Ziraldo

Seus traços geniais marcam a história da “Hotelnews”

As primeiras edições da “Hotelnews” guardam os traços inesquecíveis de Ziraldo, que dispensa maiores apresentações, pois sua arte bem-humorada está intrínseca à vida brasileira. O interessante desta história é que Ziraldo e “Hotelnews” praticamente começaram juntos e souberam conduzir seus talentos com sucesso.

Era meado da década de 1950, quando Ziraldo e Magdala Castro, fundadora da “Hotelnews”, se conheceram no Rio de Janeiro. Trabalhando com publicidade, ela precisava de um designer. Mineiro de Caratinga, em início de carreira, ele tinha se mudado para a capital carioca, onde atuava em jornais e revistas, além de aceitar serviços free lancer. Assim se encontraram. Daí, surgiu outro trabalho: fazer uma revista para o Hotel Trocadero, que seria inaugurado em breve. Qual nome teria a publicação? Ziraldo tinha a resposta pronta: “Othonews”.

Ele conta: “eu pude dar palpite, no nome da revista, porque já tra¬balhava para dona Magdala há dois anos. Não me lembro mais como foi que a conheci, mas o primeiro trabalho que fiz para ela foi a programação visual dos papéis de um dos hotéis da família Othon. Lembro-me que desenhei tudo, menu, menu infantil, etiqueta, papel de carta, cartão… Lembro-me o dia em que dona Magdala veio me dizer que ia fazer uma revista de hotelaria para os Othon. Fui até visitar um deles, com ela, numa mansão da Zona Sul, com caminhos e jardins morro acima. Se ela diz que a sugestão do nome é minha, deve ter sido mesmo, pois sou o maior palpiteiro do mundo”.

Com sua criatividade bem-humorada, ele desenvolveu esses trabalhos, que foram mui¬to aplaudidos, tanto pela direção do hotel como pelos seus clientes. A parceria prosseguiu até a época em que foi lançada a “Hotelnews” e distribuídas as primeiras edições.

Sobre essa época, Ziraldo conta: “eu já havia trabalhado em agência de publicida¬de, tanto aqui, quanto em Belo Horizonte. O que teve de bom nas encomendas iniciais de dona Magdala – antes da revista – foi que eu estava de casamento marcado e o dinheirinho que ganhei (que ela me pagou direitinho), ajudou bastante nas despesas da lua-de-mel”.

Visite o Google

Tudo indica que não existem deta¬lhes desconhecidos em sua vida profissional. “Mineirinho come quieto, veio lá de Caratinga, comendo pelas beiradas e impôs seu talento de artista. É cartazista, teatrólogo, pintor e jornalista, cartunista, chargista, também é escritor. Em direito é bacharel, do Brasil é menestral, um tremendo profes¬sor”, conforme descreve o samba da Escola Nené de Vila Matilde, de São Paulo, que o escolheu como tema do enredo no carnaval de 2003.

Diante da indagação sobre a sua trajetória profissional, em uma tentativa de extrair alguma novidade, Ziraldo responde: “você quer que eu escreva um livro? Isto não é pergunta que se faça. Além do mais, já respondi tantas vezes perguntas parecidas como essa que, hoje, só me resta dizer: dá uma olhadinha no Google. Ou no meu site. Ou no meu blog”.

Vale a pena conferir as informações na internet para se lembrar de fatos tão in¬teressantes como o lançamento da primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor – “A Turma do Pererê”-, o hu¬morismo inteligente do “O Pasquim”, jor¬nal não-conformista que irritava a turma da ditadura militar (1964 – 1984), era assunto preferido dos intelectuais, universitários e até foi tema de trabalho acadêmico nas fa¬culdades de jornalismo.

Ziraldo dá outro mimo para esta ge¬ração que viveu o Pererê e “O Pasquim”, além dos quadrinhos para adultos (Mineirinho – o Comequieto, entre outros): uma imensa coleção de livros infantis, que divertem e educam seus filhos e netos. Difícil falar qual é o melhor, mas é certo que “O Menino Maluquinho” (1980) criou vida própria, atravessou frontei¬ras, ganhou versões em diversos idiomas, foi adaptado para teatro, quadrinhos, ópera in¬fantil, videogame, internet e cinema, além de gerar uma série de outros livros, entre os quais o “Bebê Maluquinho”.

Personagens

Nem mesmo Ziraldo sabe quantas personagens já criou. Afirma: “perdi a conta. Há alguns séculos, inventei dois meninos aventureiros que se chamavam Teleco e Tim. Suas aventuras eram publicadas na “Sesinho”, uma revista que o Sesi fazia para todo o Brasil. Depois criei todos os personagens da Turma do Pe¬rerê, um monte. Eu gostava muito de um que se chamava Galileu, era uma onça muito bonachona”.

“Depois criei a Supermãe, o Jeremias, o Bom, o Mineirinho e o Sêo Pin¬to, para o público adulto. Aí virei autor infantil e criei ‘O Menino Maluquinho’ e toda a sua turminha das histórias em quadrinhos. Criei o Bichinho da Maçã, a Vovó Delícia, a Professora Muito Maluquinha e as crianças que povoam seu universo.”

“Pra terminar, criei seis ou sete meninos, O Menino Mais Bonito do Mundo, o Menino Marrom, o Menino Quadradinho, os Meninos Morenos, o Menino do Rio Doce e, recentemente, o Menino da Lua, mais a Menina das Estrelas e, ainda, um menino para habitar cada um dos nossos planetas, cujas histórias estou escrevendo aos poucos, uma por ano. Isto é para garantir mais uns anos de vida para mim, tantos quantos planetas ainda existam para serem habi¬tados por meus personagens. Foi um jeito que eu arrumei de enganar a morte; ela ainda vai ter que esperar, pelo menos, mais alguns anos.” Com certeza, isso é tudo que seus fãs incondicionais também querem.

Ziraldo afirma que não tem notícias de que os meios de hospedagem de¬corem suas áreas infanto-juvenis com os seus personagens. É inacreditável! Como ocorre isso em um momento em que cultura nacional agrega valor ao produto? O criador avisa: “gostei da ideia. Se o pessoal da área gostar da sugestão, estou aberto a conversações”.

Indagado sobre a importância do setor hoteleiro em seus negócios, Ziraldo responde: “posso dizer que teve muita. Foi, como já disse, no co¬meço da minha vida adulta, quando, graças à dona Magdala, suas encomen¬das ajudaram a pagar o leitinho da Dani – hoje, Daniela Thomas – minha primeira filha”.

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