Sobreviver antes de retomar

Por Toni Sando

Avançando para o terceiro mês de quarentena no Brasil devido à pandemia da COVID-19, a ansiedade em terras nacionais frente a destinos no mundo que começam a retomar as suas atividades é grande. Entretanto, para voltar, é preciso primeiro sobreviver.

O principal desafio enfrentado no País, além da preservação da saúde da população, é em relação à geração renda e manutenção do emprego. Os empresários e empreendedores se encontram no limite para honrar a folha de pagamento, compromissos e dívidas.

Da parte dos trabalhadores, não é mais real a oportunidade gerada por demissões que garantiam, em outros tempos, rescisões, multas, acesso a seguro desemprego e FGTS, para, assim, abrir o próprio negócio; seja porque os empresários não possuem caixa para a demissão, preferindo optar por soluções como suspensão de contrato entre outras medidas; seja porque não há mercado consumidor para novas empresas no comércio e serviços.

Mesmo sendo o emprego uma das frentes mais defendidas pelo poder público e pela iniciativa privada, as medidas tomadas em março já envelheceram e estão desatualizadas. Muitos negócios  não vão sobreviver apenas com três meses de acordos, uma vez que a crise perdurará por mais tempo que o imaginado.  É preciso a prorrogação do acordo trabalhista, de linhas de crédito de fácil acesso e revisão no pagamento dos tributos.    

Mas não se engane: a quarentena e isolamento social são importantes, sim. São ações que protegem a si, a família, amigos e pessoas próximas. São as melhores orientações para o enfrentamento da crise, assim como as medidas complementares.  Além de salvar mais vidas, evitam a superlotação em hospitais com limitados números de leitos de UTI.  A pandemia exige que a ciência mobilize todo conhecimento em busca de solução e que a liberação dos setores econômicos retome de forma responsável.  

Os protocolos

Somando os momentos de sobrevivência e retomada, surgem os protocolos, que têm como objetivo garantir a segurança tanto da população consumidora de bens e serviços quanto para os funcionários dos estabelecimentos.

Mais do que a criação de selos de higiene, os protocolos nascem da união do diálogo da iniciativa privada, representada por suas associações e entidades de classe; com o poder público, responsáveis por legitimar as novas condições de trabalho. A confiança, então, será oriunda do comprometimento das empresas por seus consumidores e colaboradores.

O Estado de São Paulo fez um trabalho de integração do Governo, Secretarias e Setores representados pelas entidades, lançando o Plano São Paulo, com uma série de protocolos segmentados e que será usado como matriz nos protocolos municipais. Cidades como Bento Gonçalves, Bonito, Gramado, lançaram seus protocolos e selos para retomada gradativa e segura.

O Ministério de Turismo também lançará um selo através do sistema do  Cadastur, com o compromisso de quem usar em seu estabelecimento,  seguir os protocolos recomendados.  Em paralelo, para o setor de eventos, há também o GoLive, movimento de executivos e empresários em prol da boa implementação dos protocolos para retorno breve e seguro da atividade econômica.

Há dois fatores cruciais sobre a retomada: o primeiro vem das poucas vantagens em se enfrentar um desafio global, ou seja, poder contar com exemplos. Em outras palavras, há destinos no mundo em momentos diferentes da pandemia, muitos já retornando as atividades, com erros e acertos. Cabe ao País seguir os bons exemplos e colocar a pandemia como prioridade nacional. 

E, por fim, é preciso atenção para a não burocratização da execução nos novos protocolos. As empresas vão estar com suas finanças fragilizadas e não poderão investir em novos colaboradores ou estruturas demasiadamente caras. É preciso, com segurança, a  praticidade e viabilidade.

A retomada

Aos que sobreviverem e implementarem os novos protocolos, poderão contar com uma boa expectativa de retomada, que, com foco, poderá ser em médio prazo, ainda que gradativa. Para o setor de turismo, eventos e viagens, será preciso paciência e equilíbrio, afinal, é de sua natureza gerar aglomeração.

