Retomada do turismo: ingenuidade ou má fé?

Por Fabio Steinberg

A terrível epidemia do coronavírus que assola o mundo continua a deixar graves sequelas no Turismo. Quase ninguém em sã consciência acredita que, mesmo após o trauma ficar para trás, as coisas serão exatamente como antes. Quem terá coragem de viajar, nas mesmas condições do passado, como se nada tivesse acontecido?

No meio de tanta incredulidade, há uma inacreditável exceção. E vem justamente de quem atua no Turismo brasileiro. Como se vivessem realidade paralela, seja por ingenuidade ou vontade de que os negócios voltem a florescer, esta gente fala em uma pretensa retomada do Turismo.

Ora, sejamos honestos. Não estamos convivendo com uma tempestade de verão, que assusta para logo depois o sol voltar a brilhar. Uma coisa é ser otimista; outra é não encarar os fatos de frente. Falando claro, a epidemia nem acabou ainda, nem tem data precisa para terminar. E quando terminar, deixará sequelas irreparáveis de comportamento.   

Vender o peixe ao distinto público de que as coisas estão voltando à normalidade é, na melhor das hipóteses, um desserviço. Até porque os fatos têm se encarregado de desmentir este comportamento negacionista. Estamos diante de uma das piores crises que o planeta já viveu. Aos trancos e barrancos, a realidade se impõe a estes Don Quixotes de araque.

Exemplos não faltam.

São os anúncios de temporadas de cruzeiros – um dos maiores celeiros ambulantes de contaminação – de que as coisas estão sob controle para, diante de fatos e experiencias desastrosas a cada mês ter que adiar datas de início. Há também ofertas questionáveis de turismo doméstico – até porque não há opção, já que mundo fechou as portas para o Brasil. São promessas de viagens para destinos internos, quando a maioria dos locais brasileiros mal controla suas mazelas sanitárias.

Autoridades despreparadas e associações de classe irresponsáveis prometem mundos e fundos para o reinício das operações turísticas que, já sabemos, tão cedo não virão. Constroem assim um edifício surreal que fica na esquina da Rua Faz-de-Contas com a Avenida Me-Engana-Que-Eu-Gosto.

É verdade que as companhias aéreas tomaram todas as precauções e adotaram os mais rígidos protocolos para preservar a saúde dos clientes e tripulantes. Mas uma viagem não é apenas o voo em si. Existe também o risco do percurso terrestre, manuseio de malas, contato com pessoas, circulação pelos aeroportos, comércio, alimentação, entre outros.

A cereja deste bolo recheado de mentirinha curta é ofertada por parcela significativa da dita imprensa especializada em Turismo, que dá voz a verdadeiros predadores da realidade. Trata-se em geral de fontes duvidosas oriundas ou tangentes ao setor como consultores, autoridades ocasionais, ou associações de classe, seja por obsolescência profissional, puros interesses comerciais, puxa-saquismo explícito ou mero instinto de sobrevivência. São sempre os mesmos, e nem é preciso dar nome aos bois.

Jornalistas que se intitulam do turismo contribuem de forma inusitada para desenhar este cenário de Poliana. O saudosismo explica. Antes rechonchudos, apresentam-se agora esquálidos, prováveis vítimas da ausência dos generosos regabofes que pululavam pelos eventos e bocas-livres do setor. Junto com influenciadores e blogueiros que lamentam a ausência do seus selfies em frente a monumentos, piscinas de hotéis, precipícios e cascatas, este grupo se apressa em reportar pelas mídias uma normalidade que inexiste.

Poucas vozes lúcidas do Turismo se interpõem a este falso ufanismo. Cautelosos e com os pés no chão, preferem substituir a expressão “retomada” por “reconstrução”. Ou, para os mais radicais, “construção” seria o termo exato.

Mesmo assim, há motivos para otimismo. É que esta crise sanitária internacional pode ser vista como uma oportunidade única para o Brasil rever seus conceitos sobre o Turismo. Todos os destinos, por mais populares que sejam, foram zerados devido à pandemia. Daqui a alguns meses começa uma nova concorrência pelo viajante de negócios ou lazer. Esta é a hora de gastar energias e talentos para reavaliar e reposicionar o Turismo para o Brasil.

Para isto, é preciso coragem e vontade de dispensar velhos e cômodos conceitos, muitos deles disfuncionais e falidos. Este é o momento ideal para conhecer os melhores modelos de destinos vitoriosos, agregar novos valores e personagens, ouvir o mercado, planejar e inovar. Sem amadorismos ou achismos.

Uma coisa é certa: o Turismo nunca vai acabar. Com certeza, renascerá passada a crise. Só que sob novos formatos e administração.


Fabio Steinberg é jornalista independente, escritor de livros e autor do site Turismo sem Censura


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