Turismo LGBT

A hotelaria brasileira está preparada? 

A diversidade de forma geral é, por si só, uma questão que ainda precisa de muita atenção atualmente, tanto no Brasil quanto no mundo. Dentro deste contexto, a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) vem ganhando cada vez mais espaço, isso devido à constante luta pelos direitos e pela igualdade, travada há décadas, para vencer os preconceitos e estereótipos de gênero e sexualidade firmados na sociedade.

No turismo, a realidade não é diferente: mesmo com o enorme potencial comprovado em números pela Organização Mundial do Turismo (OMT), e com a representatividade de visitação deste público em muitos destinos, ainda existem barreiras. Será que o País está realmente preparado para receber este turista, seja ele estrangeiro ou brasileiro? Será que a hotelaria está devidamente qualificada?

De acordo com a OMT, o segmento é o que mais cresce no turismo nacional, sendo 6,5% superior ao restante do setor, com gastos em média três vezes maiores. Em 2016, o público LGBT movimentou US$ 1,35 trilhão no mundo. No Brasil, em meio aos 200 milhões de habitantes, ao menos 13 milhões são parte da comunidade. Analisando rapidamente estes dados, percebe-se que há muitas possibilidades neste nicho ainda pouco explorado no País.

O País ‘saindo do armário’

Para Marcelo Michieletto, presidente da Associação Brasileira de Turismo LGBT (ABTLGBT), a pulverização sobre o assunto nos últimos anos trouxe uma percepção de que é preciso unir forças para sustentar uma divulgação mais eficaz a cada dia. “Eu não digo que o número está crescendo, mas sim que o Brasil está saindo do armário. O mercado sempre existiu, mas agora está se mostrando”, defende.

A entidade, que hoje é comandada por Michieletto, surgiu há treze anos. No final de 2017, será integrada à Câmara de Comércio LGBT, que passará a se chamar Câmara de Turismo e Comércio LGBT. Entre as missões da associação, estão o fomento de negócios entre associados e não associados, o trabalho de divulgação dos destinos e a realização de sensibilizações e capacitações acerca do tema. A ABTLGBT oferece conteúdo para empresas de turismo, para hotéis e para o viajante (público final), que visa ser bem atendido.

Segundo ele, a instituição acredita que a comunidade está distribuída igualmente no que diz respeito à classe social; existem pessoas de diversos níveis socioeconômicos. “O LGBT está com uma visão mais madura, procurando empresas que não sejam apenas gay friendly por interesse comercial. Percebemos que o homossexual brasileiro busca companhias, sejam hotéis ou agências de viagens, que tenham políticas internas focadas no assunto e preocupação real com a diversidade. É isso que tentamos, então, passar para os hotéis”, explica.

Na análise de Michieletto, o Brasil ainda está longe de ser um destino friendly. “É necessário que órgãos do turismo se unam. O governo não tem uma política com projetos voltados para a causa, por exemplo. Se o Brasil quer se mostrar LGBT, a iniciativa privada também precisa estreitar o relacionamento. Há muito a ser feito; diversas cidades ainda não podem ser indicadas para este público. Ser friendly é muito mais do que fazer um panfleto”, reitera.

Com a missão de trazer o turista estrangeiro para o Brasil, e levar o brasileiro para o exterior, a Associação Internacional de Turismo LGBT (IGLTA), comandada por Clovis Casemiro, existe no mundo há 34 anos e veio para cá em 1998, promovendo também o networking entre empresas do turismo interessadas neste nicho de mercado.

Otimista, ele acredita que o Brasil é receptivo ao estrangeiro e afirma que quase todas as capitais são gay friendly. Segundo ele, comparados a outros países da América Latina, somos um dos mais receptivos. Por outro lado, o coordenador da IGLTA afirma que falta posicionamento por parte das entidades brasileiras relacionadas ao turismo. (Veja a entrevista com Clovis Casemiro na página 10).

  

  

  

O LGBT na hotelaria

Como enfatizado pelo presidente da ABTLGBT, a hotelaria brasileira ainda precisa fazer “seu dever de casa”. O principal case de sucesso citado por ele é a AccorHotels. Em outubro de 2016, na sede localizada em Paris (França), foi criada uma célula especifica voltada para a diversidade e para a inclusão. Em fevereiro deste ano, a rede assinou uma carta de dez compromissos com o Fórum de Empresas e Direitos LGBT.