Entretanto, em uma rápida análise, pode-se concluir que o turismo de lazer será o primeiro a reagir, uma vez que sairemos de um período de quarentena. As viagens curtas e regionais serão a bola da vez, com destaque para carros e rodovias, evoluindo passo a passo para a retomada da aviação e sua malha aérea. É neste momento que os Estados (setor público e iniciativa privada)  precisam, desde já, promoverem seus atributos e a tecnologia com seus aplicativos e plataformas com inteligência artificial, serão os grandes aliados.

O brasileiro, no geral, não conhece o próprio país, e esta será a oportunidade para surpreender os viajantes. O ponto de atenção, neste caso, recai sobre a ansiedade e dificuldades geradas pela crise, em querer recuperar o déficit do primeiro semestre, praticando preços altos que o consumidor não vai aderir. Mais uma vez, o momento exige equilíbrio e paciência.

As associações e as relações público-privadas

Já dizia o provérbio: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”. Em momentos de crise se exalta a importância de associações representativas e entidades de classe para um setor. Com o avanço da pandemia, diversas medidas foram e serão ainda tomadas para o enfrentamento, sobrevivência, retomada e implementação do “normal controlado”.  E é neste momento que as entidades setoriais,  com bases consistentes de dados, precisam dialogar com o  poder público em seus três níveis, municipal, estadual e federal,  para que na criação de decretos, projetos de leis e medidas provisórias com o objetivo de designar condições para preservação do emprego, manutenção da operação, revisão de tributos e aquisição de linhas de crédito,  possam ser validadas com o setor.

Alguns movimentos  foram criados neste período, o G8, grupo de entidades de hotéis, parques e destinos, o Supera Turismo , Grupo das  Operadoras e Agencias, o GoLive da área de Eventos. Além disso,  os grupos de WhatsApp, tem estimulado a participação e debate entre empresários e  profissionais do setor, como Conexão Turismo Brasil,  Amigos do Trade, entre outros.

O “novo normal”, ou melhor, o “normal controlado” e o pós-crise

A crise causada pelo novo coronavírus só será superada, de fato, após o surgimento de uma vacina produzida em larga escala. Até lá, o “novo normal” será o que ditará o dia a dia da população, também conhecido como “normal controlado”, na qual se trabalhará com toda a economia aberta, mas com protocolos ainda rígidos para conter uma nova propagação da doença.

Seja no novo normal ou na pós-epidemia, a crise dá luz e acelera uma série de processos evolutivos de costumes e de uso da tecnologia que demorariam anos para se estabelecer. Neste laboratório, fomos todos forçados a participar e colocar em prática, em tentativa e erro,  novos modelos de negócios e relações de trabalho. E há muitos pontos positivos nesta experiência.

Nos escritórios, diversas empresas analisam permanecer com o home office para as equipes, se mostrando tão eficiente quanto o trabalho presencial, assim como as reuniões por aplicativos de conferência. Por outro lado, se antes havia o medo da tecnologia suprir a necessidade de feiras e congressos, hoje vemos que os encontros presenciais são mais do que necessários, seja para networking, relacionamento e apresentação de tendências e lançamentos. Os eventos, mesmo com uma face híbrida fortalecida, vão retornar ainda mais relevantes.

Os Conventions & Visitors Bureaus e Entidades de Destinos,  mesmo frente à pandemia, mantêm seu trabalho de captação de eventos de médio e longo prazo.  Passada a crise, os destinos contarão com um calendário recheado para 2021 e os próximos anos, garantindo uma retomada gradativa ,  mais sustentável. A contribuição e manutenção da associação por parte de seus membros se mostra ainda mais essencial para a economia do setor e garantir oportunidades no futuro.


Toni Sando é presidente da Unedestinos, presidente executivo do Visite São Paulo e 1º. VP da Associação CVBs Latam & Caribe


Foto de capa: André Stefano

Deixe uma resposta