava comissão todos os meses em que os anúncios permanecessem no ar.

Uma nova fase

Em um dia de trabalho, Magdala conheceu um rapaz que comercializava anúncios em diversos meios, além do rádio, o que lhe abriu um mundo de oportunidades. A jovem passou a diversificar suas vendas, agora também para cinema e jornal. Com essa mudança, Magdala e Normando tiveram a ideia de criar a Aeropublicidade e conquistaram diversos clientes, principalmente ligados à aviação. 

O produto era um invólucro para canetas que seria distribuído aos passageiros e onde anunciantes poderiam colocar sua marca. Um dia, notou uma placa anunciando a abertura breve do Hotel Trocadero, o que seria um cliente em potencial para seu trabalho com Normando. Conseguiu uma reunião com Dalmo de Vasconcelos, diretor da rede Othon, e saiu de lá com a proposta aceita.

Após esse primeiro trabalho, a relação com a rede cresceu e Magdala acabou conquistando outras demandas, mas precisava arrumar um bom desenhista para a ajudar, pois Normando estava prestes a viajar para a Alemanha e não poderia assumir. Então, um amigo indicou um jovem cartunista chamado Ziraldo Alves Pinto – que mais tarde se tornaria autor de best sellers infantis, famoso nacional e internacionalmente.

Começaram produzindo folhetos para a abertura do hotel, mas Dalmo solicitou mais serviços, como os cardápios do restaurante, entre outros materiais. Em meio ao trabalho, Ziraldo e Magdala ficaram amigos e ele se tornou seu braço direito enquanto Normando estava no exterior.

Dalmo sugeriu que fosse feita uma revista comemorativa para a abertura do Trocadero. Ziraldo foi quem deu o nome para a revista – Othonews – e cuidou da diagramação e das ilustrações. Magdala ficou com a responsabilidade pela produção das pautas e pelos anúncios, enquanto um colega de Ziraldo fazia a redação das matérias em português e inglês. Foram cerca de três mil exemplares distribuídos entre os presentes na festa de inauguração.

A criação da hotelnews

Magdala queria seguir com a revista como um house organ para a rede Othon, mas Dalmo afirmou que não havia interesse em investir na publicação. Entretanto, permitiria que a empresária continuasse o trabalho se conseguisse viabilizar a publicação com anúncios. Ela aceitou mais esse desafio, já com o sócio de volta ao Brasil.

Normando assumiu a publicidade para o segundo número da revista, mas ela não teve a aceitação esperada por parte dos dirigentes da rede Othon, que optou por cancelar o projeto. Magadala decidiu, então, seguir com a publicação por conta própria e conquistar novos negócios. Procurou Ziraldo para que a ajudasse na nova empreitada e ele prontamente a atendeu – nascia ali a hotelnews.

No início, a publicação era trimestral tratava de assuntos destinados aos turistas, mas, com o passar do tempo se tornou um periódico técnico de hotelaria. Em dois anos, a revista já era referência no setor. e passou a ser feita mensalmente, pois já recebia aporte financeiro suficiente, chegando a hotéis nos quatro cantos do país. Para divulgar ainda mais o trabalho editorial, os empresários começaram a frequentar os congressos nacionais e regionais de hotelaria promovido pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH).

Contato com representantes do setor

A primeira participação da revista em um evento promovido pela entidade foi no 12o Congresso Nacional Hoteleiro, realizado em São Paulo, em outubro de 1961. Para a ocasião, a dupla decidiu realizar uma reportagem especial em homenagem aos pioneiros da hotelaria e fundadores da ABIH. Durante o jantar de encerramento, ofereceriam a revista e pequenas taças de lembrança aos homenageados.

A revista circulou pelas mãos dos 400 participantes do Congresso e foi muito elogiada. A parceria continuou forte e os jantares dançantes dos congressos da ABIH logo se tornariam marca registrada da hotelnews.  Mais adiante, Normando conseguiu que esses eventos fossem patrocinados por grandes marcas. Os jantares passaram a atrair mais participantes que as próprias palestras. Tanto que o presidente da ABIH reclamou do fato com o casal. A empresária disse, então, que era comum que os participantes que vinham de longe acompanhassem suas esposas em compras.