Ewerton Camarano é gerente geral do Novotel Jaraguá, na capital paulista, e foi nomeado embaixador do comitê LGBT da Accor no Brasil. Segundo o executivo, entre os principais eixos desta comissão está a valorização do colaborador, o que envolveu a empresa neste sentido para tratar o assunto de forma mais aberta.

“Como podemos ter colaboradores mais felizes se eles não puderem agir 100% da forma que realmente são? Esse foco do comitê vem para assegurar que um funcionário será avaliado somente pela meritocracia, e não por qualquer outra questão. Quando o diálogo começa a acontecer, invariavelmente vamos tirando alguns tabus e tratando de assuntos que precisam sim acontecer no ambiente de trabalho. Isso impacta na forma como o colaborador irá atuar, na maneira que os outros funcionários tratam a diversidade; e a ideia é que a diferença seja cada vez mais vista com naturalidade”, afirma Camarano.

O conselho é formado por diferentes pessoas de diversas gerações e níveis hierárquicos. Todas as ações são divulgadas em uma rede social interna e por um e-mail específico, aberto a dúvidas, reclamações ou sugestões. “Decidimos fazer uma cartilha interna, que foi enviada para todas as unidades hoteleiras da Accor”, reitera.

A cartilha explica os dez compromissos firmados, o significado da bandeira LGBT, o aspecto legal de discriminação e algumas dicas de operação (como tratar e o que evitar no recebimento de um hóspede LGBT, por exemplo), ligadas ao cotidiano. No documento há também um pequeno glossário para explicar o significado

de palavras (como cisgênero, transgênero, bissexual, e etc). A ideia foi tão bem recebida, que muitos hotéis inclusive replicaram o material e, até mesmo, distribuíram para clientes. A cartilha será, ao longo dos anos, constantemente atualizada. “O turista LGBT está nos nossos hotéis todos os dias, como o colaborador. A ideia é que, por meio da empresa, a Accor também consiga colaborar para desmistificar esse assunto na sociedade de forma geral”, diz Camarano.

O hotel Quality Suites Oscar Freire, localizado próximo à região da avenida Paulista, em São Paulo (SP), é associado da IGLTA desde junho deste ano. Leandra Gallo, gerente geral do empreendimento, relata que foi pensando na importância da discussão que o posicionamento do hotel ficou mais forte, apesar de já receber o público LGBT há tempos. “Eu não vejo isto como um segmento. Entendo que é um cliente, como outro qualquer, que deseja um serviço de excelência. Nosso intuito é levantar a bandeira da igualdade”, diz.

Segundo Leandra, o hotel ainda terá um treinamento ministrado pela associação, mas as conversas internas para abordar o tema de forma correta já são habituais. “Instruo os colaboradores frequentemente. Da mesma forma que você não pergunta na recepção quando o cliente chega se é realmente uma reserva com cama de casal no caso de heterossexuais, não há necessidade de perguntar quando chegam casais gay”, alega.

“As instruções são, principalmente, não olhar demais, não desviar o olhar e tratar qualquer cliente com cordialidade. Temos também um campo de nome social para o cadastro. São detalhes sutis, mas includentes”, coloca Leandra.

Danilo Scheibler, gerente geral do Hotel Majestic, de Florianópolis (SC), acredita que associação do hotel à ABTLGBT aconteceu naturalmente, principalmente porque o hóspede gay já era uma realidade para a empresa. “Para nós, não há treinamento específico ao segmento, e sim uma conscientização de que são hóspedes iguais a todos os outros e, portanto, devem ser tratados com o mesmo respeito, educação, gentileza e importância”, elucida.

Rodrigo Santana, gerente geral do TRYP Jesuino Arruda, no Itaim Bibi, bairro de São Paulo (SP), lamenta que estes consumidores ainda não se sintam seguros para realizar reservas em hotéis, com receio de serem desrespeitados. “Nós queremos ser um porto seguro para estas pessoas. Fazemos de tudo para que este público seja acolhido. Nossa equipe foi orientada a dar um atendimento cortês, e seguimos todas as solicitações de reservas, como cama de casal e pacotes especiais. Os treinamentos são feitos periodicamente pela gerência do hotel e consultorias externas. Inclusive, também temos um colaborador transexual, que nos auxilia neste caso”, conta.

