Vale do Café

Um passeio pela história do Brasil na época do ouro negro

Para quem aprecia a história do Brasil e quer viver um pouco na atmosfera de tempos atrás, o Vale do Café é um prato cheio. Localizada no Vale do Paraíba, no sul do Estado do Rio de Janeiro, a região turística é composta por 16 municípios- Barra do Piraí, Engenheiro Paulo de Frontin, Mendes, Miguel Pereira, Paty do Alferes, Rio das Flores, Valença, Piraí, Barra Mansa, Volta Redonda, Paracambi, Pinheiral, Paraíba do Sul, Rio Claro, Resende e Vassouras -, de acordo com informações do Guia Cultural do Vale do Café, lançado no ano passado pelo Ministério da Cultura.

Grandes atrativos turísticos da região, que se apresenta cercada por colinas ainda marcadas pelo cultivo do ouro negro, são as suntuosas propriedades rurais produtoras de café que sustentaram o Brasil durante toda a metade do século 19. O significado histórico, a arquitetura e o entorno das fazendas garantem experiências inesquecíveis a viajantes brasileiros e também estrangeiros. Ainda hoje, graças ao cuidadoso trabalho de conservação dos proprietários, é possível encontrar muitas peças utilizadas na época dos barões e baronesas do café, como a cadeira em que Dom Pedro II repousava na Fazenda Cachoeira Grande, em Vassouras.

A gastronomia é outro segmento que se destaca pelos municípios do Vale do Café. Com forte influência dos colonos de Minas Gerais, que migraram para a região no século 19, a cozinha é farta e repleta de opções de doces e salgados. Destaque para o café imperial servido em alguns estabelecimentos da região, como o Hotel Fazenda Galo Vermelho, também em Vassouras. No empreendimento há até receitas da época, como a do bolo que a Marquesa de Santos costumava preparar para o imperador do Brasil durante seus encontros, fornecida pelo historiador Paulo Podestá, pentaneto da marquesa.

Cachaça e cerveja também têm seu lugar na região. Em Miguel Pereira, por exemplo, há mais de 15 anos o engenheiro João Luiz Coutinho de Faria fabrica sua Magnífica. Destilado em alambique de cobre tríplices e envelhecido em barris de madeiras nobres, o produto é apreciado em diversos cantos do Brasil e também fora dele, em países como Alemanha e Inglaterra. Já no quesito cerveja, a cidade de Vassouras sai na frente com o Centro de Tecnologia Senai Alimentos e Bebidas, uma das únicas cervejarias-escolas do Brasil.

Já em Mendes é possível ver o calçamento ‘pé de moleque’ construído pelos escravos no século 19 e conhecer o Horto Municipal, que ostenta o título de maior local de plantio de mudas da Mata Atlântica do Brasil, com aproximadamente 200 mil unidades. Outro destaque da cidade é o Túnel 12, construído por empresas inglesas e americanas a pedido de Dom Pedro II para escoar a produção cafeeira da região. com 2.233 metros, foi o maior túnel ferroviário do mundo entre 1858 e 1865, e, ainda hoje, o maior da América Latina.

Conhecido pelas serestas e serenatas que encantam moradores e turistas, o distrito de Conservatória, em Valença, também guarda muita história ao longo de seus 320 quilômetros quadrados. Um dos pontos mais visitados é o Túnel Maria KomaidNossar, ou Túnel que chora, construído entre 1879 e 1883 pelas mãos dos escravos. Em seu interior há uma fonte de água pura que, segundo contam, quem bebe sempre volta.

Para os amantes da natureza, o lugar abriga a Cachoeira da Índia, com pequenos saltos e um poço com cerca de 70 metros quadrados e de pouca profundidade. A área é urbanizada, principalmente por conta do Balneário Municipal João Raposo de Melo, que oferece restaurante, bar, sanitários e quadras esportivas. A ufologia também é tema frequente em Conservatória, que tem fama de ser um dos lugares com maior incidência de aparições de objetos voadores não identificados do País.