A partir dessa observação, Normando teve a ideia de criar uma ação para atrair as mulheres para o evento, sorteando brindes que conseguiram com fornecedores – utilidades domésticas, cobertores, caixas de vinho, entre outros. Foi um sucesso: o sorteio alavancou o nome da revista e dos fornecedores que cederam os brindes, e garantiu a plenária da noite.

Exposição de Fornecedores para Hotelaria

Os empresários foram convidados a repetir a estratégia durante a 1a Convenção de Hotelaria do Estado do Rio, em Petrópolis, em junho de 1963. Desta vez, chamaram ainda mais atenção. Na época, o presidente da ABIH era Eduardo Tapajós, diretor administrativo do Hotel Glória. Foi ele quem deu a ideia de o casal montar nos congressos uma pequena exposição de produtos, com a presença de um representante de cada marca. 

A proposta previa a cobrança de um valor pelo estande e Tapajós sugeriu negociar uma comissão para a ABIH para cada espaço vendido. Nascia, então, a 1a Exposição de Fornecedores para Hotelaria, que depois teve seu nome modificado algumas vezes, e hoje é conhecida como Equipotel.

A estreia da exposição aconteceu no Grande Hotel da Bahia, em Salvador, em outubro de 1963, durante o 13o Congresso Nacional de Hotelaria. Foram apenas três meses de diferença entre a proposta e a realização do evento. Normando fez todos os cálculos, comprou o material, contratou um bom marceneiro e ajudou a confeccionar as estruturas com as próprias mãos. 

No dia do congresso lá estavam 15 estandes montados – todos simples, mas que davam a visibilidade desejada aos produtos. O evento foi um sucesso e recebeu cerca de 500 hoteleiros. A parceria com a ABIH continuou e os empresários seguiram os eventos itinerantes da entidade realizando exposições do mesmo modelo por todas as cidades pelas quais passavam.

Trabalho em família

A parceria entre Magdala e Normando transcendeu os negócios e os dois passaram a compartilhar a vida íntima de forma assumida. Em agosto de 1968, após um almoço em Santos, litoral paulista, que tinha potencial para gerar novos negócios, o casal voltava para casa animado, quando sofreu um acidente na estrada, fatal para Normando, aos 48 anos.

Arrasada com a partida precoce do companheiro, Magdala se jogou no trabalho. De início foi desacreditada, pois achavam que ela não teria pulso para seguir com os negócios sem o sócio. Na época do acidente, Katia, filha da empresária, pediu demissão do trabalho para ajudar a mãe a se recuperar e foi se familiarizando com os assuntos da empresa e resolvendo questões relacionadas à feira. 

Um mês depois, Magdala voltou definitivamente ao trabalho. Contratou dois redatores, mudou o estilo da revista, direcionando as matérias para uma abordagem menos de turismo, e trocou o slogan para Hotelnews: Revista Técnica de Hotelaria. O layout foi alterado e colaboradores ligados à hotelaria passaram a escrever na revista, que ganhou também novas seções voltadas para assuntos do segmento.

Como São Paulo já despontava como locomotiva da economia do País, propôs à Katia que abrisse uma filial na capital, em 1969. A moça aceitou a proposta e com o primeiro marido, Antônio Angelo, começou o negócio. Rosa Maria, que já estava morando na cidade com seu marido Luís Carlos, se juntou ao time em 1970, e tempos depois, ganhou o cargo de diretora da hotelnews.

No início da mesma década, empresas estrangeiras de diversos setores intensificaram o interesse no país. A maior presença de hotéis de alto nível no país, com gestão mais profissional, demandava informação qualificada. Assim, um ano depois, a hotelnews passou a editar o Catálogo Nacional de Fornecedores da Hotelaria, que se repetiria por 15 anos. 

No final da década, Katia e Magdala perceberam que a feira precisaria de mudanças. As despesas nas contas da Hotelnews Promoções LTDA eram altas e a visitação na feira se resumia aos participantes do congresso, cerca de 500 pessoas, o que acabava não gerando muitos negócios para os expositores.