Ele afirma que nunca tiveram problemas com pré-julgamentos de funcionários. “Quando o colaborador é contratado, todos são orientados a respeitar a diversidade e sabem que isto faz parte do bom serviço. Hoje todos os hóspedes têm a possibilidade de contar suas experiências de hospedagem em diversos sites de reservas e de avaliações de serviços turísticos. Sabemos o quanto é importante ser bem avaliado para que os demais viajantes saibam que nosso hotel é acolhedor”, expõe.

E os resorts?

Os resorts brasileiros possuem uma fama peculiar de receber, em sua maioria, as “famílias tradicionais” (formadas por casais hétero e filhos). Entretanto, segundo Luigi Rotunno, presidente da Associação Brasileira de Resorts (ABR), o público LGBT é, sem dúvida, também muito importante para a ocupação deste tipo de empreendimento.

“São pessoas exigentes, que buscam opções cada vez mais exclusivas para férias ou para eventos em grupos e esse alto nível de critério, inclusive nos ajuda a melhorar a prestação de serviço. Nos resorts, o público LGBT é sempre bem-vindo. Acreditamos que deve ser recebido com a mesma atenção e qualidade que todos os hóspedes. Cada meio de hospedagem possui sua estratégia de capacitação dos colaboradores, respeitando valores éticos, sem fazer qualquer distinção”, salienta.

Para Rotunno, o viajante LGBT que escolhe um resort sabe que irá encontrar famílias e crianças, portanto, tem conhecimento do ambiente. “Quando ele busca mais privacidade, vai escolher um resort com características para adultos”, exemplifica.

   Transexuais e travestis

Falar sobre os transexuais e travestis no mercado de trabalho é de extrema importância: segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% destas pessoas recorrem à prostituição em algum momento da vida, isso porque a inserção e as oportunidades no mercado de trabalho são quase nulas. Hoje em dia, o termo travesti, está constante e, erroneamente, relacionado à criminalidade e à marginalidade.

Há também, no uso do senso comum, uma confusão entre as duas palavras, o que coloca as duas categorias em situações semelhantes na sociedade. A inserção de mulheres transexuais e de travestis se dá também em empregos precários e vulnerabilizados, considerados “feminilizados”, como nas áreas de estética, limpeza e call center, como é abordado pelo livro “Feminização no mundo do trabalho”, de Cláudia Nogueira Mazzei.

Para que a hotelaria seja realmente friendly, é preciso entender as diferenças e apoiar os colaboradores, em qualquer situação, por exemplo.

Na AccorHotels há uma colaboradora que personifica essa realidade. “Há sim dificuldade para encontrar emprego”, afirma Cibele Pereira Silva, atendente de A&B no Pullman Guarulhos (SP). A garçonete é uma mulher trans há quatro anos, e trabalha há sete no hotel, ou seja: passou por toda a sua transição dentro do empreendimento. Ela conta que no início teve medo da reação dos colegas de trabalho e da própria empresa. Procurou, então, o setor de recursos humanos para explicar a situação, e teve todo o apoio necessário. “A Cibele precisava florescer e eu tive uma ótima surpresa em relação ao posicionamento da empresa. O RH do hotel sempre me apoiou em tudo”, conta.

“Gosto de dizer que vivenciei duas fases dentro da hotelaria: uma como homem gay e uma como mulher trans. Aos poucos, fui tomando hormônio, deixando o cabelo crescer e fazendo todas as mudanças que precisava. Sabemos que a transexualidade é muito marginalizada pela sociedade. Se você é gay, você ainda está nos padrões; mas, e quando você começa a se vestir de mulher? Como os colegas vão reagir? Por incrível que pareça, eu fui bem aceita por eles, e também pelos hóspedes habitués”, explica. “Eu sou Cibele, e no hotel eu sou tratada como Cibele. O cliente olha meu crachá e me trata por ‘ela’. É muito bom ter esse respeito. Eu me sinto em casa e muito valorizada no meu trabalho”, reforça.

Cibele, inclusive, indica a AccorHotels para amigas trans que buscam oportunidades de emprego. “Uma amiga que está em transição há um ano se inspirou em mim e conseguiu um emprego, também no Pullman Guarulhos, e está lá até hoje”, diz.

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