Princesinha do café

Com pouco mais de 530 quilômetros quadrados de área total, 35 mil habitantes (segundo dados do IBGE 2013), a cidade de Vassouras é considerada a Princesinha do Café, por sua importância no período. É lá que estão algumas das fazendas mais icônicas da região, como a Fazenda da Cachoeira Grande, que pertenceu ao Barão de Vassouras e hoje, cuidadosamente restaurada, transporta o visitante a um passeio pelo século 19.

Foi lá que aconteceu o jantar com a princesa Isabel, quando os fazendeiros tentaram dissuadi-la da ideia de abolir a escravatura, como conta o atual proprietário da fazenda, Jorge Altino Joppert.Todos os móveis foram garimpados por Núbia Caffarelli, então esposa de Francesco Vergara Caffarelli, que assumiu a missão de restaurar o imóvel que caía aos pedaços em 1987. “Na época, o arquiteto Eloy de Mello, especialista em arquitetura colonial, e eu fomos contratados pelos Caffarelli para reformar toda a casa grande. As obras duraram quatro anos e foi tudo feito com muito cuidado para que não se perdesse a originalidade”, explica.

Hoje, Jorge é casado com Núbia e os dois recebem visitantes de várias partes do mundo contando um pouco da história do Brasil, da cidade e da propriedade. “Recebemos muitos estudantes, principalmente do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, e alguns estrangeiros. Trabalhamos sempre com muita alegria para divulgar a região do Vale do Café e suas riquezas históricas”, completa Núbia.

Outra fazenda muito importante na cidade e que vale a visita é a São Luiz da Boa Sorte, uma das maiores produtoras de café da época e hoje propriedade de Nestor Rocha e Liliana Rodriguez.Um verdadeiro museu, repleto de peças antigas e muita história, o casarão abriga cômodos impecavelmente decorados como no século 19, como os quartos do Príncipe e do Padre Cláudio. “Temos um projeto educacional que no ano passado recebeu cinco mil alunos de escolas estaduais da região. Abrimos mão de qualquer receita com esse negócio. Nosso objetivo é proporcionar a essas pessoas, geralmente de classes mais baixas, a oportunidade de entrar em contato com a história”, explica a jornalista Liliana Rodriguez.

Renovações e crescimento

Com cerca de 25 restaurantes e 13 meios de hospedagem (1,5 mil leitos), sendo apenas seis com registro no sistema Cadastur, do Ministério do Turismo, a cidade apresenta ocupação média de 65% no ano, sendo maior nos finais de semana. “Recebemos principalmente famílias e grupos de terceira idade vindos do Rio de Janeiro. Acredito no turismo pedagógico, que já acontece em pequena escala, como uma forma para aumentar a ocupação durante a semana”, afirma Vivian May, coordenadora de Turismo da Secretaria Municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Vassouras.

No ano passado, o município foi contemplado com investimentos do Pac Cidades Históricas, ação do Governo Federal em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), que tem como objetivo recuperar prédios tombados que hoje estão em estado crítico de conservação.”Já tínhamos muitos projetos prontos e buscávamos verbas para colocá-los em prática”, explica a coordenadora.

O valor oferecido para a restauração de oito imóveis tombados do centro histórico, segundo Vivian, foi de R$ 26,8 milhões. “As obras ainda não foram iniciadas, pois os projetos que apresentamos eram apenas preliminares. Temos ainda seis meses para a elaboração do projeto final de restauro e previsão de obras para 2015”, destaca Vivian.

Segundo a profissional, a secretaria está trabalhando também com roteiros temáticos – em conjunto com outros municípios da região – que tratem da história do café e do Brasil Império para atrair estrangeiros. “Além disso, acredito que novos hotéis e pousadas devam ser implantados nos próximos anos. Estamos terminando as obras do Mirante do Imperador e fomos contemplados com R$ 500 mil para sinalização turística urbana, o que vai ajudar na circulação dos visitantes. Neste mês de maio concluímos a implantação do Centro de apoio e atendimento ao turista, que concentrará informações sobre os atrativos e a região”, completa.

Deixe uma resposta