A autonomia

Em 1981, em Balneário Camboriu (SC), foi realizada a última edição da feira em conjunto com o Congresso da ABIH e começaria aí o voo solo da Equipotel, que ganhou esse nome inspirada na L’Equipotel, feira do segmento realizada em Paris, na França. Em 1983, a Equipotel foi realizada pela primeira vez no Pavilhão de Exposições da Bienal do Ibirapuera e contou com 150 expositores e visitantes qualificados, entre eles hoteleiros, donos de restaurantes, hospitais, não mais apenas congressistas.

A feira crescia a olhos vistos, a cada ano ampliava o espaço físico e a infraestrutura. Em 1989 o número de visitantes chegou a 45 mil e, no ano seguinte, 60 mil, incluindo estrangeiros. A força do evento deu nova razão social para a empresa, que em 1985 passou a se chamar Equipotel Feiras e Promoções LTDA. A revista também cresceu em tiragem, bateu os 18 mil exemplares.

Quando estava perto de completar 70 anos, Magdala decidiu que não queria mais ficar resolvendo “pepinos” e precisava aproveitar a vida. Cogitou vender o negócio, mas Katia decidiu assumir a feira, e a empresária continuou dirigindo a hotelnews de sua residência, no Rio de Janeiro. Na década de 1990, a revista ganhava novos redatores e repórteres. Na abertura da Equipotel de 1989 passou oficialmente o bastão à filha, mas nunca se afastou completamente do setor.

A Equipotel começou a deslanchar com inovações e lançamentos de produtos, muitos importados. Em 1993 foi transferida para o pavilhão do Anhembi e passou a crescer de forma ainda mais acelerada – alcançou 40 mil metros quadrados e 900 expositores em 1999. Logo, a revista também foi transferida para a capital paulista, sob direção de Rosa Maria, e ganhou várias inovações editoriais e de design.

Já sem uma rotina diária de trabalho, Magdala se permitiu curtir a liberdade, arrumar as malas e ver o mundo. Fez diversas viagens na companhia da família, mas sempre teve ideias de negócios e costumava ir às feiras e reuniões para assessorar a filha. Quando percebeu que a Equipotel já dispunha de estrutura – pessoas e experiência -, decidiu criar outra feira, a Hotel Travel Show, que começou no pavilhão da Bienal e aconteceu por três anos seguidos a partir de 1998. A terceira edição precisou ser transferida para o Center Norte, que não tinha a mesma atratividade da Bienal, e que não justificaria o esforço da organização. Sendo interrompida nesse momento.

Nos anos 2000, Magdala deixou de atuar ativamente nos negócios da família, embora ainda acompanhasse o que acontecia no setor. A empresária fazia questão de estar presente em reuniões importantes, de comparecer anualmente à abertura da Equipotel, em São Paulo, e também dava sua contribuição à hotelnews com uma coluna intitulada Memórias, onde contava histórias vividas ao longo de sua trajetória.

A venda da Equipotel

Já na primeira década do século 21, as demandas exigiam que Katia se mantivesse em uma espiral ascendente de tarefas para dar conta de tudo e a executiva começou a pensar nas viagens de lazer que perdia por causa do trabalho, ainda que tivesse muitos funcionários a quem delegar funções. Por volta de 2009, identificou que a hora de vender o negócio havia chegado. Mas, antes, teve uma ideia para valorizar ainda mais a marca. Decidiu organizar uma segunda Equipotel por ano, desta vez, no Nordeste, em Recife.

A primeira edição aconteceu em 2011 e teve mais de 130 expositores. O acerto final da venda foi firmado em fevereiro de 2012 com a inglesa Reed Exhibitions, principal organizadora e eventos no mundo. Com a aquisição da marca, a Reed levou consigo 30 funcionários, deixando para a família Castro a revista hotelnews e seu pessoal. Desde então, a empresa passou a ser chamada de KRM Edições e Comercio LTDA, sendo comandada a princípio por Katia e Rosa, e atualmente por Alessandra Leite, neta de Magdala, e Marcio Loducca.

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